Miguel Sousa Tavares
Fotografia: TVI/Divulgação

Opinião. Miguel Sousa Tavares e o jornalismo que deixa morrer a democracia

Esta segunda-feira (16), a TVI iniciou um ciclo de entrevistas, a cargo de Miguel Sousa Tavares, aos candidatos das Presidenciais 2021. O primeiro participante deste bloco foi André Ventura, deputado e presidente do partido Chega! (CH).

Como o Espalha-Factos noticiou, a entrevista fez com que a TVI tivesse uma subida nos dados de audiência, o que não é propriamente surpreendente. É importante que as pessoas sintonizem para ouvir os vários candidatos e que tenham interesse pelo processo eleitoral. E é exatamente essa importância que obriga o jornalista a colocar as questões mais pertinentes e esclarecer o eleitor sobre as ideias de cada candidato, como também, e mais fundamentalmente, as implicações dessas mesmas ideias.

A pergunta “Tem um amigo preto?” não é, de todo, pertinente. Não obstante, este artigo não vai cometer o erro de Miguel Sousa Tavares, que se focou no soundbite racial, em vez de atentar à substância. Também passaremos por ele, mas os seguintes parágrafos serão dedicados sobretudo à componente jornalística da entrevista: as questões que ficaram por colocar, a contextualização que não foi dada e também os tais soundbites. No fundo, tudo o que fez com que esta entrevista tenha falhado.

Antes de mais, comecemos por colocar de parte qualquer noção de tratamento preferencial ou tendencioso por parte de Miguel Sousa Tavares. Por um lado, por crença e por outro por não haver nada que o comprove. Aliás, basta ir a espaços de comentário simpatizantes a André Ventura para perceber que há um certo grupo de pessoas com uma perceção bastante distinta.

A entrevista começou por abordar a presença do líder do Chega! na manifestação do setor da restauração e da hotelaria. Depois de ser bem confrontado por aparecer numa manifestação que tinha recusado presenças políticas, André Ventura afirma: “Não aceitei tirar nem fotografias nem partilhar nada com orgãos de comunicação social”. Os problemas jornalísticos começam logo aqui. Basta perder um minuto na conta de Twitter do entrevistado para verificar que André Ventura tirou uma fotografia e partilhou a sua presença no evento. Este claro ato de politização da manifestação devia ter sido posto em causa por Miguel Sousa Tavares.

Como é evidente, o fact-checking é absolutamente essencial nesta atualidade digital, propícia a propagação de mentiras e inverdades. Se há certas declarações que exigem uma pesquisa extensiva, esta não era uma delas. Até porque o fact-checking não se faz só depois da entrevista, mas também durante a preparação da mesma.

Outro momento incompreensível é ver André Ventura gabar-se de sair à rua e trazer “milhares” a meio de uma pandemia, depois de ter criticado outros partidos, dizendo que fizeram o mesmo sem cumprir distanciamento social e não ser minimamente questionado sobre isso. Exigia-se que Miguel Sousa Tavares fizesse duas intervenções simples: É sensato instigar manifestações durante uma pandemia?; Porque é que criticou aqueles que o fizeram e passado uns dias caiu na própria crítica?

Já que estamos no tópico da Covid-19, o mais influente de todos, não houve uma única questão sobre qual seria o papel de André Ventura enquanto Presidente da República em funções durante uma pandemia. Assim como também não houve nenhum confronto relativo ao incumprimento das medidas de segurança do CH, como o uso de máscara e o distanciamento social.

Aliás, a entrevista pouco ou nada teve a ver com a presidência da República. Marcelo Rebelo de Sousa foi apenas mencionado uma vez de passagem e nem sequer foi criticado pelo seu oponente. O entrevistador teve mais interesse nas alcunhas atribuídas às candidatas de esquerda Ana Gomes e Marisa Matias. Uma falha política de André Ventura e uma falha jornalística de Miguel Sousa Tavares.

Chegamos ao tópico do racismo. A já infame pergunta do “amigo preto” teletransporta momentaneamente o espetador para um sketch dos Monty Python. Depois do caso Marega, do caso Cláudia Simões e de mandar uma deputada “para a sua terra”, este foi o grau de confronto que André Ventura teve por parte de Miguel Sousa Tavares. Ou seja, nenhum.

Inevitavelmente, a entrevista falou da comunidade cigana. André Ventura manteve o discurso racista e falacioso sobre este grupo de pessoas. Para o candidato do CH, os ciganos são um problema gravoso por serem altamente subsídiodependentes e criminosos. Miguel Sousa Tavares não contradisse André Ventura com o facto de a comunidade cigana representar apenas 3,7% dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção e de representar cerca de 5% do total dos reclusos do país, nem houve nenhuma tentativa de questionar sobre como se podia combater a exclusão social deste grupo de pessoas.

A redução de deputados e do rendimento dos mesmos foi quando Miguel Sousa Tavares mais apertou André Ventura. No entanto, faltaram dados para sustentar as perguntas. E não se percebe como o deputado do CH pode assumir-se impunemente como um Jesus Cristo português ao dizer que quer “sofrer como o povo está a sofrer”. Certamente que os cargos de Professor de Direito e consultor jurídico, os livros de ficção sofrível e os de literatura jurídica ou clubística devem impedi-lo de “sofrer” como um trabalhador português. Nada disto foi referido durante a entrevista.

A parte mais pro-sistema de um André Ventura supostamente anti-sistema é a política fiscal. O Chega! defende uma taxa única de 15% de IRS e o que ficou evidente é que não sabe ou não pretende que se saiba como o imposto funciona. Num momento surreal, Miguel Sousa Tavares não contradiz o entrevistado, que estabelece uma relação entre a carga de trabalho e a quantia de impostos a ser paga. Ora, o IRS incide sobre o rendimento e não sobre as horas de trabalho realizadas.

André Ventura sabe que uma taxa única de 15% beneficia quem tem mais rendimento e prejudica quem tem menos, e também sabe que isso é uma ideia que não dá para vender ao eleitorado. Miguel Sousa Tavares permitiu-o inventar uma falsa equivalência que divide os portugueses entre “quem não faz nada” e “quem trabalha”. E já que Miguel Sousa Tavares não soube dizer, fica aqui o esclarecimento: a criação de uma taxa única de 15% no IRS iria custar 3,5 mil milhões de euros em receita ao Estado. Se o leitor quiser ver a melhor entrevista feita a André Ventura sobre matéria económica, recomendo o segmento Sob Escuta da Rádio Observador.

Na fase final da entrevista falou-se da Justiça e da criminalidade. Para além de reiterar a proposta abjeta e ineficaz da castração química e a defesa da prisão perpétua, André Ventura não teve de defender a sua posição. Mesmo passado menos de seis meses desde a saída de um relatório que demonstra que Portugal é um dos países mais seguros do mundo.

O que fica claro nesta entrevista é que a maioria da argumentação política de André Ventura é baseada em mentiras, falácias, contradições e divisões inexistentes entre cidadãos. Trata-se de um candidato incomum e atípico em Democracia, que representa uma ameaça real aos valores Humanistas e às liberdades individuais e coletivas conquistados no 25 de abril.

A imprensa não pode ignorar uma ameaça, assim como não pode ignorar um deputado e candidato a Presidente da República. Tem de confrontar a mentira com a verdade, a ficção com os factos e o negacionismo com a realidade. É preciso que os jornalistas não sejam comodistas, que façam uma pesquisa extensa e um escrutínio pormenorizado. A imprensa ainda é e terá de ser sempre o Quarto Poder da Democracia. Aquele que coloca em cheque todos os outros, assim como combate aqueles que visam prejudicá-los. Na TVI, Miguel Sousa Tavares não cumpriu esse papel.

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