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‘McCartney III’. O terceiro capítulo de uma saga única

Paul McCartney lança o terceiro álbum da trilogia 'McCartney'

Em abril de 1970, na sequência do fim dos The Beatles, Paul McCartney anuncia o lançamento do seu primeiro álbum a solo, simplesmente intitulado McCartney. A contracapa do disco revela o artista, fotografado pela esposa Linda, num casaco de lã, com a filha Mary resguardada no seu peito. No entanto, cinquenta anos mais tarde, é Mary McCartney que fotografa um dado com três pontinhos negros, para McCartney III

Embora cinquenta anos separem este dois discos, o método de trabalho é o mesmo. Sete anos a trabalhar com a banda mais bem sucedida de sempre permitiu que Paul McCartney se orientasse num vasto leque de instrumentos. Guitarras elétricas e acústicas, baixo, bateria, piano, órgão, vários instrumentos de percussão, copofone, e, claro, um Mellotron.

Em McCartney III, o músico recupera a essência dos seus antecessores. Ou seja, continua a ser um artista que se entrega completamente à sua música, mantendo uma personalidade consistente. Com este disco, o músico continua tão brincalhão como sempre, assim como experimental e sempre à procura de um som novo. Sem pretensiosismo, só com a ambição de querer continua a fazer música, o artista brinda-nos com mais um disco para ouvir e reouvir com cada vez mais atenção.

Um álbum biográfico de um Paul McCartney de 80 anos

Quando o músico escreveu When I’m Sixty-Four, aos 16 anos, talvez não conseguisse adivinhar que, exatamente 64 anos depois, estivesse a fazer o mesmo que o narrador da canção. O disco encerra com Winter Bird/ When the Winter Comes, na qual o músico canta sobre concertar uma cerca, antes da chegada do inverno, para impedir que raposas entrem.

A música começa com um excerto da faixa que abre o disco, Long Tailed Winter Bird. No entanto, a canção não foi escrita para o álbum, mas sim para um filme de animação. A faixa lembra o primeiro álbum da trilogia McCartney, uma canção em loop que quase parece infinito.

É das faixas mais sólidas do disco. Entre o riff tocado por uma orquestra de guitarras, ouve-se um coro interpretado somente por McCartney, que canta “Do you, do-do, do you miss me/ Do you, do-do, do you feel me?/ Do you, do-do, do you trust me?”. Com isto, temos o lado brincalhão do artistas, que brinca com sílabas e harmonias. Pelo meio, encontramos notas de um Harmonium e de uma flauta de bisel, que conferem uma certa atmosfera experimental à canção, lembrando Magical Mistery Tour, dos The Beatles.

A ideia dos álbuns McCartney é mostrar o músico no seu habitat natural. Talvez, por esta razão, Winter Bird/ When the Winter Comes seja um das faixas mais interessantes do disco, se não a mais interessante.

O músico brinda-nos com uma melodia pouco usual, mas que é incrivelmente reconfortante e bem conseguida. O génio do artista reside em compor canções como esta. Embora a base da música seja simples, o músico complica os detalhes. Assim, Paul McCartney deslumbra fãs a cada geração que descobre a sua música.

60 anos depois, McCartney continua tão experimental como nos anos 60

Se em 1970 o primeiro álbum a solo do músico foi criticado por soar “inacabado”, este disco traz canções bem completas. Faixas como Find My Way e Slidin obedecem à estrutura de uma canção pop, com verso, regrão, bridge outro. No entanto, canções neste registo sabem a pouco e não têm o poderio de outras canções do álbum, onde o artista abandona constrangimentos das regras. Embora o músico tenha habilidade para criar canções pop interessantíssimas, estas duas faixas não se enquadram no registo do álbum. Algumas secções de guitarra em Find My Way lembram o tom usado na música portuguesa de Toy e Ágata.

As faixas mais interessantes são aquelas em que o músico se aventura. Sempre de forma despreocupada, compõe canções como Pretty Boys, Women and Wives e Kiss of Venus, que provavelmente não teriam atenção comercial.

Devido a alguma estranheza que as canções provocam no ouvinte, há a necessidade de repetição. Mesmo assim, estas três faixas não têm conteúdo suficiente para serem escutados mais do que um par de vezes. Embora sejam interessantes, não são faixas que viverão durante anos.

Contudo, canções como Deep Deep Feeling, Seize The Day e Deep Down resistem a várias voltas no gira-discos. Deep Deep Feeling é uma composição de oito minutos, que vai crescendo por camadas. O tema progride até chegar a uma “orquestra de guitarras“, como o músico a descreve na storyline da canção no Spotify. A par de Winter Bird/ When the Winter Comes, esta é uma das músicas mais bem conseguidas do disco.

Seize The Day e Deep Down aparecem de mãos dadas, como duas lições trazidas pela pandemia de Covid-19. Embora mais convencionais, estas duas músicas resistirão ao teste do tempo. Estas duas canções também são a prova que o pop de McCartney funciona quando seguindo a sua fórmula pessoal. Ao contrário de Find My Way e Slidin, a voz de McCartney é mais nítida nestas duas faixas, tornado-as um sucesso.

Modernidade num álbum de um veterano

O álbum foi masterizado por Randy Merril, que trabalhou com artistas contemporâneos Lady Gaga, Katty Perry e Harry Styles. Assim, o disco tem uma sonoridade moderno.

É possível ouvir estes traços em faixas como Deep Down, em que o volume da bateria e do baixo dominam a música. Merril fez um trabalho excelente, ao consolidar as composições de McCartney num panorama sonoro contemporâneo.

A essência do som de McCartney continua presente, como podemos ouvir em Lavatory Lil. Merril assegura a sonoridade de blues do amplificador da Vox, mantendo o propósito da música.

Assim, o décimo oitavo álbum a solo de Paul McCartney junta o antigo ao novo, sem nunca se perder a identidade do músico. É um triunfo do ponto de vista sonoro.

No entanto, grande parte das canções ficam entediantes quanto mais vezes são escutadas. O álbum vai perdendo a sua essência e novidade. Embora tenha composições excelentes, McCartney III está longe de ser um triunfo na carreira do músico. Mesmo assim, vale a pena ser escutado, pois o universo de Paul McCartney merece sempre ser ouvido.

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