Dia Internacional dos Estudantes: como olham os jovens para o futuro depois da pandemia?

O Dia Internacional dos Estudantes assinala-se esta terça-feira (17) e o Espalha-Factos foi perceber como é que a pandemia afetou a vida dos jovens e quais as suas perspetivas de futuro. Numa altura em que o desemprego afeta maioritariamente pessoas jovens, tentámos perceber que sonhos foram adiados pela pandemia, ou se alguns ainda se podem concretizar.

Sair de casa dos pais. Entrar na faculdade. Investir na carreira. Arranjar um emprego. Pagar todas as contas. Morar fora do país. Estes são alguns dos sonhos que muitos jovens viram adiados em 2020, por causa da pandemia de Covid-19.

Muita coisa mudou na vida da Geração Z num ano cheio de incertezas. Enquanto uns se preparavam para iniciar a vida universitária, outros terminavam a faculdade e ansiavam a entrada no mercado de trabalho. As expectativas eram altas. Havia um mundo novo por descobrir, mas a pandemia surgiu e a realidade inverteu-se. Alguns acabaram desempregados, outros sujeitaram-se a empregos sem grandes perspetivas de futuro.  A covid-19 ‘tramou’ a nova geração.

De acordo com Marta Quintela (22 anos), recém licenciada em Gestão, a pandemia isolou-a bastante, especialmente no final do curso.

“Estar na universidade e ter aulas presenciais é importante não só porque aprendemos melhor, mas também porque ao falar com os outros ajudamo-nos e inspiramo-nos mutuamente. Se eu tivesse acabado presencialmente a minha licenciatura, acho que as as minhas escolhas teriam sido diferentes ”, conta ao Espalha-Factos.

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Nem tudo foi adiado

Enquanto Marta Quintela planeava encontrar um estágio ou até um emprego na sua área, Diogo Fernandes (20 anos), aluno do último ano da licenciatura em Comunicação Social e Cultural, preparava-se para embarcar no programa Erasmus na Bélgica. Apesar do panorama atual, o Erasmus está a realizar-se e tem sido uma experiência surpreendente. Sinceramente não esperava que assim fosse, tendo em conta a pandemia e todas as limitações. Nos primeiros meses, ainda conheci várias pessoas, viajei pelo país, ou seja, tive uma experiência Erasmus o mais próximo possível do normal. Não trocaria estes meses por nada, por isso o balanço é muito positivo”, diz o jovem estudante.

Questionado sobre como a pandemia pode afetar a sua entrada no mercado de trabalho, Diogo Fernandes anseia que seja difícil, mais competitivo e desafiante. Obviamente que depende muito de termos, ou não, uma vacina na primeira metade do próximo ano, mas acho que vai ser sempre difícil. Começando por uma adaptação a uma nova realidade, com facilidades a nível de teletrabalho e uma insistência maior nessa forma de trabalhar, talvez. Mas tenho de confessar que estou sobretudo expectante e curioso para perceber como se vai processar esta mudança e como é que as empresas vão abordar os próximos anos”.

Um ano diferente para caloiros

João Santos (18 anos) entrou este ano na faculdade e é estudante de Marketing e Publicidade. Tem uma irmã quatro anos mais velha e, nos últimos anos, tem ouvido constantemente falar da vida universitária — atividades de integração, Erasmus, amigos novos. “Acompanhei o percurso universitário da minha irmã e, por isso, claro que ansiava bastante o meu ano de caloiro. Pensei que ia conhecer muitas pessoas, fazer trabalhos de grupo, ir a festas, coisas normais, mas não, a pandemia veio trocar-nos as voltas”, contesta.

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Assim como para a maioria dos jovens universitários, também as aulas de João Santos estão a ocorrer em regime semipresencial — “não tem sido fácil acompanhar a matéria via Zoom, sinto que tenho de fazer um esforço muito grande para me manter concentrado. É especialmente complicado porque ainda estou a tentar perceber como é que a faculdade funciona”. Relativamente à vida social, diz que é difícil estabelecer relações sólidas, porque “as pessoas têm medo de se mostrar, de se relacionar demasiado. Só conhecemos as caras uns dos outros por causa das aulas online”.

A importância da saúde mental

De acordo com Marta Quintela, as aulas via Zoom não são o método mais eficaz, embora defenda que, neste momento, são a única solução.

Lembro-me que nas aulas online tinha sempre dificuldade em concentrar-me e assimilar a matéria. Por um lado, tinha mais tempo para estudar, o que me permitiu melhorar bastante as notas. Por outro, este foi um semestre muito difícil psicologicamente. É importante vermos pessoas ”, desabafa.  

O contacto físico e a proximidade são um pilar fundamental no desenvolvimento social, cognitivo e estabilidade de todos. Os jovens viram-se obrigados a procurar formas motivadores de convívio social, com respeito pela distância física. Nunca antes se falou tanto em stress, ansiedade e saúde mental.

Para João Santos as sequelas deixadas pela pandemia são mais do que uma possível crise económica. “Acho que a pandemia foi ‘importante’, na medida em que passámos a valorizar muito mais a questão da saúde mental. Outro aspeto positivo da pandemia foi dar a conhecer a importância da cultura nas nossas vidas. Sem filmes, jogos, música e livros, os dias em casa teriam sido muito diferentes. Acho que ficou claro que a cultura desempenha um papel importantíssimo na saúde das pessoas”, declara.

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Apesar da crise emocional e financeira que se gera em torno da pandemia, Diogo Fernandes procura manter-se positivo: “a Covid-19 fechou portas mas abrirá com certeza muitas outras. Preocupa-me uma crise económica, preocupa-me a entrada no mercado de trabalho, mas acima de tudo é algo que sabíamos que podia acontecer desde o início do primeiro período de isolamento. Posto isto, o que temos a fazer é dar o nosso melhor e tentar reerguer a economia e o país”.

A minha irmã estava a trabalhar quando a pandemia começou e acabaram por dispensá-la. Neste momento e pela falta de oportunidades está a pensar emigrar”, afirma João Santos.

O vírus do desemprego entre os jovens

Embora vários jovens tenham conseguido estágios ou emprego na sua área de formação, outros continuam à procura. Se, por um lado, existiram empresas capazes de se adaptar e acompanhar as necessidades dos novos trabalhadores, por outro, muitas tiveram de dispensar estagiários e funcionários por não lhes conseguirem dar a atenção que necessitavam, especialmente em regime de teletrabalho, ou por não lhes conseguirem pagar. Para Marta Quintela é fundamental que as empresas encarem a situação atual como um desafio e trabalhem no sentido de se preparem para outras possíveis catástrofes.

Os desafios da pandemia não se traduzem apenas em bares e discotecas fechadas, horários limitados e aulas online. É o futuro de milhares de jovens que está em risco. E muito pouco é feito nesse sentido “, diz a recém-licenciada.

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De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), os trabalhadores jovens com salários abaixo dos 900 euros e com contratos a termo foram os mais afetados pela pandemia. Entre o terceiro trimestre de 2019 e o de 2020, houve uma destruição líquida de 147,9 mil postos de trabalho, refletindo o decréscimo do emprego com as seguintes características: a maioria eram homens (110,2 mil), entre os 15 e os 24 anos (74,2 mil), empregados no setor dos serviços (116,4 mil), em particular nas atividades de alojamento, restauração e similares (49,3 mil) e a trabalhar por conta de outrem com contrato com termo. É este o perfil do “novo desempregado”.

Além de uma preocupação extra com o emprego, a pandemia obrigou os jovens estudantes a pensar acerca da importância da saúde mental na vida das pessoas, tendo as instituições de Ensino Superior um papel preponderante na diminuição do estigma e na promoção da literacia sobre este tema. Para os jovens entrevistados, a educação pós-pandemia terá de ser repensada, para que as aulas sejam um espaço de discussão de ideias e permitam a intervenção social dos estudantes. Para além disto, as empresas e os estabelecimentos de ensino devem estar preparados tecnologicamente, no caso de uma situação semelhante tornar a acontecer. E, para isto, é fundamental que o Estado crie todas as medidas necessárias para apoiar a juventude e os estudantes.

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