Emma Corrin
Fotografia: Netflix / Divulgação

Crítica. ‘The Crown’: a paixão pela princesa num reinado de ferro

A nova temporada de The Crown chega este domingo (15) com muitas novidades e personalidades inesquecíveis. Margaret Thatcher e Princesa Diana tornam-se o centro das atenções, com uma Rainha Isabel II a ver o peso da coroa tornar-se insuportável. O Espalha-Factos já viu os novos episódios da série da Netflix e temos uma certeza: The Crown é uma das melhores séries da atualidade.

Após três temporadas a permanecer debaixo do olho do público, a rainha Isabel II, interpretada por Olivia Colman desde a última temporada, passa agora para um papel mais secundário, mas não por isso menos importante. A monarca britânica viu os anos 80 entrarem de relance na sua vida, destruindo os muros que a família real tinha construído ao longo dos tempos. Os ventos mudaram, a modernidade instalou-se e outras duas mulheres tornaram-se o centro das atenções: Diana Spencer e Margaret Thatcher.

Como se não bastasse, os anos 80 ficaram ainda marcados por um assassinato de um membro da família real, uma avalanche que quase matou o herdeiro ao trono, uma guerra e ainda duas invasões ao Palácio de Buckingham que colocaram a vida da monarca em perigo.

Diana, a Princesa do povo

Emma Corrin
Diana Spencer conheceu o príncipe Carlos em 1980. (Fotografia: Netflix / Divulgação)

Era um dos momentos mais esperados desde a primeira temporada e não deixou ninguém desiludido. A desconcertante relação do príncipe Carlos (Josh O’Coonor) com a princesa Diana foi um dos momentos mais mediáticos de todo o reinado de Isabel II, com uma jovem rapariga a conquistar não só toda a família, mas todo o povo britânico e além fronteiras. A delicadeza de Diana Spencer, na altura ainda jovem nos seus 16 anos, conquistou o coração de todos aqueles que tinham contacto com ela (ou dos que desejavam ter), tornando-a um dos maiores ícones do século XX. A Princesa do Povo, como ficou conhecida, era inocente, querida e lindíssima, deixando um poderoso charme por onde quer que passasse. Foi uma questão de tempo até cair nas graças de toda a corte real, sem saber que pouco tempo depois se sentiria uma verdadeira intrusa.

A relação entre o príncipe herdeiro e a jovem Diana começa timidamente, no que parece ser um verdadeiro conto-de-fadas destinado a acontecer. Porém, a chama mediática em que Diana se transforma rapidamente começa a deixar marcas no casamento, com a princesa a tornar-se mais acarinhada pelo povo do que qualquer outro membro da família real. Até nos dias em que Carlos era suposto roubar as atenções, Diana encontrava forma de ser mais falada do que o noivo e, mais tarde, marido.

Emma Corrin
A princesa Diana e o príncipe Carlos casaram-se a 21 de julho de 1981. (Fotografia: Netflix / Divulgação)

Presa numa família que desconhecia e incapaz de aprender toda a etiqueta e protocolos, Diana vê-se sozinha durante seis semanas no Palácio de Buckingham, totalmente abandonada e incapaz de contactar com quem tem de mais querido. Adorada por todos, a princesa começa a responder a cartas dos seus admiradores e quebra todos os protocolos da coroa, deitando abaixo o muro que existia entre o povo e a família real. Aos poucos, Diana começa a tornar-se um fenómeno à escala global, mas é na própria casa que os problemas começam. Ao ofuscar tudo e todos, Diana semeia inimigos.

Infeliz e presa num casamento sem amor, a princesa começa a lidar com distúrbios alimentares, enquanto Carlos recai nos braços daquele que parece ser o seu grande amor: Camila Parker Bowles (Emerald Fennell). Aos poucos, com filhos nos braços, a relação que parecia perfeita começa a desmoronar-se e a preocupação torna-se apenas uma: o bem-estar da coroa.

O retrato de Princesa Diana era um dos momentos mais aguardados e, quatro anos depois, é impossível olhar para a interpretação de Emma Corrin e não a elogiar amplamente. O trabalho realizado pela atriz é fenomenal, entregando uma passagem subtil de jovem para mulher adulta, numa das mais imortais princesas do século XX. O detalhe técnico, o guarda-roupa, a caracterização e todos as outras características que montaram Diana de Corrin tornaram-na num dos mais interessantes retratos de todas as temporadas de The Crown. Seria injusto afirmar que Diana carrega a quarta temporada sozinha nas costas, pois não é verdade. É uma das mulheres mais importantes do ano, mas não é a única.

Os anos de ferro de Margaret Thatcher

Gillian Anderson
Margaret Thatcher é interpretada por Gillian Anderson. (Fotografia: Netflix / Divulgação)

Se Emma Corrin é fabulosa, Gillian Anderson é de outro mundo. A atriz que ficou mundialmente conhecida pelo seu papel em Ficheiros Secretos já é uma amiga da Netflix, ao marcar presença em Sex Education, mas é em The Crown que Anderson brilha em todo o seu esplendor. O retrato de Margaret Thatcher é digno de todo o tipo de premiações e estatuetas. Se há precisamente dez anos Meryl Streep vencia o seu terceiro Óscar pela interpretação da Dama de Ferro, creio que poderá ter chegado a altura de Gillian Anderson ser aclamada pelo mesmo papel.

A transformação de Anderson é inexplicável. A atriz adota todas as expressões faciais de Thatcher, assim como a sua voz e postura, fazendo-nos acreditar que estamos realmente a assistir à reencarnação de Margaret Thatcher em todo o seu poder, força e coragem. A primeira-ministra britânica foi a primeira mulher a subir ao cargo, vestido saias num mundo de calças.

Gillian Anderson
No poder durante onze anos, Margaret Thatcher tornou-se uma das mulheres mais poderosas do mundo. (Fotografia: Netflix / Divulgação)

Contra tudo e contra todos, Thatcher transformou a Inglaterra que recebeu num país totalmente diferente, defendendo a pátria com unhas e dentes. Em guerra pelas Malvinas, Thatcher afunda o país numa das mais graves depressões económicas desde a Segunda Guerra Mundial, levando o desemprego a disparar a números não vistos há vários anos, agindo sempre de acordo com a sua visão do que seria um Reino Unido mais próspero e independente. A sua garra tornou-a uma das mais poderosas mulheres do mundo e da história da humanidade, mas a sua falta de empatia levou a rainha Isabel II, segundo rumores da época e a interpretação de The Crown, a quebrar o seu silêncio e distância com o mundo político. Pela primeira vez durante o seu reinado, Isabel II abria-se ao povo e declarara que não apoiava a política de Margaret Thatcher, o que levou à relação das duas a deteriorar-se, embora o Palácio nunca tenha confirmado que a rainha realmente expressou as suas opiniões.

No poder durante onze anos, Margaret Thatcher foi polémica, rígida e forte; mas foi também uma mulher, uma mãe e uma esposa. O retrato de Gillian Anderson não expressa apenas a poderosa arma política em que a governante se tornou, mas também todas as suas fragilidades, medos e angústias, especialmente quando se viu afastada do Partido Conservador.

Uma Rainha em segundo plano

Olivia Colman
A monarca tem o reinado mais longo de toda a história mundial. (Fotografia: Netflix / Divulgação)

O peso da coroa sempre foi insuportável, mas na quarta temporada de The Crown, parece mesmo tornar-se demasiado. Num país em mudança e com uma sociedade cada vez mais moderna, o Palácio de Buckingham perdeu a carruagem em direção ao progresso. A tradição, os costumes e a moral estão mais altos do que nunca, numa época em que a monarquia nunca se viu tão ameaçada. Margaret Thatcher não só toma as rédeas do governo, como começa a tomar o papel da rainha em certas cerimónias, passando a monarca para um papel mais secundária. Isabel II chega a ser avisada: “Ela vai roubar-lhe o emprego“.

Na quarta temporada de The Crown vemos uma rainha madura que começa a perder as estribeiras e a tornar-se a vilã da sua própria história. Inquebrável, intransigente e com noção do próprio poder, Isabel II já não é apenas a chefe de Estado, é uma mulher poderosa que quer defender a coroa a todo o custo. Fria, intocável e calculista, a rainha da nova temporada é totalmente diferente da que conhecemos até aqui. O mundo mudou-a. Está mais insensível, mais dona de si e não pensa duas vezes quando está decidida a agir.

É errado dizer que a quarta temporada daquela que é a série mais cara de sempre da televisão, não é sobre a rainha Isabel II. Tudo o que acontece durante o reinado da monarca afeta diretamente a sua vida, pois apesar de ser o centro da família real, a rainha começa a ver-se ultrapassada pelo próprio tempo que se vive, enquanto a própria fica agarrada a um passado pelo qual foi marcada. Até então, a rainha Isabel tinha vontade de arriscar; fazer diferente. Agora, está estagnada, mergulhada na própria incapacidade de entender o universo que a rodeia, sem noção de que está a ficar para trás. O mundo já não a venera, a Austrália já não a quer, e o povo – que tanto a amava – parece ter um novo amor: Diana.

Olivia Colman
A nova temporada de The Crown termina com a Rainha Isabel II já nos seus 64 anos. (Fotografia: Netflix / Divulgação)

Incapaz de sentir qualquer tipo de afeto pela princesa, a rainha torna-se gélida e sem qualquer tipo de empatia pela princesa de Gales, que não só vive mergulhada num profundo desgosto, como coloca a coroa em risco com os seus comportamentos liberais e modernos, aos quais a rainha não sabe dar resposta. Aos poucos, Isabel II começa a escorregar no esquecimento e a tornar-se apenas um fantoche político, embora lute com todas as forças para se manter à superfície.

A atuação de Olivia Colman continua a ser um dos pontos fortes da produção. Se Claire Foy (que regressa para uma participação especial nesta temporada) nos entregou uma monarca fervilhante e apaixonada, Colman mantém a sua interpretação de uma rainha mais madura, mais calma e, por consequência, também mais distante. Se a atuação da protagonista já tinha sido arrepiante no ano anterior, agora a atriz eleva-se a outro patamar, mostrando que não existe outra artista tão capaz de dar vida à rainha Isabel II. Imelda Staunton, que substituirá Olivia Colman já na próxima temporada, fica agora em maus lençóis, pois não só tem de agarrar um papel que já foi vivido por duas grandes atrizes, como tem de se certificar que o faz bem ao ponto de ser digno fechar a história.

A quarta temporada de The Crown conquista desde o primeiro minuto. A produção da Netflix é uma das séries mais aclamadas da atualidade desde a sua estreia em 2016, mas os novos episódios colocam-na noutro grau. É um espectáculo a acontecer em frente dos nossos olhos. Não é fantasia, não tem dragões, não tem espadas, mas tem muito drama humano e acontecimentos que marcaram não só a família real britânica, como toda a sociedade.

Helena Bonham Carter
Helena Bonham Carter veste a pele da irmã mais nova da Rainha, a princesa Margarida. (Fotografia: Netflix / Divulgação)

Os novos episódios de The Crown são também os últimos de todo o elenco que presente desde a terceira temporada. Helena Bonham Carter, que interpretou a princesa Margarida de forma primorosa desde a primeira cena, será substituída por Lesley Manville (Phantom Thread), que seguirá os passos de Margarida até à sua morte em 2002. O retrato de Bonham Carter, que na terceira temporada foi um dos pontos altos da narrativa, foi mais discreto no quarto ano da produção, mas não deixou de ser um dos mais brilhantes de todo o percurso da história.

Já princesa Diana, que se estreou com Emma Corrin, será substituída por Elizabeth Debicki (Tenet), enquanto os príncipes Carlos e Filipe passam a ser interpretados por Dominic West (The Affair) e Jonathan Pryce (Game of Thrones, The Two Popes).

Antes disso, a quarta temporada de The Crown fica disponível já este domingo (15) e promete não deixar ninguém indiferente. As mulheres seguram o leme dos novos episódios da Coroa, naquela que é a melhor temporada da série sobre o reinado da Rainha Isabell II.

Emma Corrin
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