Schitt's Creek
Fotografia: NOS Audiovisuais / Divulgação

Crítica. ‘Schitt’s Creek’ dá uma nova vida à comédia de contrastes

A série estreia na TVCine Emotion, esta quinta-feira (19), às 22h10.

Schitt’s Creek tornou-se um fenómeno inesperado. A série de comédia que arrebatou nove Emmys, incluindo o de Melhor Série de Comédia, chega finalmente a Portugal esta quinta-feira (19), através do canal TVCine Emotionem episódio duplo de estreia. O Espalha-Factos viu os dois primeiros episódios da nova (mas não assim tão recente) sensação cómica.

Uma das coisas que mais nos faz rir na comédia, seja ela literária ou televisiva, é vermos um conjunto de personagens deslocadas do seu habitat natural. Não precisamos de ir muito atrás no tempo para vermos que esta é uma estratégia (bem) usada em várias séries dos últimos anos. Por exemplo, em The Good Place, série criada por Michael Schur, grande parte das gargalhadas dos primeiros episódios são provocadas por vermos Eleanor a ser obrigada a tornar-se numa boa pessoa (seja lá o que isso for), num ambiente a que não está habituada.

Em Superstore, para além do ambiente de trabalho num supermercado já de si peculiar, achamos piada ver uma pessoa como Jonah a cair de paraquedas naquele meio, depois de ter desistido do curso de gestão e ter ficado endividado. As diferenças entre estas personagens, normalmente mais abastadas, e o círculo que terão de integrar provocam contrastes sociais e situações engraçadas, muito por culpa dos cenários criados e reações de quem não se sente integrado.

É também esta a base do enredo de Schitt’s Creek. Mais do que ver a série, que estreia agora na televisão portuguesa, a maior curiosidade está em tentar perceber se a validação, provocada pela vitória de tantos galardões, é justificada, isto quando a criação de Dan e Eugene Levy – filho e pai, respetivamente – concorria, na categoria de comédia, contra a última temporada da referida The Good Place, um dos melhores produtos do género da última década.

Ver os primeiros capítulos da série, que já terminou e tem seis temporadas, é insuficiente para perceber se Schitt’s Creek é assim tão boa quanto dizem. Mas há aqui bons indicativos, que a levam a poder almejar, no coração dos fãs, um lugar ao lado de séries como New Girl ou Community. Normalmente, as séries de comédia possuem alguma dificuldade em acertar o tom da narrativa na primeira temporada; veja-se os casos de Park and Recreation ou a versão americana de The Office, por exemplo.

Schitt’s Creek terá também um grande espaço para melhorias ao longo dos anos, que certamente terão sido feitas, não fossem as inúmeras vitórias que brindaram a última temporada. É interessante e reconfortante ver a facilidade com que o primeiro episódio conseguiu montar as peças de xadrez e arrancar, desde logo, algumas gargalhadas. O argumento vai muito ao encontro da reflexão que abriu a crítica, sendo que nos dá a conhecer a família Rose, composta pelo magnata Johnny Rose (Eugene Levy) a mulher Moira Rose (Catherine O’Hara), e os filhos adultos, David Rose (Dan Levy) e Alexis Rose (Annie Murphy), que cai subitamente na falência e é obrigada a despedir-se da penthouse de sonho em que vivem para passarem a viver em Schitt’s Creek, um bairro comprado há alguns anos por Johnny.

Se Johnny e Moira são os elementos do quarteto que tentam colocar as coisas em ordem, os filhos, habituados a um certo tipo de educação em que tudo lhes é dado sem qualquer tipo de esforço, olhando apenas a bens de luxo, entram logo em parafuso com esta mudança drástica do estilo de vida. Não é que os pais sejam muito funcionais – Moira, na verdade, apregoa várias vezes, a sete ventos, que é melhor morrer do que ter de abdicar das riquezas e viver no meio da “pobreza”. O pai, por exemplo, confessa ter comprado Schitt’s Creek, há muitos anos, apenas pela piada de ser proprietário de um bairro, numa espécie de brincadeira milionária para o filho.

Schitt's Creek
Fotografia: NOS Audiovisuais / Divulgação

Schitt’s Creek contrasta, em grande parte, com aquilo a que os Rose estavam habituados. Apesar de serem donos do bairro, a família vai ter de viver num motel, em que os pais ficam num quarto e os filhos noutro. Não há qualquer tipo de comparação entre a antiga penthouse e o motel e é engraçado ver cada um dos Rose a tentar enquadrar-se em algo que nunca experienciaram. Desde a falta de toalhas limpas à inexistência de um serviço de pequeno-almoço, até à queda de uma substância liquida castanha do teto de um quartos, tudo é motivo para deixar o quarteto em polvorosa.

O bairro tem um mayor, Roland Schitt (Chris Elliott), que cedo se apresenta ao clã de forma inusitada. Roland é um homem simpático, simples e relativamente descuidado, visto pelos Rose como um empecilho. Um dos pontos altos surge no segundo episódio quando, querendo vender o bairro, Johnny, Moira e David vão jantar a casa de Roland e da mulher, para que o mayor dê a autorização para dar inicio ao processo. Habituados a uma certa etiqueta, muitas vezes de fachada, é hilariante ver as expressões que Eugene Levy faz enquanto Johnny, ao reagir ao facto de Roland estar a mastigar a comida de forma audível.

Os arcos narrativos ficam bem estabelecidos: Johnny e Moira passam os primeiros dois episódios a tentar resolver a situação da família e a ter de lidar com Roland, enquanto os filhos vivem apenas numa eterna queixa existencial face a este novo modo de vida da família. Alexis queria fugir do motel à boleia de um namorado que nunca aparece, mas este acaba o namoro antes que a jovem pudesse escapar. David parece não ter amigos verdadeiros, tendo, segundo Alexis, que pagar a modelos para que fingissem uma amizade com ele. Esta troca de galhardetes e ofensas é recorrente entre os irmãos, que passam mais tempo a olhar para o telemóvel do que um para o outro e para aquilo que os rodeia.

Schitt's Creek
Fotografia: NOS Audiovisuais / Divulgação

A personagem de maior destaque que falta apresentar é Stevie Budd (Emily Hampshire), a rececionista do motel, portadora de um sarcasmo digno de nota, deixando pistas de que sofrerá um desenvolvimento narrativo. É ela, aliás, a responsável por convidar Alexis a uma festa, depois de o namorado a ter abandonado e onde acaba por beijar um rapaz. É esta festa que começa a fazer com que David e Alexis comecem a misturar-se com a comunidade local do bairro, que certamente trará consigo mais situações estranhas e caricatas.

Apesar do contraste, adivinha-se uma crescente aproximação e afeto por parte dos Rose a este bairro que os está a acomodar, mesmo apesar das diferenças sociais visíveis, sendo que será uma jornada interessante de se acompanhar ao longo do desenrolar do enredo. Como referido, há ainda muitas pontas por atar e serem ainda desatadas ao longo de seis temporadas, mas Schitt’s Creek deixa uma boa impressão à primeira vista.

Um dado adquirido é a qualidade do elenco, muito por culpa da química visível de Eugene Levy e Catherine O’Hara, dupla que tem vindo a trabalhar em conjunto em cinema, no género da comédia, desde a década de 70. Logo, Schitt’s Creek é um veículo natural para um reencontro dos dois, que vem solidificar os pontos positivos da série. Outro fator a ter em conta é a familiaridade da maior parte do elenco pois, para além do facto de Eugene e Dan serem pai e filho na vida real, tal como na ficção, Sarah Levy, a irmã mais nova de Dan, interpreta Twyla Sands, uma personagem recorrente da série, que aparece apenas durante alguns segundos no segundo episódio.

O quarteto de atores vende bem a sua parte, mostrando reações de horror e desespero quando confrontados com a presença de Roland, que os presenteia com uma estadia longa e inconveniente no motel, até que Johnny é obrigado a gritar com o mayor e este, chateado com a reação, retira as portas dos quartos dos Rose. Chris Elliott é também um veterano nestas andanças, sendo um valor seguro a encarnar a pele de Roland.

Se Schitt’s Creek não justifica, à partida, os nove Emmys ganhos este ano, é muito por culpa da série só estar a chegar a Portugal depois do fim; só agora estamos a ter agora o direito de começar a acompanhar o dia-a-dia dos Rose, uma família totalmente disfuncional. A série é contagiante, com humor cru mas também inteligente, e deixa água na boca para os próximos capítulos. Uma estreia a não perder, esta quinta-feira (19), às 22h10, no TVCine Emotion.

Schitt's Creek
7.6

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Veneno
‘Veneno’. Série da HBO narra a história da maior estrela LGBTQ+ espanhola