Soraia Chaves é a Generala.
Fotografia: SIC / Divulgação

Crítica. ‘A Generala’: a identidade em todos os ecrãs

A Generala é a primeira série da SIC para a OPTO, a nova plataforma de streaming. Protagonizada por Soraia Chaves, a série retrata a história de Maria Luísa, uma mulher que decidiu desafiar todas as regras e fazer passar-se por homem durante quase 20 anos. O Espalha-Factos já viu o primeiro episódio desta história verídica.

Inspirada na história de Maria Teresinha Gomes, uma mulher que se fez passar por general durante duas décadas, até ser acusada de burla. Na série da OPTO, A Generala chama-se Maria Luísa Paiva Monteiro, uma jovem que sempre foi diferente das demais, incapaz de se moldar às normas da sociedade, e com uma grande chama dentro de si que a obrigaria para sempre a ser diferente. A primeira grande aposta da SIC no digital é uma história sobre a identidade de género e o preconceito, num Portugal ainda incapaz de os debater com a devida liberdade.

Carolina Carvalho na Generala.
Fotografia: SIC / Divulgação

A história começa na década de 1960 na Madeira, com Maria Luísa (Carolina Carvalho). Desde pequena que sempre se sentiu mais confortável junto dos rapazes, até crescer e se envolver com um homem casado – personagem interpretada por Ricardo Pereira. Numa relação com alguém que incentivava a sua cultura e também os seus sonhos, Maria Luísa acaba por encontrar uma prisão na sua própria casa, com um pai que não a apoia e uma mãe que se mostrou incapaz de lhe dar amor. Decidida a prosseguir os estudos no continente, Maria Luísa só vê uma saída para a liberdade: fingir a sua própria morte.

Ao mesmo tempo, no futuro, Soraia Chaves e a sua adulta Maria Luísa – ou Otávio Paiva Monteiro – vêem-se em maus lençóis. A farsa cai por terra e o segredo é desvendado, após anos de mentiras. A questão, no entanto, é só uma. Ter-se-á Maria Luísa transformado porque era infeliz como mulher ou porque era uma criminosa? A resposta parece ser fácil. E de crime nada tem.

Será o corpo que nos limita?

A Generala nos primeiros anos.
Fotografia: SIC / Divulgação

A nova aposta da SIC na área da ficção vem compreender-se no espectro da identidade de género. Maria Luísa sempre foi uma mulher, até deixar de o ser. Queria seguir estudos superiores, mas a família não a deixava, por ser mulher. O lugar de uma mulher, na década de 60, era ficar em casa. Ou, se quisesse realmente trabalhar, seria secretária numa empresa, mesmo que as suas qualificações fossem superiores. Era o caso da protagonista de A Generala. Maria Luísa era um prodígio na escola – desde pequena – mas, de alguma forma, parecia condenada a apodrecer na mediocridade. Incapaz de se conformar com o seu futuro, Maria transforma-se em Otávio e quebra com o sistema patriarcal que a esperava, tornando-se a sua própria líder de família. Como homem, não tinha de responder a ninguém se não a si própria.

Apesar de ser uma história já com alguns anos – que se tornou um dos casos mais polémicos da década 90 em Portugal – a história do general que era, na verdade, uma generala, é mais atual do que possamos pensar. Em 2020, as mulheres continuam a ter de lutar por melhores condições de trabalho e muitas pessoas ainda lutam por perceberem a sua verdadeira identidade. Podemos nascer de um corpo de mulher, mas não pode ser o nosso corpo a delinear as nossas limitações. Maria Teresinha Gomes, a mulher que inspirou a nova série da SIC, jurou até ao fim dos seus dias que era homem. A sua insistência deveria bastar.

Mais do que a sua história

Carolina Carvalho como Otávio Paiva Monteiro.
Fotografia: SIC / Divulgação

A Generala é uma daquelas produções que representa muito mais do que a sua história. É uma bandeira de representatividade nas questões de identidade e autodeterminação, e é também uma aposta importante no audiovisual português, ao ser a primeira série a ser produzida para ser exclusiva de um serviço de streaming pago em Portugal. A história de Maria Luísa, apesar de não ser apelativa para todas as camadas do público, aproxima o público tradicional da SIC à era digital.

Embora o streaming transmita a ideia de ser algo relativamente jovem e atraente, a verdade é que não pode descurar apostas mais maduras e trabalhadas, sendo que A Generala acerta em cheio nesse requisito. Não é uma série viciante, que colocará todas as pessoas a falarem da história, mas é uma produção de excelência, com uma história tocante e atuações memoráveis. Embora a televisão portuguesa continue a apostar em longas novelas, com histórias já mais do que vistas, o streaming da SIC aponta para o futuro, sai da caixa e dispara um tiro certeiro. Melhor era difícil.

Soraia Chaves em A Generala
Fotografia: SIC / Divulgação

A produção ficou a cargo da Coral, com quem a SIC tem trabalhado em Golpe de Sorte, sendo que o argumento ficou também a cargo de Vera Sacramento e Patrícia Müller, autoras já habituais nas produções da Três. A realização de A Generala aproxima a série portuguesa de produções estrangeiras, assente numa banda sonora que balanceia o cariz dramático da história do homem que nasceu mulher.

Num regresso das estações privadas às produções históricas, A Generala marca o ritmo de uma nova era da televisão portuguesa em que agora, mais do que nunca, está onde queremos, à hora que queremos.

Soraia Chaves é a Generala.
8.5
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