2020
NICO TAVERNISE/NETFLIX © 2020.

2020: Os melhores filmes do ano para o Espalha-Factos

O ano de 2020, que dá agora os últimos suspiros, causou um autêntico terramoto na sétima arte. O cinema nunca viveu algo assim. A pandemia teve, como principais efeitos, o encerramento das salas durante largos meses ou o adiamento dos principais blockbusters que, normalmente, marcam o ano. Ainda assim, existiram muitas estreias dignas de nota, merecedoras do nosso aplauso.

O Espalha-Factos já tinha alertado que, apesar de não parecer, estavam a estrear excelentes filmes em 2020. Para os mais desatentos, parece uma mentira, mas não é. Tanto não é que, apesar de este ter sido um ano terrível, no mínimo, deu ainda para se escolherem os cinco melhores filmes que nos fizeram esquecer, durante duas ou três horas, o mundo que nos rodeia. Ficam aqui as escolhas da equipa do Espalha-Factos, com desejos de que 2021 traga saúde para todos nós, mas também para o cinema.

Os 7 de Chicago

2020 foi um ano em que algumas das obras lançadas pareceram ter assustadoras aproximações aos acontecimentos do nosso quotidiano. Da 5 Bloods, de Stan Lee, lançado no meio de um clima a ferro e fogo, após a morte de George Floyd, chamava a atenção para a necessidade da reparação para com a comunidade afro-americana, por ter sido obrigada a entrar numa guerra que não era a sua. Os 7 de Chicago, de Aaron Sorkin, lidou também com as ramificações da Guerra do Vietname, para além de uma luta pelos direitos humanos que, bem sabemos, foram sendo ameaçados, principalmente nos Estados Unidos.

Os 7 de Chicago estreia na Netflix em outubro
Fotografia: (NIKO TAVERNISE/NETFLIX)

A dramatização da cena em que Bobby Seale se vê acorrentado, literalmente, da boca aos pés, em pleno tribunal, para ser impedido de falar, é uma autêntica lição de história de Sorkin. Com todo o ambiente em volta do movimento Black Lives Matter, 2020 foi um ano em que as pessoas sentiram a urgente, e tão importante, necessidade de se educarem, procurando documentários, livros e filmes sobre o histórico do racismo sistémico norte-americano e para perceberem as ramificações nos dias de hoje. O maior elogio que se pode fazer a Os 7 de Chicago é que, nos próximos anos, fará, de certeza, parte das listas de recomendações que andam pela internet. É assim tão bom.

Podes recordar aqui a crítica do Espalha-Factos ao filme.

Tenet

Vi Tenet pouco tempo depois da sua estreia. Ofereci o bilhete para o filme, assim como um balde generoso de pipocas, à minha irmã, como prenda de aniversário. Para alguém com um amor e dedicação ao cinema como o que a minha irmã tem, foi a prenda perfeita. Infelizmente, em 2020, ainda não tinha entrado numa sala de cinema. No meu caso fui ver dois filmes antes da quarentena obrigatória. No entanto, parecia que não tinha entrado numa sala há anos. Escolhemos ir a um cinema pequeno, perto de nossa casa, que, muito sinceramente, é terrível. A sala e o ecrã são pequenos, as cadeiras desconfortáveis, a qualidade de som não é nada de mais. Contudo, foi lá que nos apaixonamos pelas histórias em frames por segundo.

John David Washington em Tenet, o novo filme de Christopher Nolan
Reprodução/D.R

Então, se Christopher Nolan decidiu salvar o cinema em 2020, íamos assistir ao resgaste no sítio que tem mais significado para nós. Ver o Tenet, no contexto em que vivemos, fez-me sentir como uma criança, que começou a ver e descobrir filmes por gosto. Lembrou-me de quando deslizava do sofá para a carpete da sala, fascinado com o que estava a ver. É uma sensação incrível. Um enredo tão original, complexo, que requer mais e mais atenção fez-me desligar do mundo louco por detrás da pesada porta de entrada na sala. Enquanto o 2, que identificava a sala, brilhava em néon azul, eu perdi-me no que é um dos meus filmes favoritos do Nolan e deste ano. A dupla John WashingtonRobert Pattinson marcam duas das melhores performances do ano. Para mim, um momento chave no panorama cultural de 2020 é, sem dúvida, a estreia de Tenet. Decerto, representou para muitos cinéfilos um ponto de viragem, pois foi possível regressar à magia do cinema. Espero ter conseguido transpor a magia que vivi na minha cabeça para palavras.

Podes revisitar a crítica do Espalha-Factos ao filme aqui.

(Texto de Diogo Oliveira)

Tudo Acaba Agora

Um novo filme de Charlie Kaufman é sempre um evento. E, pessoalmente, mexe sempre comigo a ponto de ficar a pensar nele dias depois dos créditos finais rolarem no ecrã. Aconteceu-me depois de ter visto O Despertar da Mente, em que Kaufman escreveu o argumento ou com Sinédoque, Nova Iorque, lançado em 2008, onde se estreou como realizador. Tudo Acaba Agora é um filme em forma de bola de cristal, em que vemos uma série de coisas a acontecer como se estivessem encaixotadas lá atrás no tempo, e estivessem apenas a ser repetidas, uma e outra vez. Vemos personagens a entrar de um plano com uma idade e a sair com outra completamente diferente e conversas parcialmente sem nexo, como se os artistas estivessem entorpecidos por dentro.

Jesse Plemons, Jessie Buckley, Toni Collette, David Thewlis em Tudo Acaba Agora
Fotografia: Mary Cybulski/NETFLIX © 2020

O elenco é magistral, salientando-se os nomes de Jesse Plemons, Toni Collette e David Thewlis. A interpretação de Jessie Buckley merece um destaque à parte, tanto pela qualidade do trabalho realizado pela atriz, como pela substância da personagem. O enredo adaptado do livro de Iain Reid dá-nos a entender, sendo tudo isto uma questão de interpretação, que a personagem de Buckley é uma criação de Jake (Jesse Plemons), e o refrescante aqui é que, mesmo sendo essa a realidade, a atriz consegue emprestar nuances únicas e uma vontade própria a alguém que, na verdade, não existe. O filme dialoga com o espectador, fazendo-nos refletir sobre a vida e a importância de amor e afeto no nosso dia-a-dia. É, igualmente, dos filmes mais assustadores do ano, não deixando de ser brilhante e comovente. Bravo, Kaufman.

Podes recordar aqui a crítica do Espalha-Factos ao filme.

Mank

O novo filme de David Fincher, estreado na Netflix, debruça-se sobre a vida de Mankiewicz (Gary Oldman) e a escrita do mítico Citizen Kane, realizado por Orson Wells. Um dos pontos fortes da obra de Fincher é usar, em jeito de homenagem, a estrutura de flashbacks, tornada revolucionária em Citizen Kane. Para além de abordar o ambiente que se vivia em Hollywood nos anos 30, a obra de Fincher consegue ainda montar uma narrativa política sobre a corrupção e desonestidade vivida na cidade de Los Angeles.

Mank
Fotografia: Netflix/Divulgação

Na crítica publicada no Espalha-Factos, escrita pelo João Malheiro, foi enaltecida a interpretação de Gary Oldman, que certamente gerará expectativas para a noite dos Óscares de 2021. O filme é igualmente impecável do ponto de vista técnico, ao nível do que o realizador já nos habituou noutras produções suas. É uma autêntica viagem no tempo, a uma era que já não é a nossa, mas com um forte pendor educacional.

Borat 2

O que Sacha Baron Cohen fez em 2006 com Borat foi uma coisa tanto inusitada quanto inovadora: construiu uma personagem, Borat, e trouxe-a para a nossa realidade, para o mundo real. O filme rapidamente ganhou o estatuto de clássico, e só um ano como 2020, fervilhante em termos políticos e sociais, com a pandemia, o movimento Black Lives Matter, e as eleições norte-americanas aí à porta, é que convenceu Baron Cohen a repetir a façanha realizada em 2006.

comédia borat
Borat | Fotografia: Divulgação

Apesar do fator surpresa ter-se desvanecido, a sequela é largamente bem-sucedida, devido à escrita incisiva e cirúrgica de Cohen mas também por momentos bizarros, em que, por exemplo, passa uma semana da sua vida a viver com dois norte-americanos que acreditam que os Clinton basicamente comiam bebés ao pequeno-almoço. O pior lado dos norte-americanos é desmascarado em pouco mais de hora e meia de filme, num ambiente em que, ao contrário de 2006, já ninguém tem vergonha de dizer aquilo que pensa, exibindo o seu racismo e xenofobia. É um trabalho caricatural, na construção da personagem de Borat, funcionando porque nos demonstra que, muitas vezes, a realidade é pior que a ficção. E dado o perigo envolvido na produção do filme, que se tire o chapéu a Sacha Baron Cohen em 2020.

Podes recordar aqui a crítica do Espalha-Factos ao filme.

A lista chegou ao fim, mas 2020 foi um ano tão bizarro, que merece uma pequena referência a outros filmes, em forma de menção honrosa. O Cinema tem de ser celebrado.

Nomadland

Perto do final de Nomadland, terceira longa-metragem de Chlóe Zao, uma conversa entre a personagem principal da intriga, Fern – trazida à vida por uma fabulosa Frances McDormand – e Bob Wells, leva à revelação por parte de Fern que passou a vida a relembrar. Naquele exato momento no espaço e no tempo, senti uma profunda conexão com aquela expressão: “I maybe spent too much of my life just remembering.” Já passou quase um mês desde que tive a possibilidade de assistir à viagem que é Nomadland, na sessão de encerramento do LEFFEST’20, mas muitas das suas imagens e, acima de tudo, mensagens, permanecem entranhadas na minha memória.

É uma viagem introspetiva e que usa os seus principais intervenientes, Fern e os seus companheiros nómadas (que incluem vários atores não profissionais), como veículos para a exploração de uma América real e despedaçada. Com um cinematografia e realização excelentes, que captura o sentimento de Americana encontrado predominantemente na filmografia de Chlóe Zao, Nomadland é humilde, carregado de uma sensibilidade e capacidade de observação do mundo que é encontrada poucas vezes num filme. “I maybe spent too much of my life just remembering”, mas espero que tão cedo não esqueça Nomadland. Ainda estamos a tempo de mudar o curso das coisas. Sejamos sinceros, humildes e bons uns para os outros.

(Texto de Miguel Rocha)

Never Really Sometimes Always 

A base da história é a personagem de Autumn que, com 17 anos, decide interromper a gravidez, sendo que, para o fazer, compra um bilhete para Nova Iorque, às escondidas da mãe. A acompanhá-la nesta difícil e agonizante viagem está a prima, Skylar. O filme, realizado por Eliza Hittman, retrata os problemas que o mundo real coloca à frente de jovens raparigas parecidas a Autumn e Skylar com precisão. É uma jornada marcada por visitas médicas inquietantes, ansiedade, e o medo sentido às mãos de homens abusadores sexuais, que se sentem demasiado confortáveis no mundo em que vivem.

O filme fala alto e bem quando coloca a câmara ao nível dos olhos silenciosos de Autumn, o profundo retrato de uma geração de mulheres sufocadas pelo escrutínio e opressão de que é alvo. É ainda mais tocante por parecer tão normal. Never Rarely Sometimes Always ganhou vários prémios no Festival de Sundance e no Festival de Cinema de Berlim, e é um dos melhores filmes do ano, mas é também um dos mais difíceis de ver. Fica aqui altamente recomendado.

O Homem Invisível 

Na altura em que saiu, e apesar de ter na sua génese a componente do terror (psicológico), este filme parecia estar alinhado, de forma arrepiante, com a realidade que cercou o seu lançamento. Na ressaca da condenação de Harvey Weinstein por dois crimes sexuais, incluindo violação em terceiro grau, Elizabeth Moss interpreta, com o talento habitual, uma mulher que está a tentar escapar às mãos do seu abusivo marido, que arranjou forma de se tornar invisível.

Ao longo de duas horas conseguimos sentir o terror existencial que Moss transmite quando dá vida a uma sobrevivente de abusos que é desacreditada, e somos testemunhas da forma como os predadores podem manipular as suas vitimas, tentando inverter os papéis de acusadora e acusado. A mistura entre o terror e a crítica social torna O Homem Invisível num filme obrigatório.

Emma. 

O romance de Jane Austen já foi adaptado inúmeras vezes para o grande ecrã, mas a mais recente adaptação, levada a cargo por Autumn de Wilde, é vibrante e cheia de cores pastel que enchem cada frame de forma meticulosa, dando uma nova dinâmica à história e tornando-a mais moderna. Ancorado pela deliciosa interpretação de Anya Taylor-Joy, no papel da egocêntrica Emma Woodhouse, o argumento é bastante fiel ao livro, não esquecendo o seu tom satírico, que muitas vezes é deixado de lado quando os livros de Austen são reproduzidos em longas-metragens.

À cabeça de um elenco portentoso (que inclui ainda o eterno Bill Nighy) está Taylor-Joy, que balanceia na perfeição uma dose harmoniosa de arrogância inocente mas também de ambição, qualidades que vão sendo cada vez mais atenuadas quando Emma percebe que, por mais manipulações que tente pôr em prática, estas não escondem o que o seu coração realmente sente. Um filme divertido e visualmente bonito harmonioso, a fazer lembrar os filmes de Wes Anderson.

 

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