Cristina Ferreira
Fotografia: SIC

Opinião. No fim do dia, Cristina

O famigerado Dia de Cristina chegou ao fim, sem estrondo ou surpresa. Pode agora afirmar-se que foi pensado como temporário, mas na televisão, o tempo de duração de um programa será sempre tão extensível quanto o sucesso, impacto e rentabilidade o permitirem. E, neste caso, a ampulheta chegou ao fim demasiado rápido.

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O programa que anunciava futuro antes da chegada de O Futuro foi a oficialização televisiva de um problema que desde julho se manifestou na atitude e na comunicação de Cristina Ferreira. Aquilo que transmitiu pessoal e profissionalmente não bateu certo com o que, ao longo de anos, a levou a conquistar, por um lado, um lugar no coração dos fãs e, por outro, no cérebro do público em geral, como uma figura constantemente em top of mind e que é hoje incontornável na nossa cultura popular.

O esforço, a simplicidade e a humildade que Cristina assumiu sempre como linhas mestras da sua forma de estar foram determinantes para que se desenhasse como um ícone e para que os portugueses se identificassem com ela. E essa narrativa perdeu ligação com a realidade. O que gerou deceção, que é um sentimento com efeitos bem mais nefastos do que o desdém.

O Dia de Cristina (e não da!) foi o programa que surgiu quando Cristina quis, com um cenário megalómano que disse pouco ao espectador do daytime, numa espécie de gala semanal daquilo que a apresentadora queria dizer. A história, que até aí tinha sido a história de todos os que passavam lá em casa, passou a ser uma história só dela onde, por acaso, os outros participavam e surgiam a fazer figuração. Um desvio narcísico num percurso televisivo que, até aqui, viveu da forma excepcional como Cristina fez outros brilhar.

Cristina Ferreira
Fotografia: Cristina Ferreira

Cristina Ferreira é das pessoas na televisão que mais partilhou o ecrã. E sempre a ajudar a que os seus parceiros de cena sobresaíssem, mesmo quando isso parecia improvável, dada a discrepância de, em alguns casos, talento, e noutros, experiência televisiva em jogo: Cláudio Ramos, Rúben Rua, Ben (Rúben Vieira), Pedro Teixeira, e até Joana Barrios, Rúben Correia e João Paulo Sousa estão entre os companheiros que teve, sempre com uma química inegável. É provável que, ao lado dela, até uma jarra de flores falante passasse a ser uma excelente contracena televisiva.

E, no fim do dia, talvez seja aí que Cristina tem de voltar. À miúda ladina que veio dar uma mão de jovialidade, descontração e, arrisco dizer, desconstrução, a Manuel Luís Goucha. Já lá vão muitos anos, nos longínquos idos de 2004.

Quando o Você na TV! começou, o apresentador vinha de dois anos de travessia no deserto, em que não conseguiu trazer para o seu lado os espectadores que deixou órfãos na Praça da Alegria. E foi ao lado da descomplexada (e desbocada) Cristina Ferreira que recuperou o seu lugar.

Mais que elaborar, agir

As pessoas não entenderam aquilo que se passou, como temíamos em julho. A tentar correr atrás do prejuízo, Cristina esteve nos últimos meses demasiado focada em justificar-se, em responder, em mostrar que era capaz de superar o que deixou para trás. E, na verdade, não tinha de o fazer: tinha só de ser quem sempre foi, a mulher que sabe perfeitamente de onde veio e para onde quer ir — porque essa mensagem é mais forte que qualquer proclamação estética, ideológica ou política.

O Dia de Cristina foi estéril como afirmação criativa e, arrisco dizer, serviu de lição de humildade. O que se seguiu foi muito mais interessante. O Em Família, televisão simples, sem parangonas nem um cenário novo foi um primeiro acerto – de novo “em casa” e ao lado do Goucha de sempre. A comunicação mais focada em projetos, nos sucessos de todos e no trabalho de uma equipa que é feita por muitos, também começa a fazer o seu caminho.

Na noite deste sábado, parece que esta era vai ficar para trás, para abrir espaço a um reboot: Agora é que vamos ver o que é que era o tal Cristina Comvida que afinal não era bem O Programa da Cristina. Quem está lá em casa, a procurar ser entretido, não procura O Futuro, O Amanhã, O Destino. Não quer saber a sinopse ou o conceito, não pensa no grafismo ou na musiquinha do genérico. Quer televisão boa, feita com razão e coração, que o deixe confortável. E, como diria alguém que afirmava em março nunca ter desejado o prime-time, “não há públicos melhores nem mais importantes, há públicos“.

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