Discos

8 discos que te podem ter passado ao lado em 2020

O Espalha-Factos apresenta uma lista de oito belos discos "perdidos" lançados em 2020.

2020 foi um ano marcado por excelentes lançamentos musicais, tanto em Portugal como além-fronteiras. Com tanta música disponível a poucos cliques de distância, fruto das plataformas de streaming ou Bandcamp, torna-se complicado filtrar tudo o que ouvimos.

Torna-se, até, complicado decidir o que ouvir ou o que não ouvir. No entanto, o caminho para a descoberta musical nunca deve de ser fechado. Por isso, e com o término de 2020 a aproximar-se, o Espalha-Factos selecionou oito discos “perdidos”, lançados durante 2020, que tens de descobrir.

Ana Roxanne – Because of a Flower

Depois de ter lançado o seu EP de estreia no ano passado, ~~~, Ana Roxanne lançou no último trimestre de 2020 o seu primeiro longa duração, intitulado Because of a Flower

Este disco é uma continuação do trabalho de música ambiente desenvolvido em ~~~. As composições de Ana surgem de questões relacionadas com a identidade própria, a beleza e a crueldade, evidenciadas nos instrumentais criados para este trabalho.Há vocalizações misteriosas que vão surgindo de forma intermitente, como em ‘A Study in Vastness’, com os seus sintetizadores etéreos e belos, ou ‘Camille’, uma peça de ambient pop onde uma bateria doce ganha espaço na melodia efémera. 

Os sintetizadores são, de facto, os grandes motores deste disco, fazendo-o balancear entre a música ambiente a new age, observável em ‘Venus’, faixa calmante onde gravações oceano vão acompanhando a sua evolução. Há baixos que vão surgindo ao longo do trabalho, conferindo-lhe um carácter misterioso. Exemplos disto são as faixas ‘Suite Pour L’Invisible’ e ‘Take the Thorn, Leave the Rose’, que fazem lembrar algumas das composições de Angelo Badalamenti para a banda sonora de Twin Peaks. Because of a Flower é um disco de imensa vastidão e beleza, que se estende por campos e prados verdes imensos, pintado com toques de mistério etéreo nas suas melodias minimalistas e confortáveis ao ouvido.

CD Ghost – Dreams We Share

Os CD Ghost são um duo musical constituído por Cody Han (vocais) e Blake Dimas (teclados) de Long Beach, California. Dreams We Share é o nome do seu segundo EP de 2020, tendo o grupo feito a sua estreia também durante o ano, com Ghost Hunting

Em Dreams We Share, o pop psicadélico de CD Ghost continua a ganhar forma. Os sintetizadores são calorosos e divertidos, mas ao mesmo tempo, sombrios e melancólicos, ecoando influências de grupos como MGMT, Beach House ou Alvvays, com as suas atmosferas carregadas de reverb e melodias orelhudas que é impossível ignorar. Isto é notável em todas as seis faixas do projeto, mas ‘Lullaby’ e ‘Undercurrent’ destacam-se no campo de ficarem presas na cabeça do ouvinte. 

CD Ghost é um daqueles projetos que parece ter muito espaço para crescer. É para ficar atento ao seu desenvolvimento.

El Michels Affair – Adult Themes

El Micheld Affair é um grupo de soul e funk fundado pelo músico nova-iorquino Leon Michaels. A banda tem laços próximos com o grupo de hip-hop Wu-Tang Clan, trabalhando com eles nos álbuns Enter the 37th Chamber e Return to the 37th ChamberQuatro anos depois do seu último lançamento, o grupo de Leon Michaels regressa com Adult Themes. Este é o primeiro álbum de originais desde Enter the 37th Chamber

Michaels explica o processo criativo do álbum na página de Bandcamp do mesmo. “Em 2017, entre produzir, tocar e gravar discos de outros artistas, Leon Michaels começou a compilar pequenos interludes para serem utilizados por produtores de ‘hip-hop’. Alguns destes foram usados em canções de Jay-Z e Beyoncé, Travis Scott e Don Oliver. (…) Michaels estava a divertir-se tanto com a criar estes ‘nuggets’ orquestrais e instrumentais que decidiu expandir algumas das suas ideias e criar o que viria a ser a banda sonora de um filme que ainda não foi feito, um filme imaginário chamado ‘Adult Themes’”. 

Michaels bebeu de diferentes influências para a conceção deste novo álbum. Por exemplo, a canção de abertura, ‘Enfants’, cantada por Shannon Wise, dos The Shacks, é uma melodia acústica, que parece ter sido encontrada na cave de Jane Birkin, ou John Lennon. Ou seja, traz à memória a música experimental do início dos anos 60. A secção de sopros e de percussão lembra a ‘You’ve Got to Hide Your Love Away’, dos The Beatles, enquanto a voz delicada lembra as canções de Jane Birkin e Serge Grainsbourg. Por sua vez, ‘Kill The Lights’ é uma fusão de Ennio Morricone com DJ Shadow. A parte melódica, de cordas e sopros, pertence a um western realizado por Sergio Leone, enquanto a secção rítmica criada numa drum-machine poderia ser encontrada em Entroducing… de DJ Shadow. A faixa “Life of Pablo” seria com certeza aproveitada por Quentin Tarantino para Kill Bill, caso o álbum tivesse sido lançado 13 anos mais cedo. Contudo, é com músicas como “Villa” em que Michaels mostra que este é um álbum de El Michaels Affair.

Em suma, o álbum traz-nos faixas de hip-hop melancólicas e bem nova-iorquinas, que não deixa de esticar as barreiras do género, como o grupo sem habituou os fãs.

John Petrucci – Terminal Velocity

John Petrucci é conhecido por ser guitarrista da banda de metal progressivo Dream Theater. Em 2020, quinze anos depois do seu primeiro álbum a solo, Petrucci lança Terminal Velocity

Na descrição do videoclipe da faixa que dá nome ao disco, a editora The Orchard Music explica o processo criativo deste projeto. “No início de março de 2020, enquanto a pandemia de Covid-19 estava lentamente a deixar a sua marca no mundo, em especial Nova Iorque, John começou nas músicas que constituíram ‘Terminal Velocity’, no quartel general dos Dream Theater, em Long Island, com o engenheiro de som Jimmy T”. O álbum trouxe uma surpresa para os fãs da banda, pois o antigo baterista dos Dream Theater, Mike Portnoy, voltou a colaborar com Petrucci. 

No entanto, não é preciso ser fã de metal para apreciar o disco de Petrucci. Para aqueles que não estão familiarizados com o género, Terminal Velocity pode ser um ponto de partida para descobrir um gosto musical novo. Ainda assim, Petrucci brinda-nos com músicas como ‘Out Of The Blue’, que, tal como o nome indicada, tem uma base de blues por detrás. Do mesmo modo, a faixa ‘Snake In My Boot’, a única canção com menos de cinco minutos, insere-se mais no género de rock progressivo. Por fim, Petrucci fecha o álbum com ‘Temple Of Cicardia’, uma odisseia de sete minutos e dez segundos, que prova a mestria do guitarrista em qualquer género musical, desde que tenha uma guitarra entre os braços. 

Luedji Luna – Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água

No seu segundo disco, Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, Luedji Luna volta a apresentar um dos discos mais interessantes a florescer da música brasileira. É um trabalho aonde o feminino e a mulher têm um papel de destaque, servindo quase como uma emancipação de Luedji não só como artista, mas também como mulher num mundo que é ainda, infelizmente, dominado na sua maioria por homens.

Em Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água, a voz bela e suave de Luedji Luna sobressai pelo meio de instrumentais que misturam jazz e funk, como em ‘Chororô’ ou ‘Goteira’, bossa nova e pop, observável em ‘Ain’t I a Woman?’, havendo espaço ainda para estes géneros todos se misturarem com toques mais experimentais e progressivos, como se pode ouvir em ‘Tirania’ ou ‘Origami’. Há momentos de beleza enorme neste disco, como em ‘Lençóis’ ou ‘Manto da Noite’, capazes de se revelarem progressivamente mais calorosos à medida que a faixa se desenvolve. Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água é, mesmo, um disco belíssimo, que prova que Luedji Luna é uma artista com capacidade para cruzar várias barreiras entre géneros musicais.

Pretty Sick – Deep Divine

Diretamente de Nova Iorque, o grupo Pretty Sick revelou, em 2020, o seu segundo EP, Deep Divine. A banda, constituída por Sabrina Fuentes (vocais), Orazio Argentero (baixo), Wade Oates (guitarra) e Austin Williamson (bateria), assinou este ano pela gravadora Dirty Hits, casa de artistas como The 1975 ou beabadobee. Deep Divine funciona, de certa forma, como a apresentação “oficial” do grupo ao mundo da música. 

A sua estética DYI, que podia já ser encontrada no EP homónimo de estreia do grupo, sobressai ao longo do trabalho. Os instrumentais soam crús, com as suas guitarras barulhentas, mas melosas, e baixos pesados, a fazerem lembrar artistas como PJ Harvey, Liz Phair ou Hole. O grunge e o rock alternativo dos anos 90 são claras influências no som da banda, notável em faixas como ‘Allen Street’ ou ‘Telephone’. Esta última apresenta toques de pop na sua construção, funcionando um pouco como o hino deste trabalho.

Os vocais distantes de Sabrina soam intimistas mas incertos, contribuindo para uma expressão musical em forma de sentimentos que soa catártica e insegura. Há um certo charme e melancolia na forma como a voz de Sabrina desliza pelo meio dos instrumentos que a rodeiam, profundamente revelado em ‘Superstar’, faixa que culmina num solo de guitarra suave e meloso. Apesar de ser notório as suas influências, Deep Divine é um trabalho sólido e que abre a curiosidade para saber aonde o garage rock dos Pretty Sick poderá ir a seguir.

The Goalie’s Anxiety at the Penalty Kick – Ways of Hearing

Ways of Hearing é o disco de estreia de The Goalie’s Anxiety at the Penalty Kick, banda da Pensilvânia constituída por Alyssa Resh (bateria, teclas), Ana Perez (violino), Becky Hanno (teclas, vocais), Ben Curttright (guitarra, vocais), Michael Foster (baixo) e Sean Matthew Kelley (guitarra).Os vocais partilhados entre Ben e Becky são capazes de criar harmonias belíssimas, veja-se ‘We Love You So Much’, com o seu instrumental grandioso a criar um ambiente perfeito para as vozes se juntarem.

Para criar estes instrumentais, a banda retira influências de bandas como Carissas’s Wierd ou American Football. A sonoridade do grupo viaja algures entre o slowcore, com os seus instrumentais carregados de melancolia, notável em ‘Joseph Stalin’ e ‘Everyone Around Us’, o midwest emo, com as suas trocas entre momentos mais subtis e momentos mais intensos, como acontece nos climaxes belos de ‘An Olive Coat’ ou ‘The Cat Stands on My Arm’. Ways of Hearing é um disco melancólico, mas que oferece conforto nestes tempos difíceis.

Vennart – In the Dead, Dead Wood

Lançado exclusivamente no Bandcamp, In the Dead, Dead Wood é o terceiro disco de Vennart, nome pelo qual se apresenta a solo Mike Vennart, ex-guitarrista e vocalista dos Oceansize. O grupo britânico, durante a década de 2000, foi responsável pelo lançamento de alguns dos mais aclamados discos de post-rock dessa década. Desde do término da dos Oceansize, em 2011, Vennart tem feito parte do alinhamento ao vivo dos Biffy Clyro, além da sua carreira a solo.

Em In the Dead, Dead Wood, Vennart explora o mundo do rock, mas à sua maneira. À semelhança de trabalhos prévios, a veia progressiva do artista surge de forma bastante evidente. Existe uma elevada variação de ritmos, com trocas e baldrocas características de math rock, ao longo do trabalho, observável em faixas como ‘Super Sleuth’ ou ‘Elemental’. As guitarras são cruas e melancólicas e crescem rodeadas de baixo e bateria com grooves experimentais até aos climaxes belos, como acontece em ‘Mourning On The Range’ ou ‘Forc In The Road’, que fecha o disco. 

A entrega vocal de Vennart é bastante potente e frontal, evidenciada claramente na faixa ‘Weight In Gold’, aonde o seu alcance é todo revelado, fazendo lembrar um pouco Mike Patton. In the Dead, Dead Wood é um disco extremamente bem conseguido, e que apesar dos seus toques de experimental, é memorável em praticamente todos os seus momentos.

Texto e escolhas de Miguel Rocha e Diogo Oliveira.

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