Samuel Úria
Fotografia: Divulgação/Valentim de Carvalho © Rita Carmo

À Escuta. Os melhores discos portugueses de 2020

Com o final do ano a aproximar-se, Kenia Sampaio Nunes e Miguel Rocha, redatores responsáveis pelo À Escuta, a rubrica semanal do Espalha-Factos que destaca os lançamentos mais recentes da música portuguesa, revelam as suas listas de melhores discos portugueses lançados em 2020.

As escolhas de Kenia Sampaio Nunes

#10: Bia Maria – Tradição

Bia Maria é certamente uma das artistas revelação deste 2020 e o disco Tradição é prova disso. A cantora oureense regressa às mais fincadas raízes do nosso país, glorificando a música tradicional portuguesa com todo o louvor que ela merece. Da lavra da terra à força do povo, Bia Maria revisita clássicos do cancioneiro nacional adicionando o seu próprio cunho. O EP lançado em dezembro deixa-nos ansiosos para ouvir mais da voz inconfundível de Bia Maria.

Faixa Essencial: ‘Fado Operário’

#9: Lourenço Crespo – Lourenço Crespo

Lourenço Crespo regressa quatro anos após o lançamento de Nove Canções com um álbum homónimo, mais melancólico e maduro, e também o disco com que se identifica mais. “É o meu preferido, é o que melhor explica quem eu sou agora ou com o que eu me identifico mais agora”, disse em entrevista ao Rimas e Batidas.

Sob alçada da Cafetra Records e com produção de B Fachada, outro dos nomes desta lista, Lourenço Crespo beneficia da experiência acumulada de colaborações passadas, perfilando os ensinamentos adquiridos e pondo as mãos à obra para compor canções como a palpitante ‘Eras tu de certeza’ e a onírica ‘Férias escondido’.

Faixa Essencial: ‘Fetra!’

#8: David Bruno – Raiashopping

Em maio, a meio da pandemia, David Bruno confessara “que ama o seu país e a sua cultura, com todas as virtudes e imperfeições” e seduzia-nos com a promessa de um “material novo e mais Portugalidade do que nunca” via Facebook. Já nessa altura, o artista indiciava que Raiashopping seria uma indagação pelo Portugal do interior, voltando à terra “que tantas gerações de antepassados meus viu nascer” e onde agora regressa: Figueira de Castelo Rodrigo.

A Beira Alta e a Raia (região fronteiriça entre Portugal e Espanha) são as zonas exploradas nesta incursão que David Bruno faz ao longo de onze faixas numa meditação bucólico-kitsch onde nos é restituído o prazer do café com cheirinho, da mini gelada e das histórias contadas pelos avós à beira da lareira. Raiashopping é preenchido por interlúdios musicais, os Momento’, memórias de infância (‘Flan Chino Mandarin’ e ‘Praliné’ ) e referências às noites passadas em Salamanca, “cidade que conheço como a palma da minha mão”.

Faixa Essencial:Praliné

#7: Monday – Room for All

Monday é Catarina Falcão, 1/2 de Golden Slumbers, membro de 08/80 e compositora do EP que não me saiu da cabeça este ano, Room for All. Primeiro projeto desde a edição do longa-duração One, este EP vem apresentar uma nova roupagem na estética de Monday – os undertones rock’n’roll e as baladas deram lugar ao folk arrojado melancólico.

Harmonias etéreas compõem as seis canções que fazem parte do álbum. Começamos a viagem em ‘i’m sleepy’, onde a suave e belíssima voz de Catarina Falcão deixa os primeiros ecos na mente do ouvinte e passamos por ‘little fish’ e ‘convictions’, canções igualmente oníricas e meigamente esmagadoras. É, no entanto, em ‘room for all’ que Monday deixa a sua máxima: ‘make room for all/room to grow’.

Faixa Essencial: ‘room for all’

#6: Samuel Úria – Canções do Pós-Guerra

Se não está à minha mão salvar a humanidade dos seus desígnios tortuosos, pelo menos está à minha mão ser amoroso para quem está mais perto de mim e é essa a mensagem que eu quero passar. ”, comentou Samuel Úria numa entrevista ao EF aquando do lançamento de Canções do Pós-Guerra. O álbum mais obscuro da sua carreira não vira a cara a canções de amor, mas tem um foco mais incidente na mensagem que pretende passar.

Canções do Pós-Guerra beija o punho antes do murro final: é arrebatador, crítico, enternecedor, enérgico. Samuel Úria despe a camada “radiofónica” e dançável em prol da pujança que ‘Fica Aquém’ e ‘As Traves’ necessitam para vibrar, e sabe exatamente o momento certo em que o sussurro deve prevalecer, como em ‘Cedo’ (com participação de Monday) e ‘Menina’.

Faixa Essencial:Aos pós’

#5: Dino d’Santiago – KRIOLA

Uma prenda para o pai e uma homenagem à mãe — foi assim que Dino D’Santiago nos apresentou KRIOLA. Os ritmos explorados viajam desde as suas raízes, em Santiago, Cabo Verde a Lisboa, a Londres, a Lagos, na Nigéria e a Luanda. “A cachupa instrumental”, como o próprio Dino refere, “desta vez viajou do batuku ao ozonto, da coladera ao grime, sempre com o tempero final dado pelo funaná que descansa no arriscar de um tarraxo.

Sem dúvida o seu disco mais ativista, conta também como dedicatória a todas as mulheres que o inspiram e uma celebração da cultura crioula e que lutam diariamente pela equidade. Com a participação de artistas como Julinho KSD, Vado Más Ki Ás, Branko e PEDRO, Dino D’Santiago mostra emoção calorosa sob beats sentidos e sonantes que o elevam, merecidamente, como um dos maiores artistas do panorama nacional.

Faixa Essencial:Kriolu’

#4: Clã – Véspera

Véspera. A iminência de que algo grande está prestes a acontecer. E aconteceu. Os Clã regressaram seis anos depois do último lançamento, Corrente, com um dos discos mais fortes deste ano e uma das razões pela qual sobrevivemos o fatídico ano de 2020 — questiono-me porque é que a voz de Manuela Azevedo ainda não foi declarada Património Mundial da Humanidade.

Desde cedo que os Clã nos vieram habituando a uma qualidade tremenda que lhes coloca no patamar merecido de uma das melhores bandas nacionais de todos os tempos. Em Véspera, contaram com artistas igualmente talentosos como Sérgio Godinho, Capicua, Samuel Úria, Carlos Tê e Arnaldo Antunes, equipa de peso que ajudou a tornar Véspera num dos inabaláveis de 2020.

Faixa Essencial: ‘Tudo no Amor’

#3: Capicua – Madrepérola

Ostra feliz não faz pérola“. Em Madrepérola, Capicua mergulha no seu eu mais profundo, partindo numa nova descoberta e abrindo espaço para acompanharmos o percurso. Feminista, badass, sensível, mãe – Capicua revisita todo o fragmento do seu ser num disco honesto – canta amores pelo Porto em ‘Circunvalação‘, louva as mulheres que sustentaram e sustentam esta terra em ‘Madrepérola‘ e navega pela maternidade em ‘Parto Sem Dor‘ (adicionando lindos versos à canção “emprestada” por Sérgio Godinho).

Num 2020 atribulado, Capicua deixou-nos música para cantar aos berros e para ouvir baixinho; mostrou que quando a vida nos prega partidas e tudo parece estilhaçado, o melhor a fazer é “juntar os caquinhos e fazer um Gaudí“.

Faixa Essencial: ‘Cartas a Jovens Poetas’

#2: Benjamim – Vias de Extinção

Vias de Extinção, o disco de Benjamim editado este setembro, é mais uma prova viva que o cantor e compositor transpira pop analógica. Passa a guitarra acústica para o segundo plano e traz para o primeiro sintetizadores sonantes que fazem apetecer dançar.

Numa excursão pela boémia e pelo inevitável amadurecimento que traz o passar dos anos, Vias de Extinção vem fazer-nos ansiar uma saída à noite, preferencialmente no Incógnito.

Faixa Essencial: ‘Domingo’

#1: B Fachada – Rapazes e Raposas

2020 trouxe o regresso há tanto esperado de B Fachada. Munido da viola braguesa, B junta nostalgia paternal a lascívia brincalhona, não deixando, no entanto, a língua bem afiada que conhecemos de tempos idos. Não escapa o imaginário do campo nem a crítica social, junta ‘Memórias de Paco Forcado #2′ à odisseia por Portugal que ‘memórias de paco forcado vol.1‘, lançada em 2010 no disco há festa na moradia onde planeava ‘dominar o circuito independente‘. O veredicto veio a comprovar-se mas B parece estar pouco importado com isso.

Do chapéu de mágico de B Fachada saíram Rapazes e Raposas, um conjunto de 15 canções irrepreensíveis – B finca um pé nas raízes e o outro no experimentalismo que já lhe é característico. O resultado final veio mostrar que por mais que mude de método, B Fachada continua a conquistar disco após disco, canção após canção, anti após anti.

Faixa Essencial:Memórias de Paco Forcado #2′

As escolhas de Miguel Rocha

#10: YAKUZA – AILERON

AILERON é o disco de estreia de YAKUZA, trio constituído pelos músicos Afonso Serro, André Santos e Alexandre Moniz. AILERON é, na sua essência, um disco de jazz, mas vai além das convenções habituais do género. Abraça as tendências recentes do nu-jazz, florescido da influência da eletrónica, com os seus teclados e sintetizadores psicadélicos, que se fazem notar do início ao fim deste trabalho.

Estes juntam-se às linhas de baixo e à bateria numa groove infinita, ora conjugada com guitarras adicionais em ‘FURTO’ ou ‘KATANA’, ora com um saxofone em ‘PICHELEIRA’, que nos transporta para um cenário constituído por uma autoestrada multi-faixa rodeada de luzes neóns brilhantes. AILERON é um trabalho que mostra que o jazz português está vivo e de boa saúde, com capacidade de cruzar o futuro e passado do género para dinamizar o seu presente.

Faixa Essencial: ‘KATANA’

#9: Lourenço Crespo – Lourenço Crespo

Quatro anos depois de Nove Canções, Lourenço Crespo regressou com um disco homónimo, produzido por B Fachada, onde o artista amplia o seu indie pop com uma nova gama de instrumentos. Os teclados mantêm-se como uma das figuras de destaque, mas as guitarras ganham novo carinho, como se faz notar em ‘Escandaleira’ ou ‘Fetra!’. Existe, também, espaço para instrumentos de sopro, principalmente em ‘Avalanche’.

As melodias cativantes que vão surgindo ao longo do trabalho derivam de instrumentais bastante bem construídos, mas soam a seco, fruto da produção de B Fachada. Esta sonoridade, mais crua, assenta na entrega e lírica do artista, incerta e existencial, observável em momentos como ‘Eras tu de certeza’, ‘Pelo pêlo’ ou ‘Medo de Mudar’. Lourenço Crespo é um disco que revela um artista em crescente evolução, capaz de dinamizar o seu som em torno de si em função daqueles que o rodeiam e influenciam.

Faixa Essencial: ‘Fetra!’

#8: Pedro de Tróia – Depois Logo Se Vê

Em 2020, Pedro de Tróia, ex-vocalista d’Os Capitães da Areia, deixou essa nave e apresentou o seu primeiro disco a solo, Depois Logo Se Vê. Escrito num tom introspetivo, como se o cantor necessitasse de se libertar do seu passado, Depois Logo Se Vê é, na sua génese, um disco pop. Concretamente, pop rock suave e orelhudo, demonstrador da capacidade do artista como compositor, algo já reconhecido por quem segue a sua carreira desde do seu início.

As melodias são feitas para ficarem presas na cabeça do ouvinte, e nesse objetivo, Pedro de Tróia cumpre, com faixas como ‘Embaraçado’, ‘Salvadora’ ou ‘Dente de Leão’. São hinos autênticos da pop, com capacidade para serem intemporais. Em Depois Logo Se Vê, há ainda espaço para o artista explorar o seu lado de cantautor, com o indie folk de ‘Passos Lentos’ e ‘Rés do Chão’, esta última com a voz de Pedro acompanhada apenas por uma gentil guitarra acústica para criar um dos momentos mais belos do disco. Depois Logo Se Vê é um disco que soa a um novo início para Pedro de Tróia e que nos deixa com vontade de saber o que virá a seguir para o artista.

Faixa Essencial: ‘Salvadora’

#7: David Bruno – Raiashopping

Depois de Mafamude e Miramar, David Bruno leva-nos até à raia – nome dado à fronteira luso espanhola – para Raiashopping, o seu terceiro vídeo-álbum em outros tantos anos e o mais pessoal do artista até à data. Contando, mais uma vez, com a colaboração do guitarrista Marco Duarte, Raishopping é um disco nostálgico, aonde o jogo de samples de David Bruno leva-nos à sua infância e, especialmente, a férias passadas na terra dos seus avós.

É uma carta de amor a um Portugal que vai muito além de Porto e Lisboa. Do “café com cheirinho” em ‘Café Central’ aos emigrantes em ‘Doucement’ , e passando pelos chocolates ‘Praliné’ e pelo portunhol de ‘Salamanca by naite’, isto é o Portugal que muitos conhecem e se lembram, com todo o carinho e saudade que daí vem. E estes sentimentos fazem-se notar  ao longo do disco, demonstrados pela poesia de David Bruno, pelas guitarras melosas de Marco Duarte e, também, pelos quatro momentos que surgem ao longo do disco para manter o tema a fluir como necessário. Raishopping é um vídeo-álbum que nos faz sentir saudade, mas, ao mesmo tempo, nos lembra que não devemos esquecer as nossas raízes.

Faixa Essencial: ‘Praliné’

#6: Filipe Sambado – Revezo

Em Revezo, Filipe Sambado “deixa” os Acompanhantes de Luxo para trás e reinventa-se. Abraça o folk, apimentando-o com influências do “seu” indie e de pop contemporânea, notável em faixas como ‘Joía da Rotina’,É Tão Bom’ ou no pop arábico de ‘Gerbera Amarela do Sul’, com as suas melodias e refrões orelhudos impossíveis de ignorar.

A capacidade de Filipe Sambado em criar melodias cativantes e delicadas foi uma arma explorada nos seus trabalhos anteriores e, no seu folk, assenta que nem uma luva, fazendo-se notar em faixas como ‘Tusa Mole’, ‘No Leito’ ou ‘Imagina’. ‘Imagina’ é um dos grandes exemplos deste disco aonde Sambado se eleva a novos níveis em termos de escrita, mas também em termos vocais, notório ao longo do álbum, mas com particular destaque em ‘Este Fardo’, talvez a sua melhor até à data.

Revezo é um disco em que a capacidade camaleónica de Sambado se revela cada vez mais evidente, um artista sem medo de explorar novos caminhos, mas sem esquecer o seu passado. E, até ao momento, é o seu disco mais bem conseguido.

Faixa Essencial: ‘Imagina’

#5: B Fachada – Rapazes e Raposas

B Fachada regressou em 2020 para nos deliciar com um novo trabalho, Rapazes e Raposas. É um trabalho que apresenta uma evolução da sonoridade apresentada no seu EP de 2018, Viola Braguesa X. O resultado é um aperfeiçoamento da incorporação de elementos de eletrónica no folk neo-psicadélico de B Fachada, notório em faixas como ‘Canção de rejeição’, ‘Mudar de Método’, ‘Mínima Atenção’ ou ‘Prognósticos’, sendo que esta última se revela como um dos momentos mais tocantes da discografia do artista.

Como já habitual na sua carreira, Rapazes e Raposas está povoado pelo humor característico de B Fachada, como em ‘Lambe-Cus’ ou ‘Namorada’, e pela sua capacidade de cantautor para relatar os acontecimentos que vão sucedendo ao longo do disco, como acontece em ‘Padeirinha’ ou na notória crítica de ‘O Anti-Fado. Rapazes e Raposas é um dos discos mais consistentes da carreira de B Fachada e fez valer os seis anos de espera por um longa-duração desde o seu disco homónimo.

Faixa Essencial: ‘Prognósticos’

#4: Galgo – Parte Chão

No seu terceiro álbum de estúdio, intitulado de Parte Chão, os Galgo (Alexandre Moniz, Joana Baptista, João Figueiras e Miguel Figueiredo) abrem caminhos para um admirável mundo novo dentro da sua sonoridade.Mantém-se o rock e as assinaturas incomuns (olá math rock) mas aumenta o groove e psicadélico com o espaço conquistado pelos sintetizadores e pela eletrónica, levando o grupo até às fronteiras do rock progressivo.

E isto é algo visível em praticamente todas as faixas do disco, mas nota-se o carinho especial pelo género em ‘Panca Espalha’, uma faixa que cruza barreiras entre os Yes, Tame Impala e Polvo, e o heavy psych embelezado por sintetizadores de ‘Giga Joga’. Há um groove interminável que corre pelos ritmos deste trabalho, especialmente em músicas como ‘Muda’, ‘Giga Joga’ e Garras Dadas’, imensamente capazes de nos levar a dar um pezinho de dança. Até ao momento, Parte Chão é a obra mais consistente dos Galgo.

Faixa Essencial:Panca Espalha’

#3: EVAYA – INTENÇÃO

O EP de estreia de EVAYA, nome com o qual se apresenta Beatriz Bronze, cruza as várias facetas da artista, de cantautora e de produtora. INTENÇÃO é um trabalho aonde vivem paisagens etéreas constituídas por sintetizadores que têm tanto de belo e sinistro, como pode-se observar de forma predominante em ‘༼ĭ̈n̆̈t̆̈r̆̈ŏ̈༽‘  e em ‘.. -. – . -. -.-.. .–.- —’, sendo esta última uma representação em forma de música ambiente do código morse que lhe dá título.

Nas restantes faixas, os sintetizadores são complementados pela belíssima voz de Beatriz, que sobressai como um anjo no meio das paisagens celestiais e etéreas. Em ‘dreams’, a voz de Beatriz complementa as suaves guitarras que vão rompendo pela faixa,e em ‘how to dance what is true’, os seus dotes como produtora são notáveis, balanceando numa linha entre Bjork e FKA twigs. A sua faceta de cantautora surge predominante em ‘doce linguagem’ e ‘a fonte’, retratos belos de pop minimalista aonde a temática das emoções que paira sobre todo o EP é explorada em português. INVENÇÃO é, no seu minimalismo, um trabalho arrojado de pop excelentemente produzido e interpretado.

Faixa Essencial: ‘how to dance what is true’

#2: Samuel Úria – Canções do Pós-Guerra

Canções do Pós-Guerra funciona quase como uma exploração total de Samuel Úria, o músico, e Samuel Úria, a pessoa. Musicalmente, é uma continuação dos seus trabalhos anteriores,  com raízes no folk e no gospel, mas sem esquecer o groove do rock’n’roll. Liricamente, no entanto, Úria adapta uma postura mais pessoal e introspetiva (como se antes já não fosse, não é) ao longo de praticamente todo o trabalho. E isto tem repercussões.

Ao olhar para si mesmo, Úria consegue, de uma forma exímia, olhar para o que o rodeia e apresentar um meta-comentário a muitas questões da sociedade atual. Faixas como ‘Tempo Aprazado’, ‘Guerra e Paz’ ou ‘O Muro’ são alguns dos exemplos mais prominentes disto. Nestas duas últimas, e também em ‘Cedo’ (um belíssimo dueto com Monday) e ‘Menina’, é explorado o lado mais o intimista de Úria, com instrumentais minimalistas a complementarem o sentimento das cantigas.

Em ‘Tempo Aprazado’, no entanto, o lado rock de Úria sobressai, e aparece várias vezes ao longo do disco, como na fusão entre gospel e rock de ‘Fica Aquém’ e ‘Aos Pós, faixa gigante que abre o disco, e no clímax de ‘As Traves’, com os seus riffs e groove que parecem saídos diretamente do início da década de 70. Canções do Pós-Guerra é (mais) uma belíssima coleção de cantigas que nos leva a considerar se é altura para todos nós olharmos para dentro para reconsiderarmos como agir para fora.

Faixa Essencial: ‘Tempo Aprazado’

#1: Benjamim – Vias de Extinção

Quando os primeiros sintetizadores surgem, psicadélicos e distantes, em ‘A Guerra Peninsular’, somos atingidos pela onde de nostalgia que marca o passo do disco mais recente de Benjamim, Vias de Extinção. É um trabalho que nos leva por memórias, ou quiçá, sonhos, que há muito se extinguiram no tempo, mas que permanecem vivas nos confins da mente. Pode-se, facilmente, relatar o mesmo sobre os seus trabalhos anteriores, Auto Rádio e 1986 (com Barnaby Keen) – dois excelentes trabalhos por si só – mas em Vias de Extinção, Benjamim eleva estes sentimentos um novo nível, através de excelente composição, produção, arranjos e lírica.

Veja-se ‘Ângulo Morto’,  ‘Vias de Extinção’ e ‘Serviço de Despertar’, música que fecha o álbum, como exemplos notórios, aonde o artista combina composições densas com uma sensibilidade pop bastante arrojada, explorada e desenvolvida ainda mais no neo-psicadélico orelhudo de ‘Domingo’ ou ‘Incógnito’. Vias de Extinção é um aconchego, um refúgio com a capacidade de nos fazer relembrar e nos certificar que Benjamim é dos artistas mais criativos do momento no mundo da música portuguesa. E Vias de Extinção é a sua maior afirmação artística até ao momento.

Faixa Essencial: ‘Ângulo Morto’

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