Linn da Quebrada

Música independente em Portugal: um ecossistema em perigo

2020 trouxe muitas surpresas. Entre elas uma pandemia que agravou o panorama da indústria musical.

A pandemia da Covid-19 veio alterar o panorama cultural como o conhecemos. O setor da música foi um dos mais afetados pela pandemia, devido ao cancelamento de eventos e encerramento de espaços culturais. O impacto negativo foi especialmente sentido pelos artistas emergentes e independentes, e pelas pequenas salas de espetáculos que lhes dão um palco onde iniciar a sua atividade. 

Nos últimos anos, com a expansão da Internet, o universo da música independente em Portugal tem crescido, não só em termos de bandas e artistas que nele habitam, mas também em termos de público que está disposto a descobri-los. No entanto, nem tudo é um mar de rosas. Ao mesmo tempo que tem crescido, todo este universo tem sido assolado por vários problemas, problemas esses que foram colocados a nu pela pandemia. O Espalha-Factos falou com várias personalidades do mundo da música que nos explicam os desafios acrescidos dos artistas e salas de espetáculo durante a pandemia.

Luís Fernandes de banda Yagmar
Luís Fernandes, membro dos Yagmar

Afinal, o que é isto de ser um artista independente?

Quando falamos de música independente, não estamos apenas a falar dos artistas. Estamos a falar de um ecossistema que envolve toda a comunidade artística (e não só músicos), as salas que constituem o seu habitat e o público que a recebe de braços abertos. “Está aqui a base de tudo”, refere Gonçalo Riscado, diretor da Cultural Trend Lisbon (CTL) e Music Box. Gonçalo é também um dos responsáveis pela associação Circuito, a principal rede nacional para a valorização, proteção e desenvolvimento das salas e clubes com programação própria de música ao vivo.

Para Luís Fernandes, membro dos Yagmar, uma banda de rock alternativo lisboeta, ser artista independente é “fazer música que fure várias barreiras”. É isso que a banda tem feito nos últimos anos. Prova desse trabalho é o single ‘Homem Severo’, que deu ao grupo a oportunidade de explorar ritmos africanos acompanhados de melodias de outras regiões. É a liberdade criativa que têm enquanto artistas independentes que lhes permite explorar estas combinações de sons, sem descurar as obrigações. Luís acredita que elas existem, mas “os prazos que tu tens são prazos internos, são prazos mentais que podes criar ou não”, acrescenta. O artista vai mais longe e afirma que ser um artista independente, num mundo dominado por gravadoras, “é como alguém que faz um hobbie por gosto, em vez de alguém que tem que tocar para receber dinheiro.

Rita Onofre, vocalista dos SEASE, que está a dar os primeiros passos numa carreira a solo, também concorda que ser artista independente tem as suas vantagens, mas “é preciso ter muito vontade” para criar e continuar no meio. Com um novo single lançado, a cantautora sublinha que “quem faz isto, faz porque gosta. É preciso muito resistência e boa disposição”. Mas para que tudo funcione corretamente e o ecossistema permaneça ativo, é necessário que haja espaços que recebam estes artistas.

Rita Onofre por Pedro Ivan
Cantora Rita Onofre. Foto: Pedro Ivan

Os desafios enfrentados pelas salas para divulgar a cultura

Com um futuro incerto pela frente, as salas de espectáculos lidam agora com as dificuldades do passado, do presente, e com aquelas que ainda estão por vir, fruto da pandemia da Covid-19. Muitas com portas fechadas devido às limitações da DGS, mas com rendas e salários para pagar aos seus colaboradores, enfrentam vários desafios para se manterem a funcionar durante este período.

O Avenida Café-Concerto é um dos exemplos que se tem tentado adaptar ao “novo normal”, de forma a continuar a funcionar. “Neste momento, estamos a tentar fazer alguns concertos”, afirma Hugo Pereira, um dos responsáveis pela sala e pela promotora cultural Covil. No entanto, o gerente refere que só conseguem trabalhar com projetos emergentes onde esta “é mesmo a primeira vez que tocam ao vivo

Fachada do Avenida Café-Concerto em Aveiro
Avenida Café Concerto em Aveiro.

Não consegues programar agora com a força com que programavas antes”, refere Hugo face às dificuldades que tinha em encontrar artistas para subir ao palco após a reabertura das salas em junho. Quando se fala em bandas já estabelecidas dentro do mercado, o gerente do Avenida Café-Concerto revela que “está tudo à espera do próximo ano” e para os nomes que se estão a começar a estabelecer no mercado, não existem “as condições necessárias para conseguir fazer um espetáculo para sobreviver nesta altura”

Sem essa parte do ecossistema, os artistas, grandes ou pequenos, deixam de ter “as suas primeiras oportunidades de tocar, de criar conexões com um público que não seja o seu público mais próximo”, afirma Gonçalo Riscado. Tudo isto advém da quebra de lotação destes espaços, que diferem das “salas convencionais” que, como é o caso do Avenida Café-Concerto, tiveram de reduzir a lotação para 50%, enquanto uma sala como o Music Box teve de reduzir para cerca de “80%, 90% das lotações.” 

José Coelho - Where The Music Meets
José Coelho da Where The Music Meets

Torna-se, assim, impraticável qualquer tipo de evento cultural nestes espaços, o que faz com que ocorra “uma quebra no ecossistema”. Tal como afirma José Coelho, um dos fundadores da plataforma Where The Music Meets, “ninguém ganha dinheiro a fazer concertos para 15 pessoas. Conseguem começar a tocar para 15 pessoas, dar os seus primeiros concertos e ganharem o hábito de tocar um concerto, mas não serve para ganhar dinheiro, só serve para isso.

Esta situação não afeta apenas artistas e salas. Há que referir também os promotores, os responsáveis pela comunicação e os técnicos de som e luz, que transformam os concertos numa experiência única para o público. Tudo isto é afetado e “faz parte do ecossistema da música”, refere Gonçalo. Foi com base em algumas destas dificuldades que surgiu a associação Circuito, constituída por 27 salas de todo o país. Em 2019 atraíram mais de 1 milhão e cem mil pessoas e organizaram mais de 7500 atuações musicais. “É um circuito que é fundamental para a música e para a indústria da música”, mas que “durante muitos anos foi menosprezado” pelo setor, explica Gonçalo. No dia 17 de outubro, o Circuito organizou o movimento #aovivooumorto, com o objetivo de alertar para as dificuldades passadas pelas salas de espetáculos durante a pandemia.

Quando se iniciou o primeiro confinamento, em março, a primeira mensagem passada foi “é preciso ajudar os festivais! Foi a mensagem que eu recebi, em termos políticos”, confessa Gonçalo Riscado. Ao falar-se dos festivais de verão, que são, também eles, muito importantes no ecossistema da indústria, estamos a falar do “topo da cadeia”. Aí estão incluídos os nomes relevantes deste ecossistema, habitado por milhares de bandas e artistas que se querem dar a descobrir e dos quais “poucos chegam às grandes salas”, refere o diretor do CTL e Music Box.

Blind Zero atuam no Avenida Café-Concerto em Aveiro
Blind Zero atuam no Avenida Café-Concerto. Foto de ViewPoint.Studio

Tentar singrar no mundo da música: as dificuldades da indústria

Entre os vários tipos de obstáculos que assolam a indústria, muitos pairam sobre novos artistas e artistas independentes. Das amizades a uma rede de contactos mais profunda, artistas independentes são deixados à deriva numa indústria que sabe “que as pessoas dos projetos independentes têm outra forma de sustento”, afirma Luís Fernandes. “Há muita gente que só dá aquele salto de viver da música quando chega a certo nível”, revela o membro dos Yagmar, um sentimento ecoado por Rita Onofre. A cantautora afirma que, para se ser artista independente em Portugal, é preciso “querer muito”, pois não é fácil “lidar com uma indústria que não está de braços abertos [para os artistas], porque não há editoras cheias de possibilidades”. Muitas vezes, só o facto de “não gastar dinheiro já é bom”, acrescenta.

Vítor Carraca Teixeira é fundador da Selvageria, uma agência de management para músicos, e é uma das pessoas que presencia em primeira-mão as dificuldades que estes artistas sofrem para crescer dentro do meio. O primeiro passo é, segundo Vítor, “saber como furar no meio de tanta banda que existe”. Num país que está constantemente a criar, nasce uma luta interna entre bandas que estão “sempre a lutar umas contras as outras para terem um bocado de visibilidade”. É aqui que se encontra o primeiro grande obstáculo de um artista. “A visibilidade é o primeiro entrave que uma banda encontra”, acrescenta o fundador da agência. E isto não é só um problema de uma “sobrelotação de bandas gigante” em Portugal. Quando falamos em visibilidade, é necessário que o outro lado da moeda, ou seja, as rádios, os blogs e as revistas, tenham os meios e, acima de tudo, estejam dispostas a promover a música portuguesa, o que nem sempre acontece. Apesar de haver uma maior disponibilidade por parte do público em escutar música portuguesa, como divulga o Interruptor numa análise aos tops de vendas portugueses desde 2004, continuam a existir obstáculos para os artistas do mundo independente se conseguirem expor dentro do meio. É “muito complicado, hoje em dia, uma banda só usando o seu nome, enviar para uma rádio às escuras o seu lançamento e esperar que alguém repare nesse nome fazendo scroll por milhares de e-mails ou centenas”, relata Vítor. Este sentimento é ecoado por Hugo Pereira, que contou ao Espalha-Factos que recebia “dezenas de e-mails de bandas a pedir para vir tocar ao Avenida”. “Quando me sentei no dia 13 de março ao computador, disse, ‘bem, eu tenho aqui centenas de e-mails que finalmente vou conseguir responder’, diz, por entre risos.

Para uma banda alcançar o sucesso é preciso “deambular pelo meio disto tudo e aparecer e simplesmente não serem ‘chatos’ “, afirma Vítor Teixeira. O fundador da Selvageria diz ainda que a indústria da música é como um jogo de poker. “Nunca sabes a mão que te vai sair, ou tens a sorte da tua vida e começas a furar no meio e a construir o teu próprio lobby, ou então estás tramado e vais tocar em bares para ninguém para sempre”, acrescenta. Vítor salienta que “a indústria musical portuguesa é completamente regida por lobbies”. “As amizades são muito fortes, e é muito complicado uma pessoa qualquer, mesmo tendo uma banda muito boa, entrar nesse tipo de lobbies, entrar nesse tipo de grupos”, refere o criador da agência de management. “O lado positivo [dos lobbies] é que leva as bandas em fase de crescimento, como a nossa, a quererem ser ainda mais originais criativamente de modo a afirmarem a sua energia no meio”, brincavam os Meses Sóbrio, uma banda lisboeta, sobre o assunto. Composta por três elementos, Manuel Perdigão, João Fernandes e Miguel Rosa, o grupo tem crescido dentro do universo independente português com o seu indie rock

Fotografia Meses Sóbrio
Banda Lisboeta Meses Sóbrio

Até que a sorte grande chegue e o sucesso seja alcançado, o caminho que os artistas têm de percorrer pode ser penoso. Para os Meses Sóbrio, a maior dificuldade encontrada é a financeira. “O retorno que obtemos de concertos ou vendas não chega para cobrir todos os custos associados a uma banda que se quer afirmar no mercado.” Com o pouco dinheiro que recebem e uma indústria “dominada por lobbies e por amigos que favorecem os amigos”, torna-se difícil chegar ao topo. “Em Portugal só vive da música [original] quem chega ao topo, pois para a maioria das bandas os cachets são normalmente baixos e é difícil fazer bom dinheiro com as vendas.” Apesar de não darem muito dinheiro, para qualquer artista independente, o maior lucro provém dos concertos. Lá existe outra fonte de rendimento, o merchandising

Considerando que a venda de discos já não dá tanto dinheiro, apesar do ressurgimento do vinil, porque “também já não vendem tantos”, os concertos passam a ser a principal  fonte de rendimento de um artista independente, rendimento esse que depois será reinvestido na gravação de trabalhos e em novo merchandising. “É esgotar salas, independentemente da envergadura da banda e o quão grande a banda é. Isso é que faz com que tu consigas ganhar dinheiro”, relata Vítor. Mas para esgotar salas, é necessário que estas existam e estejam abertas a receber estes artistas. “Temos muitas bandas em Portugal e isso é bom, claro, mas temos um público muito reduzido e temos muitos poucos sítios para promover a nossa música, relata Luís Fernandes, que acrescenta que existem, de facto, “certas casas onde não há uma barreira muito grande” para conseguir tocar. São é “muito poucas”. Este sentimento é ecoado por Hugo Pereira. “É aquilo que eu sempre sofri enquanto fui músico: é muito complicado tocar neste país.” Acrescenta ainda que um dos principais objetivos do Avenida, quando abriu em 2018, era conseguir “dar palco” a todos. “Desde que haja ali valor para mostrar, nós nunca fechamos a porta a ninguém”, explica.

Tomás Wallenstein (DJ Canais) no Avenida Café-Concerto em Aveiro
Tomás Wallenstein (DJ Canais) no Avenida Café-Concerto em Aveiro. Foto de ViewPoint.Studio

Se este problema já existia antes da pandemia, o cenário só piorou. Se o número de salas que se encontrava aberto para receber artistas emergentes já era baixo, baixou ainda mais com a impossibilidade de organizar eventos culturais. E o que acontece é um efeito dominó. Com um mercado sobrelotado e com um número bastante reduzido de salas onde tocar, muitas bandas simplesmente não têm forma de obter reconhecimento pelo seu trabalho. E quem decide este reconhecimento é o público, indica Hugo Pereira. O responsável do Café Avenida-Concerto acrescenta que, mesmo se providenciar todo o seu apoio a um artista, dando-lhe um palco “com as condições todas”, é o público que decide o futuro do artista porque acaba por ser esse o objetivo da indústria: mover as massas. 

De mãos apertadas e com um futuro incerto, José Coelho indica que “dois terços das bandas que estão a tentar começar vão deixar de existir, porque as pessoas têm de se alimentar de alguma maneira e vão acabar por se focar nos seus trabalhos e não na parte cultural”, um medo partilhado por Vítor. “Esse é o meu medo real, é que as bandas simplesmente desistam de tocar porque não têm possibilidades nem uma equipa para ajudá-los a fazer tal coisa”, refere o fundador da Selvageria.

A adaptação ao digital com a pandemia e os seus entraves

Para José Coelho, uma possível solução temporária para alguns problemas passa por uma maior e melhor adaptação ao digital. “A vertente para que as bandas se poderiam virar é a vertente digital”, diz. Durante o confinamento, houve uma tentativa de o fazer com os concertos online. Vários foram os artistas que aproveitaram esse período para fazerem uma incursão no digital, mas as lições a tirar disto não são todas positivas. “Foi a coisa mais passageira que eu vi nos meus 17 ou 18 anos de indústria”, comentou Vítor sobre o fenómeno. Torna-se claro então que, quando se fala de uma transição para o digital, existem outros desafios e problemas que as bandas e artistas têm de enfrentar.

Primeiro, porque se uma banda não tiver uma gravadora, mesmo que pequena, por trás, acaba por ter de fazer todo o trabalho de divulgação, seja a comunicação com a imprensa ou a gestão de redes sociais. “É cada vez mais exigido que sejamos polivalentes”, refere Rita Onofre. O papel das gravadoras, para com estes artistas, é quase de paternidade, funcionando como um guia para ajudar a navegar pela indústria. Ajudam a gerir os lucros, a criar estratégias de divulgação e de marketing e a gerir a agenda. “Eu estou aqui para ajudar as bandas, como manager, a gerir a sua banda e com eles, sempre com eles, pensarmos a melhor maneira de fazê-lo e a mais coerente”, refere Vítor Teixeira.

Sensible Soccers no Musicbox
Sensible Soccers no Musicbox. Foto de Ana Viotti.

O gerenciamento das plataformas de streaming acaba por ser uma das tarefas de gravadoras ou agências, e um trabalho que muitos artistas independentes têm de desempenhar sozinhos. 

Apesar de, nos últimos anos, as plataformas de streaming terem tido um crescimento notável em termos de utilizadores e, em consequência, alterado o panorama musical, continuam a ser alvos de críticas por parte dos artistas. “Eu acho que o streaming não é um rendimento que chegue”, afirma Rita Onofre, quando questionada sobre o que estas plataformas têm para oferecer. Atualmente, uma stream no Spotify paga cerca de €0.0036. Para ser possível ganhar o salário mínimo nacional (atualmente, com o valor de 640€), um artista teria de conseguir, mensalmente, cerca de 176 390 reproduções. Isto, em Portugal, para um artista independente, é praticamente impossível. E este não é um problema só do Spotify. A Apple Music ou o Tidal, apesar de disponibilizarem pagamentos ligeiramente superiores (0.0061€ e 0.01€, respectivamente), continuam a não permitir, nem de perto, o suficiente para se conseguir viver só da música, aproveitando exclusivamente o dinheiro obtido destas plataformas.

Valores das plataformas de streaming

PlataformaValor por uma streamNº total de streams para ganhar um salário mínimo (640€)
Spotify0.0036€177 178
Apple Music0.0065€98 462
Tidal0.010€64 000
Deezer0.0053€120 755
Google Play Music0.0056€114 286
Amazon Music0.0033€193 939
Pandora0.0011€581 818
Napster0.015€42 667
Valor médio dado aos artistas por uma stream e número de streams necessárias para se obter salário mínimo em Portugal (€640)

 

E apesar da facilidade que trouxeram à partilha e escuta de música, um ponto positivo partilhado por todos os entrevistados, a forma como os CEOs destas empresas olham para a música levanta várias questões para os artistas. Em agosto deste ano, o CEO do Spotify, Daniel Ek, referiu que, se os músicos queriam pagamentos mais altos, tinham de fazer mais. “Não se pode gravar um disco a cada três ou quatro anos e pensar que é suficiente, disse. Mais recentemente, o Spotify anunciou a criação de um Discovery Mode, onde os artistas podem pagar um valor extra para que as suas faixas sejam mais promovidas através dos algoritmos da plataforma. Em Portugal, como nos indicou José Coelho, o Spotify não tem nenhum representante oficial. Existe, no entanto, uma equipa editorial que gere as duas playlists portuguesas que existem na plataforma, a New Music Friday Portugal e a Indie Lusitano, onde os artistas podem ter a chance de conseguir que a sua música seja divulgada. E, à semelhança do que acontece fora do digital, é um “mercado muito pequeno” para tanta gente. Sem concertos e sem apoios, os artistas ficam entregues aos algoritmos imprevisíveis destas plataformas.

O papel da educação perante as mudanças na indústria

Uma forma de contrariar a situação atual é a aposta em plataformas que valorizam mais os artistas e o seu trabalho. O Bandcamp acaba por ser uma alternativa viável, que permite ao ouvinte seguir o trabalho de um determinado artista e apoiá-lo, tal como refere José Coelho. “Como ouvintes, o que podemos fazer é tentar agora ouvir a música dessas pessoas e comprar a música dessas pessoas através de canais, sobretudo, como o Bandcamp”. É necessário que haja uma educação para consumo sustentável e isto, hoje em dia, também se aplica à música. É algo que tem de partir de uma sensibilização para o que é a indústria e como funciona, mas também de estimulação para a criação. “As pessoas não percebem o que nós fazemos, as reprovações que temos de passar, a quantidade de coisas que temos de experimentar, para chegar a algum lado ou para fazer uma coisa tão simples como lançar um single, conta Rita.

Gonçalo Riscado concorda com Rita Onofre e defende que o ensino de música e o incentivo das crianças e jovens para a indústria das artes não é só necessário, como deveria ser uma prioridade. “Sinto muita falta de incentivo ao que é o início da criatividade e criação”. “Faltam apoios para este setor”, acrescenta, afirmando que deveria seguir-se o exemplo de outros países, como os escandinavos, que contam com “programas de apoio à formação seja artística, formação como músico ou compositor, seja como formação técnica”. Comparando os dois sistemas, o diretor do CTL e do Music Box refere que em Portugal o “nível de formação é bastante baixo”. E isto não se aplica só à componente de técnica musical, aplica-se também à sensibilidade com que os artistas abordam uma carreira na música. 

Solar Corona no Musicbox
Solar Corona no Musicbox. Foto de Ana Viotti

Hugo Pereira acrescenta que é necessária uma sensibilização para a forma como a indústria funciona, começando com uma introspecção de como a arte é vista e valorizada em Portugal, referindo a falta de sensibilidade que os músicos portugueses têm para a discussão de cachets e da abordagem feita aos concertos. “As condições para acolher uma banda internacional são sempre mais acessíveis do que as condições para acolheres uma banda nacional. E isto já quer dizer muito”, refere. “Esta sensibilidade falta muito aos portugueses”, acrescentou, afirmando que os artistas deviam pensar de outra forma. “Eu tenho aquele concerto ali que pode trazer-me público. Eu vou tentar que me paguem pelo menos as despesas. Não vou lá ganhar dinheiro, mas se ganhar público, já tenho qualquer coisa a ganhar”.

Os concertos online e o futuro

Acerca do papel que o online pode ter no futuro, as respostas foram unânimes. As reticências prevalecem, mas os artistas estão de braços abertos, pois não há nada a perder. “Se calhar uma pessoa está a tocar num país e outra pessoa pode aceder através do streaming. Nunca perdes nada. Se alguém estiver a assistir é mais uma pessoa a ouvir e a conhecer o teu projeto. É sempre positivo”, afirma Luís Fernandes, membro dos Yagmar. 

Rita Onofre também acredita que o online tem alguns benefícios. “Está a haver todo um desenvolvimento de concertos através de realidade virtual. Ou seja, o artista está a dar o concerto e está toda a gente na sala com óculos”. Para a artista esta é uma forma de chegar mais longe e a um público com o qual se calhar não teria contacto. “Um concerto que é dado de forma digital não tem limite [de público] e isso é muito bonito. Nós podemos chegar a muito mais pessoas, que estão noutra ponta do mundo”. 

Galgo no Musicbox por Ana Viotti
Galgo a atuar no Musicbox. Fotografia de Ana Viotti.

Em relação a pagar para assistir a concertos online, Onofre acredita que é preciso “ter amor ao artista para pagar um bilhete” o que considera ser ser “a parte mais difícil”. “Como é que se trazem pessoas para este lado?”, questiona a artista. No entanto, é necessário indicar que esta experiência nunca será igual à física, e, por isso, tem de servir apenas como complemento. “Nós, o ser humano, vivemos para termos relações humanas e para estarmos num sítio e estarmos com pessoas e vermos bandas e música e suarmos com a banda e saltarmos para cima do palco e fazermos essas coisas doidas, porque é o que nos faz sentir vivos”, refere Vítor Teixeira, acrescentando que, apesar disto, o online é um mercado que pode ser explorado para outros tipos de público, que poderão não estar presentes, de forma física, nos concertos.

Sem medidas ajustadas à situação corrente, a indústria da música vai dando pequenos passos para continuar a sobreviver. Com bandas a desaparecer e salas de espetáculo a fechar, todos os que fazem parte desta comunidade aguardam ansiosamente pelo amanhã. E quando o amanhã chegar, o público estará lá, mais que nunca, para receber os artistas de braços abertos. Pelo menos, é esta a esperança de todos os envolvidos neste setor. “O público vai estar sedento de concertos e de ver coisas”, diz Vítor. Mas será que todo este ecossistema sobreviverá? Até lá, e como refere Hugo Pereira, “é continuar a batalhar e trabalhar para aqueles para quem a cultura não pode esperar.”

Texto de Miguel Rocha e Pedro Terrantez, editado por Carolina Correia.