Look Back in Anger

‘Look Back in Anger’: o renascimento do teatro britânico

A peça de John Osborne, que mudou o teatro inglês, estreou há 66 anos.

Quando se fala em teatro inglês, pensamos sempre no mesmo dramaturgo, William Shakespeare. Na verdade, Shakespeare transcende o teatro inglês, é um ícone da arte cénica em si. No entanto, com a peça Look Back in Anger, em 1952, John Osborne começou um legado tão importante quanto o do dramaturgo renascentista. Com efeito, Osborne é visto como o criador do kitchen sink drama, um movimento com o qual o teatro britânico renasceu. Este género espalhou-se para as letras, cinema e televisão, durante a década de 50 e 60, no Reino Unido.

A ação desenvolve-se em volta das tardes de domingo do anti-herói Jimmy Porter, um jovem adulto inteligente mas descontente com o mundo, e da esposa, Allison, assim como do colega de casa, Cliff Lewis. Os três não podiam ser mais diferentes. Jimmy é agressivo e possessivo. Está mal com tudo e com todos. Passa as tardes a insultar Allison Cliff, chegando a agredi-los, mesmo que seja acidentalmente, sem mostrar qualquer remorso. Allison é passiva e não desafia o marido, amo-a como ele é. assim como Cliff, que só procura acalmar os ânimos entre o casal. Logo no primeiro ato, o espectador descobre que Allison esconde um segredo de Jimmy, que é só revelado a Cliff e a uma amiga, Helena Charles. A personagem de Helena choca, pois é a única que enfrenta Jimmy.

A peça move-se lentamente, mas de forma elétrica. Aos poucos, vamos conhecendo melhor as personagens, assim como as inquietações de Jimmy e as verdadeiras intenções de Helena. Por fim, a peça culmina num curto, mas memorável terceiro ato, que marcou o teatro britânico.

Mas, afinal, o que é o kitchen sink drama?

Traduzido à letra, kitchen sink drama seria algo como “drama de lava loiça”. O termo está associado ao realismo social. A sua premissa choca com o seu antecessor, o escapismo. Neste estilo, o autor escapa aos aspetos desagradáveis do quotidiano, em busca de um mundo imaginário.

A ideia de John Osborne parte de criar um teatro desprovido de imaginação, que relatasse situações (num espaço familiar) com as quais todos nos pudéssemos relacionar. Por essa razão, a peça passa-se em tardes domingueiras, num apartamento de classe média baixa, onde Jimmy Cliff leem os jornais, enquanto Allison passa a ferro. Consequentemente, a audiência é inserida num contexto que lhe é familiar. O dramaturgo não era fã do chamado “teatro bem feito“, e quis escrever um texto desprovido de intelectualismo, ou presunções.

Por sua vez, os temas destas peças também estão longe de ser convencionais. É o que se passa com A Taste of Honey. A peça foca-se numa rapariga de dezassete anos, branca, que começa uma relação com um marinheiro naval negro, interpretado por Billy Dee Williams. Depois de engravidar, muda-se para a casa de um amigo homossexual. Consequentemente, a peça de Shelag Delaney causou bastante controvérsia, por abordar temos como classe social, papel de cada género na sociedade, orientação sexual, e etnia.

Igualmente, o texto de Osborne visita temáticas semelhantes, como o choque de classes sociais. Como vimos, Jimmy tem origem na classe operária. Enquanto o pai de Allison tem o título de Coronel, por causa do tempo passado na índia, quando ainda era um colónia inglesa, o pai de Jimmy morre por não conseguir recuperar de ferimentos de guerra. Com isto, Jimmy tem um ódio pela burguesia, assim como Osborne, e em especial pela família da esposa.

De onde veio o kitchen sink drama e para onde foi?

O termo aparece devido às obras do pintor expressionista John Bratby, nas quais apareciam uma quantia considerável de pias de lavar a loiça. No entanto, pensa-se Look Back in Anger como a primeira peça de kitchen sink drama.

Contrariamente aos trabalhos de Osborne, antes da década de 50, a classe média era retratada estereotipicamente nas peças de Noël Coward, seguindo a tradição do “teatro bem-feito”. O kitchen sink drama aparece com o intuito de criar uma rutura com esta estética.

Em 1952, Look Back in Anger vem abraçar o movimento angry young men (jovens adultos zangados), começado por encenadores e realizadores de cinema ingleses. Este grupo era também composto por jovens romancistas e ensaístas, de origem operária, que tinham ganho voz nos anos 5o. Naturalmente, como indica o nome, estavam dessatisfeitos com Inglaterra do pós-guerra, e com o que lhes poderia oferecer. Por exemplo, Jimmy tem um curso superior, mas trabalha numa roulotte de doces, com Cliff.

É no Royal Court Theatre, em Chelsea, que estas peças ganham vida. Com efeito, o teatro é casa de controvérsia, já desde a estreia do musical Happy Land, em 1873.

Este movimento encontra o seu par em França, com a nouvelle vaguecom filmes como Os quatrocentos golpes, que se focam no proletariado urbano.

Nos final dos anos 50 e início dos anos 60, o kitchen sink encontra manifestação no cinema, com Paixão Proibida (adaptação de Look Back in Anger), Uma Gota de Mel (adaptação de A Taste of Honey)Sábado à Noite, Domingo de Manhã (Saturday Night, Sunday Morning).

Na música contemporânea, encontram-se elementos de kitchen sink nas letras de Morrissey (The Smiths), Pete Doherty (The Libertines), Alex Turner (Arctic Monkeys), e, mais recentemente, Jake Bugg.

Onde podemos ver estas peças e filmes?

Look Back in Anger não está em cena em Portugal, mas é possível comprar o texto de John Osborne. A adaptação cinematográfica, Paixão Proibida, está disponível no iTunes. Do mesmo modo, Sábado à noite, Domingo de Manhã está disponível na mesma plataforma.

Por sua vez, A Taste of Honey também não está a ser produzida e o filme ainda não chegou ao nosso país. No entanto, está disponível no Youtube uma adaptação radiofónica do texto de Shelag Delaney.

Do mesmo modo, é possível encontrar, na mesma plataforma, várias adaptações amadoras, mas bem produzidas, de Look Back in Anger.

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