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Crítica. ‘Sol Posto’: arte e bucolismo ao som de Capitão Fausto

Durante uma semana, Melides transformou-se no palco do mais recente filme concerto dos Capitão Fausto. O resultado chega esta sexta-feira (20) às salas de cinema, sob a forma de um encontro intimista ao pôr do sol.

Em tempos pandémicos, o meio artístico português depara-se com obstáculos familiares. Se a falta de financiamento sempre foi uma constante, emerge agora o dilema de manter a cultura viva à distância. As questões suplantam as respostas. Como chegar ao público quando o isolamento se torna palavra de ordem? Como cativar o indivíduo sem a euforia de uma sala de espetáculos esgotada? Para os Capitão Fausto, a resposta está na sétima arte, convertida num encontro ao pôr do sol.

70 salas de cinema enchem-se esta sexta-feira (20) para o lançamento de Sol Posto, uma digressão a ocorrer em simultâneo por todo o país. Assinado pelo realizador Ricardo Oliveira, o projeto troca as voltas à perceção comum de filme-concerto. A mera tentativa de recriar atuações ao vivo fica para trás. Ao invés, o espetador recebe um formato híbrido, onde a arte e o bucolismo se tocam.

Resquícios de verão ainda pairavam no ar em setembro de 2020. Tomás Wallenstein, Francisco Ferreira, Domingos Coimbra, Manuel Palha e Salvador Seabra passaram uma semana em Melides e saíram com um retrato tecnicolor da costa alentejana. Eis a premissa para o dia se transformar em noite, para Gazela (2011) dar lugar à A Invenção do Dia Claro (2019). Ao longo de três atos, a passagem do tempo ganha protagonismo, mas nem por isso se faz notar.

Sol Posto oferece uma janela para a intimidade. Amigos juntam-se e melodias conhecidas passam a inéditos. A magia do processo criativo enche os ouvidos, as paisagens prendem a visão. Viajamos à boleia do cinema, não olhando a barreiras físicas. Afinal, “p’ra viajar basta existir”, já diziam os Capitão Fausto em Tui.

Um retiro artístico parado no tempo

Algures nas florestas de Melides reina a calma do fim de tarde. Nada parece destoar entre as melodias da natureza em isolamento. Contudo, o pôr do sol recusa-se a assinalar o término de mais um dia. Assinala, antes, um começo. Notas musicais fundem-se na brisa das árvores, indiferentes à rotina. Perde-se a noção do tempo, não fosse a progressão das tonalidades pintadas no céu.

Capitão Fausto Sol Posto
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Emolduradas por laranjas e lilases, cinco silhuetas emergem de instrumentos em riste. Quem avistar tal cenário estranhará o atípico concerto, disposto a tratar o terraço por palco e o vazio por público. Os mirones só chegarão mais tarde, quando o presente puder ser contado em analepse. Até lá, a história escreve-se em segredo, apenas interrompida a altas horas da madrugada. Ainda ninguém o sabe, mas o serão promete.

Do crepúsculo ao alvorecer, as fronteiras esbatem-se. As restrições do espetáculo ao vivo são substituídas por puro dinamismo. Saltamos de espaço em espaço, sem conhecer limites. Uns próximos, outros fora de alcance. Uns na claridade, outros na escuridão. Os planos primam pela coexistência de opostos, navegando entre a estética impessoal do teledisco e a excessiva proximidade do ensaio.

Formações rochosas apelam à seriedade, olhares intensos e guarda-roupa colorido. Oportunidades para capas de álbum não faltam, enquanto os artistas nos fitam do seu pedestal. O estado de graça, todavia, acaba desconstruído. A desenvoltura diante das câmaras e a partilha de momentos de lazer estabelecem a ponte com o espetador, também incluído neste retiro artístico à beira mar. Aliás, a necessidade de criar uma visão 360º continua fora do ecrã. No canal de Youtube dos Capitão Fausto, os bastidores das gravações adquirem maior detalhe, desta vez na lente de Gonçalo Perestrelo. No fim de contas, nada fica por desvendar.

Abraçar o desconhecido

Embora Sol Posto apresente vários pontos fortes, a esfera artística prevalece. O processo de edição reflete o fascínio pelo jogo de perspetivas e cor. Paisagens e sombras adquirem tons garridos, numa inesperada torrente psicadélica. Quadros reais figuram ao lado de trabalhos do pintor William Turner, mestre em retratar o impacto da ação humana nas forças da natureza. A beleza deixa-nos boquiabertos, em antecipação por mais fogo de vista.

Sol Posto Capitão Fausto
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A arrojada captação de imagem surpreende, logo que o olhar começa a habituar-se. Até o por trás das câmaras se chega à frente, através de aparições por parte da equipa técnica. Durante pouco mais de uma hora, explora-se o interior de um postal que faz do imprevisto o seu maior trunfo. A película recebe, assim, o desconhecido de braços abertos.

Capitão Fausto (não) têm os dias contados

Porém, Sol Posto não é estilo sem substância. O estrelato pertence à sonoridade, responsável por cunhar o nome da banda. Apesar de 2020 ter fomentado a inércia, o repertório dos Capitão Fausto recusou-se a apanhar pó. Houve tempo para reinventar, esquecer a incerteza e trabalhar o familiar. Melodias há muito colocadas na gaveta juntam-se a grandes êxitos na composição de uma ode a mais de dez anos de carreira. A bateria, o baixo, as guitarras, as teclas, o microfone e até a ocasional flauta projetam a novidade, imortalizada pelo material de filmagem.

Sol Posto Capitão Fausto
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A pouco e pouco, os acordes estimulam o fluxo de memórias. A música fala para nós como se fosse a primeira vez, à medida que narrativas pessoais se entregam ao coletivo. Sentimos a letargia das promessas que ficam por cumprir, em ‘Nunca Faço Nem Metade’. ‘Mil e Quinze’ passa a ‘Mil e vinte’ para lembrar os desfechos, infelizmente, fora do nosso controlo. Os altos e baixos amorosos brilham na presença habitual de ‘Amor, a nossa vida’. Mesmo sem discursos de maior, a orgânica jam session, cortesia de Gazela, desperta o desejo por tempos idos, particulares à experiência de cada um. Os temas ascendem a estados de espírito, falando pelos cenários, projetando-se nos ouvintes. O cinematográfico é levado ao extremo.

A manhã explode sobre o compasso energético de ‘Lameira, antes de nos rendermos ao peso da insónia. O mar enrola no areal de Melides, com o rumor das ondas em prolongamento até ao subir dos créditos. Aqui fica o resultado “do descanso, da reclusão, dos sonhos e dos planos, da escuridão, da espera e do desconhecido” – um forte sentido de identidade. A imagem de marca não alimenta definições estaques. Entre o autoconhecimento e a renovação, Sol Posto emana longevidade. De facto, os Capitão Fausto nunca estiveram mais longe de ter os dias contados.

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E depois do impasse?

A virtude do filme-concerto está, sem dúvida, no meio termo. O formato pede a essência da performance ao vivo, dispensando imitações baratas. No final da estreia, o êxtase e o impulso de explorar a discografia devem permanecer. No entanto, algo tem de diferenciar a experiência. Caso contrário, como certamente contestarão os mais céticos, qual o propósito de assistir a um espetáculo onde tudo parece demasiado longínquo?

Não encontramos um filme, nem um concerto. À semelhança do próprio projeto, consideramos o impasse. A demora no pormenor denuncia o cinema, a vontade de cantar e aplaudir remete na direção contrária. No fundo, o poder do grande ecrã é mesmo esse — desafiar condições de possibilidade, em prol de vivências singulares.

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Ao pôr do sol, redescobrimos Capitão Fausto, numa roda-viva de cor, arte e, sobretudo, muita música. A longa-metragem dirige-se aos fãs, mas consegue exceder esta demográfica. Os que tropeçarem em Sol Posto às cegas hão de contemplar, de igual modo, a admirável produtividade de um ano em ponto morto. Numa época em que questionar o futuro constitui tabu, o terreno fértil para trabalhos vindouros salta à vista. Aguarda-se o próximo capítulo, quiçá motivado por circunstâncias mais felizes.

Crítica. ‘Sol Posto’: arte e bucolismo ao som de Capitão Fausto
8.5
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