Opto SIC Globoplay
Fotografia: Reprodução

OPTO e Globoplay: semelhanças e diferenças na guerra dos streamings

Antes tarde do que nunca. O lançamento do OPTO marcou a entrada definitiva da SIC na guerra dos streamings em Portugal.

Além da possibilidade de ver posteriormente os programas já transmitidos pelo canal generalista (catch up TV), a plataforma também abre espaço para produções exclusivas que podem ser vistas pelos assinantes do plano premium.

Também há a possibilidade de assistir alguns conteúdos gratuitamente, fazendo do OPTO um típico serviço freemium, ou seja, que combina o grátis com o pago. Todos esses atributos colocam a SIC em condições de ganhar pontos na disputa contra a RTP e a TVI e, ao mesmo tempo, posicionar-se como uma opção válida aos milhões de portugueses e lusodescendentes espalhados ao redor do mundo, já que o OPTO conta com um preço específico para quem vive no estrangeiro.

Na guerra pela audiência internacional, a SIC concorrerá com sua maior parceira: a Globo, que opera plataformas de streaming no Brasil desde 2011. Mostra-se acertado, portanto, o posicionamento assumido pelo OPTO desde quando foi anunciado pela primeira vez, no início de outubro. “Ao optar-se pela SIC, opta-se por Portugal e pela portugalidade“, disse à época Francisco Pedro Balsemão, CEO do grupo IMPRESA. Embora os conteúdos da Globo sejam muito vistos pelos portugueses, é natural que esse público prefira acompanhar histórias que retratem a sua cultura, as suas gentes e a sua terra no ecrã.

OPTO vs. Globoplay: Onde começam e terminam as parecenças?

Ainda que tenha diferenciais claros, o OPTO possui certas semelhanças com o Globoplay, serviço de video on demand da Globo, que foi inteiramente reformulado em 2018 para fazer frente ao avanço da Amazon Prime Video e do Netflix no Brasil. A maior dessas semelhanças, sem dúvida, é o destaque dado às telenovelas. Contudo, enquanto a SIC permite ver os episódios na Internet 24 horas antes deles irem ao ar no canal generalista, a Globo só os disponibiliza depois de serem apresentados na grelha de programação convencional. O digital first, portanto, não é regra dentro da Globo, que poucas vezes aplicou essa estratégia ao seu principal tipo de produto. Um raro exemplo foi com Órfãos da Terra, de 2019.

Se o free-to-air ainda é a forma preferencial para transmitir telenovelas, o streaming firma-se como o território das séries. É neste género em que tanto o OPTO quanto o Globoplay fazem suas apostas mais ousadas. Para o online, a SIC realizou, por exemplo, A Generala, que tem uma estética completamente distinta daquela que caracteriza as produções dramáticas exibidas pelo canal generalista.

Soraia Chaves é a Generala.
Fotografia: SIC / Divulgação

Tal arrojo também pode ser observado nas séries originais Globoplay, que surgiram em 2018 com Além da Ilha. Além do nível técnico superior, tanto a plataforma brasileira quanto a portuguesa se assemelham pela escolha de temas fortemente ligados à história e a cultura dos seus países. São cenários e personagens reconhecíveis por parte das audiências locais, algo que não se vê na maioria dos conteúdos oferecidos pelos serviços estadunidenses.

Uma das grandes diferenças do Globoplay em relação ao OPTO está no volume de produções estrangeiras. A série The Good Doctor é um carro-chefe do catálogo da Globo, que também inclui sucessos como Bates Motel, Grey’s Anatomy e The Walking Dead. Outra vantagem do Globoplay está na utilização do acervo histórico do canal generalista. Em maio de 2020, por exemplo, foi anunciada a entrada de 50 telenovelas antigas, começando por A Favorita.

Em contrapartida, a SIC inovou ao lançar no OPTO versões exclusivas (e mais curtas) dos seus noticiários. O assinante pode escolher entre três durações: 10, 15 ou 20 minutos. Tal proposta é compreensível em Portugal, talvez o único país do mundo onde todos os canais generalistas transmitem, de domingo a domingo e nos mesmos horários, telejornais noturnos com quase duas horas de duração.

No mercado de streaming, o OPTO melhora a posição da SIC perante os seus concorrentes mais diretos, ainda que o RTP Play, cuja proposta é bastante particular, mereça elogios pela forma como integra conteúdos ao vivo e gravados vindos de tantas fontes diferentes, inclusive da rádio. Ainda há espaço para o TVI Player crescer, especialmente se aperfeiçoar as funcionalidades do aplicativo e incluir mais programas exclusivos, indo além daqueles já exibidos no free-to-air.

Há algo, porém, que deveria ser revisto pela SIC caso ela realmente deseje conquistar mais clientes no estrangeiro para sua plataforma de video on demand: o preço. A assinatura OPTO premium anual começou a ser oferecida por 59,99 euros, o que equivale a cerca de 382 reais. Este valor é bem maior, por exemplo, que os 237,90 reais (em torno de 37 euros) anuais cobrados à vista pelo Disney+ durante a sua pré-venda no Brasil. Vale ressaltar que, para ganhar terreno na América Latina, a gigante estadunidense decidiu que não cobraria seu serviço em dólares ou euros, mas na moeda de cada país. O preço promocional praticado pelo Disney+ é quase igual ao valor cobrado regularmente pelo plano anual do Globoplay: 238,80 reais, cerca de 37 euros. Em tempo: no Brasil, Globoplay e Disney+ também são vendidos de forma combinada e com desconto.

Guardadas as devidas proporções, Globo e SIC vivem um mesmo desafio: deixarem de ser apenas canais de TV para se transformarem em mediatechs, ou seja, empresas que encaram a tecnologia como núcleo, e não simples apoio, do negócio de comunicação. Mais do que uma mudança de ordem econômica, trata-se de uma mudança cultural que exige muito tempo e dinheiro até se firmar. Como brasileiro, mas filho e neto de portugueses, fico feliz em ver tamanha renovação caminhando a passos largos no mercado lusófono, formado pelas quase 300 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo que falam a língua de Camões.

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