Mank
Fotografia: Netflix/Divulgação

‘Mank’. A cínica Velha Hollywood e os Estados Unidos de sempre

Mank é o mais recente filme de David Fincher. O guião foi escrito pelo pai do realizador e retrata o processo de criação do argumento de Citizen Kane e as vivências do seu autor: Herman J. Mankiewicz — Mank para os amigos.

Gary Oldman lidera um elenco que inclui ainda Amanda SeyfriedLily Collins Charles Dance. O filme é a aposta forte da Netflix para os próximos Óscares, usando uma narrativa sobre o passado de Hollywood  e uma produção que recria a identidade cinematográfica da época como trunfos.

Será Mank um dos melhores do ano? Ou não chega perto do filme que tenta homenagear?

Um filme sobre a vida que inspirou um filme

A história de Mank tem como ponto de partida a escrita de Citizen Kane. Mankiewicz (Gary Oldman) está a recuperar de um acidente de carro e é obrigado a ficar acamado. Para o ajudar (e aturar) no processo criativo tem uma assistente britânica, interpretada por Lily Collins. Este cenário é uma espécie de porto: O filme embarca para uma lembrança da vida de Mank, regressando depois para acompanhar o progresso da escrita do argumento. Esta estrutura repete-se durante todo o filme, com a exceção dos minutos finais.

É o paralelo mais óbvio com Citizen Kane, não fosse este o filme revolucionário que tornou famoso o uso recorrente de flashbacks. É também a melhor forma de articular os vários eventos, mais ou menos reais, sempre com uma dose de impressionismo, que moldaram a desilusão de Mank com o sistema de estrelas e o fez escrever uma das obras mais icónicas do século passado.

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Apesar disso, o filme demora a conquistar o espetador. O formato episódico implica que não há desenvolvimentos substanciais durante grande parte de Mank. É um retrato dos anos 30 que pede que entremos sem pressa. Não obstante, a partir da segunda metade das duas horas de duração, começamos verdadeiramente a afeiçoar-nos às personagens, sentir as suas (poucas) vitórias e (muitas) desilusões e com um interesse genuíno em cada regresso ao passado.

Algum do valor do filme é mesmo as ligações que podemos estabelecer entre Citizen Kane e a realidade que o inspirou. Torna-se um trabalho de casa indispensável (re)ver o clássico de 1941 antes de se entrar em Mank. Um espetador que não tenha a ligação emocional ao filme de Orson Welles não ficará tão satisfeito quanto isso.

Mank
Fotografia: Netflix/Divulgação

O passado bem presente

Hollywood muito gosta de celebrar a sua história, mas este filme não partilha o sentimento. Tal como o protagonista, a visão de Mank sobre o velho sistema de estrelas é despida de romantismo e recheada de cinismo. Os grandes produtores David O. Selznick (Toby Leonard Moore) e, especialmente, Louis B. Mayer (Arliss Howard) são retratados como charlatães que ligam apenas e só à sua riqueza pessoal. Os pequenos e idealistas são vistos como simples engrenagens na máquina bem oleada de estrelas de Cinema. E depois temos o William Randolph Hearst de Charles Dance, a personagem simbólica da podridão de Hollywood e o paralelo de Charles Foster Kane.

Mank deixa claro que a vida de uns vale muito mais do que a de outros. Um dos momentos mais eficazes e impactantes do filme é precisamente a demonstração desta dualidade de valores.

Mais curioso (e educativo) do que história cinéfila é a narrativa política secundária. É uma metáfora dentro de uma metáfora sobre a corrupção e a desonestidade disfarçadas da cidade de Los Angeles naquele período de tempo. Mais relevante ainda, é a prova de que passado quase um século, os Estados Unidos ainda lidam com os mesmos demónios de Mank.

À frente de tudo está um sensacional Gary Oldman. O ator britânico encarna totalmente o americano sem papas na língua, mas de coração grande. É a melhor prestação do ano e a grande candidata aos galardões habituais.

Lily Collins e Gary Oldman em Mank
Fotografia: Netflix/Divulgação

Depois temos Amanda Seyfried a interpretar Marion Davies, a mulher de William Hearst. É uma prestação bastante carismática que pode enganar os mais desatentos a pensarem que a personagem é bastante superficial e de cabeça perdida. Pelo contrário, é uma mulher bastante inteligente que se sente presa no papel que tem a cumprir na indústria do Cinema.

Palavra ainda para Lily Collins que tem um charme muito próprio e faz uma atuação menos chamativa, mas igualmente sólida. Arliss Howard também se destaca e pode ainda tentar espreitar os prémios de ator secundário.

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A comandar as operações temos a mestria técnica de David Fincher. O mundo a preto e branco de Mank captura o espírito da época e a banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross encaixa na perfeição. Já Erik Messerschmidt merece todos os louros pela linda cinematografia do filme.

Mank não é uma obra-prima, porém é uma excelente viagem ao passado de um génio atormentado e do filme que ainda hoje marca o Cinema. Nem todos terão a boa vontade para acompanhar os episódios da cínica Velha Hollywood ou dos Estados Unidos de sempre. No entanto, quem ficar até ao fim da viagem será recompensado com grandes atuações, uma realização magistral e uma escrita incisiva.

Mank
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