Web Summit
Fotografia: EF via D.R.

Web Summit. Portugal, sustentabilidade e cultura – o que têm todos a ver?

No último dia da maior conferência de tecnologia da Europa, Ana Bacalhau, José Luís Peixoto e Hugo Vau juntaram-se para falar sobre um Portugal sustentável.

Um painel muito completo juntou-se no canal português da Web Summit: inclui o escritor best-seller José Luís Peixoto, a artista Ana Bacalhau, o surfista Hugo Vau (MaraTeo Sea Land Expeditions), moderados pela apresentadora Ana Rita Clara (Change It). O que têm para conversar os quatro? Um Portugal sustentável, através da mudança de mentalidades e da criatividade.

A pergunta com que Ana Rita Clara começa a conversa com este painel é simples: porque é que são, Ana Bacalhau, José Luís Peixoto e Hugo Vau, changers? E estes changers têm muito que se lhe diga: será pela mudança de mentalidades ou pela mudança que o mundo traz naturalmente? A doutrina diverge.

Ana Bacalhau diz que “nunca se sentiu enquadrada [em algum lado]“, então a mudança tornou-se desde logo algo bom para si. A cantora lamenta que estejamos “programados para não gostar de mudanças, porque as vemos como um perigo“.

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Fotografia: Reprodução

Eu aprendi que a mudança faz parte da vida. Ela virá. Muitas das vezes, não a vemos chegar, e muitas das vezes, não conseguimos imaginar que nos chegue da forma como chega.“, reitera. “É o que fazemos com ela [mudança] e a forma como reagimos que importa.” Para quem não sabia, Ana Bacalhau revela ainda que, antes de saber que a música era o seu caminho, “queria ser professora de Inglês“.

Já para José Luís Peixoto, a mudança define-se logo por não ser uma questão de escolha. “Sinto que devemos ser conscientes sobre a natural e constante metamorfose das coisas, é uma parte da vida“, à qual nos devemos adaptar.

Em condições tão extremas e com desafios como aqueles com que nos deparamos agora”, continua, “torna-se bastante clara a importância da mudança.” O escritor acrescentou ainda que ler e escrever são formas de ganhar habilidade de interpretação e consciência das coisas que nos rodeiam. Desculpando-se por roubar a onda de Hugo Vau, que ouvimos de seguida, diz que temos de surfar estes desafios e ver o que se esconde por trás dos mesmos.

Hugo Vau começa logo por dizer que “todas as ondas são diferentes, não podemos surfá-las ou aproximar-nos delas da mesma forma“. De alguma maneira, o surf “é uma forma de viver em constante adaptação“. No final do dia, Hugo senta-se a olhar para o horizonte e está grato: “É tudo natureza. Temos de parar, ter estas pausas na vida para refletir. Principalmente, por respeito pela espécie humana, por respeito pelo próximo.

Como foi o confinamento para este painel?

No que respeita à criação durante a quarentena, pergunta com que Ana Rita Clara resume o testemunho de Ana Bacalhau, a cantora diz desde logo que nas primeiras semanas de confinamento, não criou nada. “Eram demasiadas emoções em conflito“, e a isso junta-se o processo que não estava a conseguir seguir. “Primeiro tem de se sentir, de se viver, para se conseguir criar algo.

Não seria a nossa célebre vocalista dos Deolinda se não houvesse uma críticazinha: “Eu não acredito nessa coisa do ‘vamos ficar todos bem’. Temos de trabalhar para isso.” Dá, como exemplo, o ambiente: “O planeta não vai a lado nenhum, nós vamos… ser extintos.

Antes de passar a palavra ao autor de obras Nenhum Olhar ou Livro, Ana fala sobre como o mundo lidou com os sentimentos durante o confinamento, dizendo que nesta altura muita gente se virou para duas fações muito opostas: uns para o ódio e para a fúria, outros para o amor. Embora escolha o amor, lidou também com sentimentos negativos, e diz-nos que o ideal é deixá-los fluir e trabalhar neles até que se tornem em algo positivo. “Temos de nos deixar sentir essas coisas, para que eles não nos consigam controlar mais tarde.

Ana Rita Clara tem uma pergunta para José Luís Peixoto: podemos retirar algo positivo desta situação? O autor considera que sim, porém reitera que “não devemos fechar os olhos às perdas que nos trouxe“. No que respeita à sua própria forma de lidar com os desafios do confinamento: uma das maneiras foi… escrever. “Antes [da pandemia], eu estava a trabalhar num romance“, diz, acrescentando que o colocou de lado.

Mas desta vez, comecei a escrever poesia. O meu último livro de poesia tinha sido publicado em 2008, há 12 anos.” A obra Regresso a Casa foi escrita entre março e junho e foi publicada em agosto. “Foi muito importante para mim publicar poesia novamente. Como sabem, em Portugal a poesia tem uma grande importância. Temos uma relação muito forte entre a nossa língua e a poesia, temos uma forte tradição de poesia.”

Além do livro de poesia, o escritor lançou outro projeto, desta vez online. Não sendo estranho à escrita que descreve viagens (vejamos pelo seu livro Dentro do Segredo, quando esteve na Coreia do Norte em 2012, por exemplo), nem à participação ativa em blogs, José Luís Peixoto colocou em pé um blog dedicado às viagens que fez (e às que deixou por fazer). “Foi muito bem sucedido e foi uma ótima forma de comunicar com pessoas, por todo o mundo, que falam português.

Imagem do blogue criado por José Luís Peixoto, onde partilha histórias sobre os sítios que visitou até 2020.

Hugo Vau não lidou propriamente bem com o início da pandemia: “Pensava que ia ser o fim do mundo.” Isolou-se com a esposa, e pensaram em maneiras de se tornarem autossustentáveis, quando não podiam sair de casa – embora, confessa o surfista, estivessem num sítio tão isolado que podiam sair e não encontravam ninguém. Foi assim que começaram a procurar fontes de água, a pescar, a plantar comida. Hugo sempre esteve envolvido com a natureza, o que facilitou essa transição. “De volta às raízes!“, comenta Ana Rita Clara.

Há uma ideia que fica permanente neste tipo de situações: “Tu sentes que o teu corpo não é nada, enquanto que a tua mente é tudo.“, diz-nos Hugo. “Sobrevives por causa da tua preparação mental.

O que é que podemos tirar desta conversa para a sustentabilidade em Portugal (e no mundo)?

2021 está a chegar e terá os seus próprios desafios. Mas, primeiro, Ana Bacalhau diz-nos o que não nos podemos esquecer de fazer: “Temos de recuperar, física e mentalmente. Temos de fazer buscas profundas”. E fica também a dica: “Temos de entender que somos parte de um sistema, somos parte do ambiente, e não o ambiente.

Somos turistas na Terra. A natureza deixa-nos viver aqui.“, Ana Rita menciona. Então, que lições tiramos desta experiência de isolamento e como é que podemos adaptá-la em nome da sustentabilidade?

Sinto que uma lição positiva que tiramos de tudo isto é a forma como utilizámos a tecnologia que já tínhamos. Usamo-la com mais frequência e de maneira a que seja uma vantagem.“, é a resposta do escritor do painel. “A tecnologia também contribui para a sustentabilidade.

Para Hugo Vau, a mensagem é simples: “com pequenas coisas, conseguimos fazer a diferença“. E estabelece a comparação: “preferimos ter 10 pessoas radicais a fazer algo ou ter milhões de pessoas a fazer pequenas coisas?“.

A conclusão? A mudança requer a união de todos.

Acompanha aqui em direto o último dia da Web Summit com o Espalha-Factos.
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