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Valete: muito mais do que cinco músicas sobre racismo

O rapper santomense Keidje Torres Lima, conhecido como Valete, lançou cinco canções na madrugada de sexta-feira.

rapper Valete lançou cinco novas músicas na madrugada de sexta-feira (20).  Nos singles, Keidje Torres Lima abordou temas como o racismo, o fascismo e as consequências devastadoras da pandemia Covid-19. São elas ‘Indústria dos Sonhos’, ‘Olimpo’, ‘Rua do Poço dos Negros’, ‘Ilha de Honshu’ e ‘Viaja’.

Valete começou a trabalhar nas letras em junho e julho deste ano. Num comunicado enviado à imprensa, o músico explica que passou por “um confinamento auto-imposto depois do confinamento nacional”. Conta ainda que “tinha um negócio no mercado do airbnb que faliu, fiquei sem concertos e vi muita gente à minha volta desesperada, no meio da guerra pandémica e com a brusca quebra de rendimentos”.

Estes meses “também coincidiram com o pós-morte de George Floyd e todos os protestos e debates que foram gerados em torno do acontecimento“. Valete partilha que “deu para sentir de tudo nesse período. Medo, revolta, impotência, mas também calma e esperança resultantes de longos momentos de reflexão. Quis pôr todas essas sensações nos cinco temas que criei nessas cinco semanas. Nunca tinha criado dessa forma. Cada tema reflete exactamente o que estava a sentir em cada momento. Cinco semanas, cinco temas. Cinco emoções, cinco temas”.

Nas redes sociais, o música partilhou um vídeo a anunciar o lançamento dos temas. “Um dos objetivos era fazer com que os sons soassem todos diferentes, mostrar versatilidade. Estou muito satisfeito”. Valete deixou ainda em aberto a possibilidade de nomas músicas exclusivas serem divulgadas nas plataformas de streaming.

O rapper não regressou sozinho. Nas novas faixas, colaborou com nomes como Virgul, Nach, Phoenix RDC, Sérgio Mota, Dino D’Santiago, X-Tense e Lila. Valete voltou também com o “Rap da Velha Escola“, em letras estilizadas como se tivessem sido gravadas numa VHS, como denota no vídeo de “Rua do Poço dos Negros”.

De facto, o rapper emprega uma sonoridade que lembra os seus dois lendários álbuns, Educação Visual Serviço Público. No entanto, Andrezzo, Charlie Beats e DJ Link, responsáveis pelos instrumentais das novas músicas, sob a direção musical do rapper, conseguiram conciliar o antigo com o novo. O triunfo é mesmo esse, sem perder a sua identidade, a sonoridade é muito interessante, onde se ouvem tanto violinos, como baterias com as peles gastas. O renascer da velha escola. Às vezes, parece que estamos a ouvir instrumentos saídos da tal Panasonic de antigamente, mencionada em ‘Olimpo’. O hip-hop das ruas não se perdeu, mas mostrou-se “em várias cores”, tal como disse o rapper na mesma música, onde fez equipa com Phoenix RDC e Virgul.

O racismo estrutural omnipresente cantado em ‘Rua do Poço dos Negros’

Para além dos impressionantes instrumentais, o que realmente fica destas cinco faixas são as letras. O rapper já nos tinha habituado a um tipo de comentário social muito próprio e sincero. É complicado escolher um tema que se sobressaia, mas talvez seja ‘Rua do Poço dos Negros’.  O título remete para 1515, quando Dom Manuel I decretou que os corpos dos escravos deixariam de ser sepultados nas lixeiras ou nas ribanceiras. Com isto, ordenou que fosse escavado um poço para depositar os cadáveres, dando origem à Rua do Poço dos Negros.

A letra foi inteiramente escrita por Valete, assim como a de ‘Ilha de Honshu’. Embora tenha sido escrita no verão, a canção aborda um dos temas mais falados neste outono, no campo da política portuguesa. Em letras gordas, o rapper escreve “não vamos fingir que são todos humanistas / e que o André é o único fascista no parlamento”. O rapper mostra um olho atento à direita portuguesa. Nas últimas semanas, Rui Rio, líder do PSD, disse que não descartava a hipótese de se juntar com o Chega!. O preocupante crescimento da extrema-direita em Portugal não é tema da revista deste mês, tal como salienta Valete.

Ainda na mesma canção, o músico canta “Não vamos fingir que agora é só progressistas/ Interessados em salvar os negros do linchamento”. Embora se tenham realizado manifestações contra o racismo em Portugal, à luz do que se estava a passar nos Estados Unidos, o rapper parece questionar as verdadeiras intenções de alguns manifestantes. De facto, os momentos de vida ou morte para uns não passaram de hashtags ou de stories no Instagram para outros. Do mesmo modo, parece questionar a posição dos portugueses face ao “racismo estrutural”. Enquanto o Presidente da República advogou “tolerância zero” ao racismo, o líder do PCP Jerónimo de Sousa, em entrevista à TSF, disse que a “maioria do povo português não é racista, estruturalmente na sua esmagadora maioria não é racista” e que “transformar isto na grande questão nacional” seria um erro.

Alguns versos antes, o músico pergunta “quantos George Floyds já tivemos em Portugal?“. No videoclip, seguem-se nomes de pessoas negras que foram assassinadas. A brutalidade policial não é ignorada no verso “PSP é como a Jihad no Cairo/ Têm mais cadastro que qualquer bairro“. No início de 2020, antes do assassinato de George Floyd, Cláudia Simões foi espancada pela polícia, porque a filha, Vitória, se tinha esquecido do passe. Em finais de setembro, três inspetores do SEF foram acusados do homícidio qualificado de um imigrante ucraniano, Ihor Homenyuk, no aeroporto de Lisboa. O que choca o ouvinte é a relevância das letras. Estes acontecimentos tiveram lugar antes, durante e após a gravação das músicas. É importante perceber que este são acontecimentos constantes no nosso país, não são casos soltos ou pontuais. No refrão, Sérgio Mota diz “nosso povo ainda está na cruz“. Não há outros sentimentos que não dor e revolta a ouvir estas palavras.

Valete volta-se para personalidades negras portuguesas, como Joacine Katar Moreira, em vez de Beyoncé. A isto, o músico junta os versos “alguns pretos dizem que não gostam de pretas/ Acham que é uma questão de preferência/ Mente cheia de grilhetas/ Neo-escravos, claro, só servem para a subserviência“.

Contudo, o rapper faz alusão aos protestos nos Estados Unidos e em Inglaterra, onde se retiraram estátuas de esclavagistas. Em Portugal, também foram vandalizadas estátuas de figuras históricas ligadas ao colonialismo. No entanto, o músico pergunta: “consegues dizer quantas estátuas ficarão intactas?“. Na música, o rapper denuncia Dom José e Dona Maria I, dizendo que foram piores que Estaline. No vídeo, menciona desde Dom Afonso V a Dom Sebastião I. Há ainda uma referência à cor de Marquês de Pombal, “sou preto como Marquês de Pombal“. Aqui temos a mestria de Valete: interliga a estátua negra do marquês, em Lisboa, com o facto de ter conseguido proibição da escravatura em Portugal continental, com alguns documentos históricos que afirmam que o Marquês de Pombal era mestiço.

O vídeo, produzido pela 93 Studios, é tão impactante como a letra em si. Uma rapsódia que junta imagens de tribos africanas, com imagens do Movimento dos Direitos Civis, crianças africanas, refugiados perdidos no mar, discursos de Angela Davis, com manifestações lideradas por Joacine Katar Moreira.

A cultura negra e o amor pelo hip-hop português

Em ‘Olimpo’, Valete junta-se a Virgul, Nach, Phoenix RDC e Dino D’ Santiago, sendo que a letra foi escrita pelos três primeiros. A capa do single aparenta ser simples, mas tem um simbolismo bastante importante. Uma mulher negra penteia o cabelo à outra, salientando a importância do cabelo na comunidade negra.

No início do ano, enquanto Bong Joon-ho fez história nos Oscars, Matthew A. Cherry e Karen Rupert Toliver receberam o Oscar para Melhor Curta-Metragem de Animação, com Hair Love. A curta conta a história de um homem negro que ficou responsável por pentear a filha. Cherry diz ter escrito a curta para contrariar os estereótipos do pai negro, que é visto na cultura mainstream como alguém desinteressado pela família, e para chamar à atenção a importância do cabelo na comunidade negra.

Em 2012, o New York Times publicou um artigo sobre uma criança negra a tocar no cabelo de Barack Obama. O rapaz queria saber se o seu cabelo era mesmo igual ao do presidente, ou se era só uma ilusão. Acabou por ficar fascinado quando descobriu que, de facto, eram iguais.

Ainda em ‘Olimpo’,  Valete reflete sobre o seu legado no hip-hop português, em versos como “mais de uma década vê uma beca da décalage“. Ambos os vinis dos dois álbuns de Valete encontram-se no Top 10 dos mais vendidos em Portugal, enquanto os quatro concertos que tem agendados para o final deste ano, três em Lisboa e um no Porto, estão esgotados.

Valete tem um amor claro pela língua portuguesa e pelo hip-hop nacional. Faz referência à “visão dos Da Weasel“. O grupo destacou-se por compor os próprios instrumentais, ao invés de usar troços de outras músicas, um método popular no hip-hop. Valete acaba o seu verso em ‘Olimpo’ com “para essеs reis do Hip-Hop que é Pop eu dou-lhes o Apocalipse“. Este comentário liga-se aos seus versos em ‘Ilha de Honshu’, com “p‘a ti é só umas barras QB/ Não há duvida que és pior de todos em PT/ Ainda ontem tava a ouvir o teu CD/ E parti-me todo com esse teu rap de BD/ Não sei como é que ainda vais à TV/ Foi granda paródia a tua entrevista no CC/ Rappers querem cantar como o TT/ Boy, não conseguem convеncer ninguém como o PP“. 

O amor à língua portuguesa vem nos versos “nem falo outra língua, têm-me lido mal, diagonal/ E agora queixam-se que eu tenho rimado em itálico“. Emprega a expressão “ler na diagonal”, que significa ler um texto apressadamente. Isto pode ser lido como uma referência à controvérsia causada há um ano atrás, por causa da música ‘B.F.F.’, e à carta aberta com o mote “A violência contra as mulheres não é arte nem cultura“. Para a agência Lusa, o rapper disse que “é patético e eu acho ofensivo para todos os cidadãos o Estado estar a financiar associações que gastam energia com estes temas patéticos. Acho muito ofensivo, é o dinheiro dos nossos impostos e estas associações gastam essa energia toda com este tipo de coisas, quando obviamente há coisas muito mais importantes”.

Talvez esta inquietação de Valete advenha de alguma falta de consciência face a trabalhos anteriores como ‘Não te Adaptes’, onde o músico escreve “esta é a minha carta para ti mana porque eu sinto a tua dor/ Mesmo cercada pelo drama ainda emanas amor/ Nesta sociedade machista que te chama burra inferior/ Como se o machismo fosse algo inteligente e superior“.

O privilégio branco, a “mão invisível” e o Covid-19 em “Indístria dos Sonhos” e “Viaja

No vídeo de ‘Indústria dos Sonhos’, Valete retrata um casal branco a namorar ao som de uma letra emocionalmente forte, “a verdade que a existência ratifica/ P’a dar realismo ao vosso optimismo“.

O vídeo pode ser lido como uma reflexão sobre o privilégio branco e pode ser ligado às marchas do movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos. O India Today publicou um artigo sobre um vídeo partilhado no Twitter, no qual uma criança negra marchava nas ruas enquanto gritava “no justice, no peace” (“sem justiça, não há paz“). Embora o vídeo tenha sido visto nas redes sociais como um sinal de força, alguns utilizadores apontaram para a triste realidade em que vivemos, em que uma criança não pode brincar com brinquedos, mas tem que vir para a rua protestar contra um sistema policial estruturalmente racista.

Valete canta também sobre a famosa “mão invisível” do mercado, “Aqueles que dizem que toda a gente pode ser rica/ Ingénuos, não sabem nada de capitalismo“, que tem marcado os discursos de João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal. O rapper apresenta as pesadas consequências do mundo capitalista no psicológico de cada um. Em 2019, a Forbes publicou um artigo sobre como a “hustle culture“, a cultura de que temos de estar sempre a dar o nosso máximo para ultrapassar tudo e todos. No artigo, Samatha Radocchia partilhou o desgaste mental que este mindset lhe causou.

rapper conta um história mais dramática: o suicídio do amigo Eduardo. Antes de morrer, Eduardo pergunta-lhe “o que é que é mais corajoso?/ O suicídio ou a sobrevivência?“. Contudo, Valete pode-se estar a referir a algo mais específico do que ao mundo capitalista no seu todo. Na verdade, pode estar a referir-se à indústria da música.

O CEO do Spotify, Daniel Ek, ao afirmar que os músicos tinham de trabalhar continuamente para fazerem dinheiro, desculpando-se assim do pouco que a empresa paga em royalties aos artistas por cada reprodução. “Não podes fazer música de três em três anos ou de quatro em quatro anos e esperar que isso seja suficiente“. Contudo, nem sempre a culpa é das plataformas de streaming. Recentemente, Kanye West gerou polémica no Twitter contra a editora Universal, quando esta não lhe cedeu os direitos das suas composições.

Valete pode também estar a falar sobre isto, mas de um modo mais consciente (aliás, em ‘Rua do Poço dos Negros’, o rapper deixa clara a sua desassociação com West). Esta ‘Indústria de Sonhos’ pode ser nada mais nada menos que a indústria musical em si. Valete fala das “ilusões” de jovens artistas em “na aldеia todos querem a cidade/ Vêm cheios de ilusões, incentivos, objectivos/ Da aldeia para a cidade à procura de felicidade“. Depois, apresenta o choque da realidade, “não sabem que a cidade é o cemitério dos vivos“.

Mesmo assim, o rapper não esconde as suas fantasias do passado. Em ‘Viaja’, o rapper partilha os tempos em que estava no “quarto a sonhar com o Tivoli/ Tivoli e Rivoli“.

Nesta mesma faixa, o rapper Phoenix RDC aborda as pesadas consequências da pandemia Covid-19. “Cada vez mais o povo dorme com fome“, um verso escrito nos meses de junho e julho, mas que parece ser sobre movimentos como Sobreviver a Pão e Água ou Ao Vivo ou Morto. O rapper menciona ainda o suicídio, tal como Valete na faixa anterior, “para muitos suicídio é a solução, no comments” (“sem comentários“). O verso parece ser um ataque à comunicação social, que trata as doenças mentais como uma moda. Tendo em conta a data de escrita das letras, é provável que se esteja a referir ao ator Pedro Lima, assim como ao circo que os media montaram.

E agora, Valete?

Com certeza que este manifesto partido em cinco não será a última coisa que ouviremos de Valete. Com isto, o rapper cimentou o seu estatuto como um dos maiores MC‘s de Portugal. Com quatro concertos agendados até ao final do ano, o músico continuará a dar que falar.

Valete é um colosso do hip-hop, que não está a pensar em descalçar as luvas. Como disse em ‘Rua do Poço dos Negros’, “justiça, nem que seja no ringue/ Deixa os sonhos para o Luther King“. Não vai mudar de língua, nem de estilo. A “velha escola” continuará presente, mas sempre a encontrar novas formas de se tornar atual.

Estas cinco canções já são clássicos, assim como ‘Colete Amarelo’ se tornou um ponto de referência logo após o seu lançamento em 2019. Qualquer que seja o problema, Valete cairá em cima, como um meteorito. Nós ficamos na planície, enquanto vemos a explosão.

Na sua escolha de palavras negra, “rap frontal“, existe alguma esperança. Caímos, carregamos cruzes, mas existe uma força, um sentimento de resistência que é muito difícil de algum dia ser apagado. Continuamos a cantar a história de Valete e Vanessa como se o disco tivesse sido lançado ontem. Agora é altura de se fazerem ouvir as suas novas palavras. Talvez o seu comentário mais importante seja “Votar nunca foi tão importante“. 2020 está fechado, está na altura de levar estas lições para o futuro. E no futuro, Valete vai estar connosco.

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