Eduardo Lourenço
Márcia Lessa/Fundação Calouste Gulbenkian

Morreu o ensaísta Eduardo Lourenço

Embora tenha vivido em França vários anos, sempre cultivou a reflexão sobre a sociedade portuguesa

O ensaísta Eduardo Lourenço morreu esta terça-feira (1), aos 97 anos, avança a Agência Lusa. Considerado “uma das grandes referências das culturas de língua portuguesa” – como assinala a página do Centro Nacional da Cultura -, fica eternizado pela “liberdade de espírito“.

Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta, interventor cívico, várias vezes galardoado e distinguido, Eduardo Lourenço nasceu em 23 de maio de 1923, em S. Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida, na Beira Baixa, tendo sido apenas registado no dia 29 desse mês. Sendo o mais velho de sete irmãos, e filho de um militar do exército, frequentou a escola primária da aldeia onde nasceu e matriculou-se, posteriormente, no Colégio Militar, em Lisboa, onde concluiu o curso em 1940.

Frequentou o curso de Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo concluído a licenciatura em 1946, com uma tese sobre “O Sentido da dialética no idealismo absoluto“. Três anos depois, com 26 anos, reúne parte da sua tese de licenciatura no primeiro volume de uma obra intitulada Heterodoxia.

Iniciou depois uma carreira de docência académica em várias universidades americanas e europeias. Passou por Hamburgo e Heidelberg, na Alemanha, Montpellier, Grenoble e Nice, em França, e na da Baía, no Brasil, entre outras. Fixando, depois, residência em França, continuou sempre com a reflexão sobre a sociedade portuguesa.

O Labirinto da Saudade, a sua obra mais conhecida, de 1978, é exemplo dessa mesma reflexão. Compila “um discurso crítico sobre as imagens que de nós próprios temos forjado“, como o próprio autor descreveu. Embora favorável a ideias de esquerda, nunca deixou de cultivar a liberdade de pensamento.

Recebeu recebeu as ordens de Grande Oficial de Santiago e Espada (1981), a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1992), a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada (2003) e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (2014).

“Uma figura nacional, europeia e universal”

Várias foram já as personalidades que esta manhã endereçaram as suas mensagens de pesar. Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Grande Conselho do Centro Nacional da Cultura, considera Eduardo Lourenço “uma das grandes referências das culturas de língua portuguesa“, frisando que, no seu percurso, “sempre teve uma participação marcante sempre em fértil ligação com a literatura portuguesa, sobre que refletiu exaustivamente“.

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, utilizou a rede social Twitter para “lamentar profundamente a morte de Eduardo Lourenço, uma das mentes mais brilhantes deste país“. “Eduardo Lourenço foi um pensador, arguto e sensível como poucos e incansável combatente do caos dos dias“, pontuou.

É com profunda tristeza que lamento a morte de Eduardo Lourenço, uma daquelas raras personalidades que conseguem alcançar o privilégio do respeito unânime e da admiração geral“, escreveu na mesma rede social António Costa.

Pela sua obra e pela sua vida, pela estatura intelectual e pela exemplaridade moral, constituiu-se como referência e símbolo“, assinalou o primeiro-ministro, considerando Eduardo Lourenço “uma figura nacional, europeia e universal“.

Também Marcelo Rebelo de Sousa deixou as suas “sentidas condolências” na página da Presidência da República àquela que considera uma “figura essencial do Portugal que vivemos“. “Eduardo Lourenço foi, desde o início da segunda metade do século passado, o nosso mais importante ensaísta e crítico, o nosso mais destacado intelectual público“, descreve o Presidente da República.

Marcelo faz notar que “poucos foram os «estrangeirados» tão obsessivos na sua relação com os temas portugueses, com a cultura, identidade e mitologias portuguesas“.

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