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Fotografia: Brian McGowan/Unsplash

Web Summit. Estes são os desafios do jornalismo em 2020

2020 foi marcado pela adaptação ao trabalho remoto e pelas questões sociais que o ano colocou em evidência.

O canal 3 da Web Summit, onde se discute a sociedade, ficou hoje marcado pelos vários painéis dedicados ao jornalismo e aos media: a reportagem de questões controversas para uns, a forma como o jornalismo mudou nas últimas décadas para outros, e ainda a dicotomia entre a neutralidade e a moralidade, que reside nas redações por todo o mundo.

O desafio das notícias locais e internacionais num mundo globalizado… cuja globalização é o status quo do Ocidente

Como podem os jornalistas cobrir histórias internacionais quando as histórias ocidentais se tornam nas top stories em todo o mundo?

Eleanor Mills, que coordenou o painel onde estiveram também Tony Karon (AJ+), Laura Lucchini (Ruptly) e Adriaan Basson (News24), deu como exemplo de tópicos globais mais falados este ano: Trump e a Covid-19. Que, para Tony Karon, não foram estranhos: “todas as notícias locais falam da Covid-19 ou do Trump, tópicos globais“.

Enquanto que a segunda é, efetivamente, um tema global, o primeiro poderia ser descartado; não fosse a influência dos EUA no mundo, uma influência potencialmente indiferente e cómica para o resto do Ocidente, mas bastante negativa para a maioria do terceiro mundo.

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Fotografia: Reprodução

Laura Lucchini acredita que, apesar da dominância de tópicos como o Trump e a Covid-19 este ano, “a Covid-19 é um tema excecional, que tornou possível contar histórias íntimas e locais a todo o mundo“. A jornalista, que falava a partir de Berlim, salientou a sua importância centrada no facto de todos estarem a viver a mesma situação, empatizando com essas histórias.

No entanto, deixou claro que as histórias mais bem sucedidas do ano não foram relacionadas com o grande tema do ano, mas foram antes notícias como a explosão em Beirut ou situações íntimas em que as pessoas lutam contra a justiça, por exemplo.

É deixada no ar a ideia de que as pessoas procuraram, este ano, notícias que não toquem estes temas, fortemente explorados ao longo dos últimos dez meses.

O desafio da reportagem dos factos – e só dos factos

Eric Schurenberg (Inc. & Fast Company) sentou-se com Gerry Baker (The Wall Street Journal), John Micklethwait (Bloomberg) e Versha Sharma (NowThis), e os quatro discutiram como mudou a verdade objetiva que os jornalistas reportam nas últimas décadas.

Quando Baker e Micklethwait começaram a sua carreira, o jornalismo era simples: “isto é um facto“. Hoje, dizem, há uma orientação mais ligada ao negócio, ao marketing, às redes sociais. Numa audiência substancialmente maior, muito gira em torno da publicidade.

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Fotografia: Reprodução

Mas a verdade objetiva continua a existir. De acordo com Versha Sharma, a mais jovem e a única mulher do painel, esta verdade é um objetivo importante para os jornalistas, e os jovens também se importam com a mesma, apesar da era digital em que vivem. Quando falamos de ciência e de racismo, “conceitos em que os jovens estão focados“, eles dizem quando as coisas não são factuais.

Para Sharma, apesar das prioridades das Redações terem sido alteradas, também acontece que as redações em si, anteriormente dominadas por um certo grupo de pessoas, alteraram. A correspondente sénior da NowThis focou o seu discurso na representatividade, explicando que atualmente há mais pessoas de cor nas Redações e na sua liderança, enquanto que anteriormente isso não acontecia; ainda assim, a representatividade do povo norte-americano nas Redações não é proporcional.

Eric Schurenberg termina por perguntar ao painel se acredita que a relação da Presidência com os jornalistas, que com Trump caiu em pedaços, se irá recompor com Biden: Sharma pareceu otimista, mas Micklethwait salienta que há sempre uma boa fase e uma má fase nas relações entre a política e os media.

O desafio da investigação política pelo jornalista – falar de corrupção continua a ser um perigo?

Antes de nos levantarmos e voarmos para outros temas, ficámos atentos ao painel que se seguiu: Nicholas Wu (USA Today) e Elliot Biggins (Bellingcat) falam sobre um dos temas que assombra a política em todo o mundo: a corrupção. E como o jornalista tem o papel de a expor (não nos esqueçamos do caso Watergate, em 1972, por exemplo).

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A companhia de Higgins, Bellingcat, foca-se em investigações com base na verificação de factos, bem como no uso das redes sociais para combater a corrupção política.

Wu perguntou-lhe, a certo ponto, se tem medo. Higgins não nega; no entanto, a forma pública como trabalha dá-lhe alguma tranquilidade que os jornalistas, que trabalham com fontes secretas, poderão não ter do seu lado.

O desafio da neutralidade vs moralidade

Alyson Shontell (Business Insider) e Jim Bankoff (CEO da Vox Media) apresentaram-se, ao final da tarde, no canal 2 da Web Summit. O tema da conversa foi a cobertura mediática que a Vox fez durante este controverso ano, nomeadamente em temas que tocam a sua audiência primária, o povo norte-americano.

Aqui encontram-se a pandemia, os protestos pela igualdade racial e pela justiça e, mais recentemente, as Eleições mais importantes do ano, que decidiram o Presidente dos EUA.

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Shontell expôs que há, hoje, uma pressão para que os media tomem uma posição moral em determinados tópicos, em vez de manterem uma posição neutra como se esperaria do jornalismo, como acontece quando se fala de racismo.

Bankoff disse que é inevitável que não haja uma posição moral em determinados tópicos, e que está orgulhoso da liderança editorial das suas Redações. Nas Redações que pertencem à Vox Media, Bankoff salientou que devem ser respeitados os valores pelos quais a companhia se rege, como a inclusão e a diversidade, enquanto encorajam os jornalistas a correr riscos.

A conversa fechou com o tema de desinformação, que Bankoff manifestou ser amplificada nas redes sociais, especialmente o Facebook. No entanto, é também dito que hoje as plataformas começam a priveligiar e a filtrar informação de qualidade.

Antes de ir embora, o conselho de Bankoff para os futuros empreendedores no setor dos media foi que os podcasts são o formato mediático do futuro, e que pretende investir mais no formato, em nome da Vox Media.

Lê aqui o que se discutiu sobre o jornalismo e a tecnologia no primeiro dia da Web Summit:

Web Summit. A tecnologia está a mudar o jornalismo – e isso nem sempre é bom

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