Cruzeiro Seixas
Fotografia: Facebook/Fundação Cupertino de Miranda

Cruzeiro Seixas. Pintor surrealista morre aos 99 anos

O poeta e artista plástico Cruzeiro Seixas morreu no domingo

Artur Manuel Rodrigues do Cruzeiro Seixas morreu este domingo (8), aos 99 anos de idade. Nascido na Amadora, a 3 de dezembro de 1920, é considerado o último dos surrealistas portugueses. A notícia foi confirmada pela Fundação Cupertino de Miranda.

É com pesar que informamos que o Mestre Cruzeiro Seixas faleceu hoje, 8 de novembro de 2020, no Hospital Santa Maria, Lisboa“, informou a Fundação Cupertino de Miranda, que lamenta “profundamente a perda deste vulto da Cultura Nacional“.

O artista frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio (1935-1941). Embora se tenha sentido “atraído pelo Neo-realismo“, “as inquietações plásticas e os desejos de libertação estéticos e ideológicos conduziram-no para o Surrealismo”, recorda a Fundação Cupertino de Miranda. No final da década de 1940, começou a colaborar com o surrealista Mário Cesariny (1923-2006), com quem começou uma relação e uma forte amizade.

Em entrevista à agência Lusa, Cruzeiro Silva disse: “ele [Cesariny] abriu-me estas portas. Era um poeta a sério, um intelectual, uma pessoa extraordinária e apaixonante”. A este grupo pertenciam também António Maria Lisboa, Mário Henrique-Leiria, Pedro Oom, Risques Pereira, Fernando Alves dos Santos, Carlos Calvet, entre outros.

O movimento Surrealista foi lançado em 1924 pelo escritor francês André Breton, no Manifesto Surrealista. Breton influenciou incontáveis artistas mundialmente. No manifesto, o escritor designou os princípios pelos quais passavam a arte surrealista, como a negação do controlo e da lógica, da razão, da moral e a negação dos princípios de estética dominantes na altura.

Um percurso internacional

Segundo Cruzeiro Silva, “o mundo artístico é hoje [2008] muito pobre comparado com o momento extraordinário de reinvenção que se viveu durante o período surrealista em Portugal, nos anos 1940 e 1950“. Em 2008, o artista recordava que “no tempo [da ditadura] do Salazar, quando não existia nada em Portugal, a fome era tão grande e não havia livros. Não chegava cá nada. Mas nós íamos reinventando. Havia ideias extraordinárias, sobretudo no campo da pintura“.

Na década de 1950, Cruzeiro Seixas alistou-se na marinha mercante. Motivado pela vontade de conhecer o mundo, o artista passou pela Índia e pelo Médio Oriente. Dois anos mais tarde, estabeleceu-se em Angola, onde inaugurou várias exposições. Voltaria a Portugal doze anos depois, para receber uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian e para trabalhar com Cesariny.

Nos finais da década de 60, assim como ao longo da década de 70 e 80, dirigiu várias galerias de artes, como a Galeria São Mamede, em Lisboa, a Galeria da Junta de Turismo do Estoril e a Galeria de Vilamoura, no Algarve. Durante este período de tempo, desenhou cenários para a Companhia Nacional de Bailado e para o extinto Ballet Gulbenkian. No estrangeiro, viu os seus trabalhos expostos em França, no Brasil, na Bélgica, nos Estados Unidos, no Reino Unido, em Espanha, na Alemanha e no México.

O legado que deixa em Portugal

Antes do virar do século, em 1999, ofereceu a sua obra completa à Fundação Cupertino de Miranda, de Vila Nova de Famalicão, com o intuito de criar o Centro de Estudos do Surrealismo e o Museu do Surrealismo. Este espaço sobrevive até aos dias de hoje, existindo ainda o Espaço Cruzeiro Seixas, com uma exposição permanente dedicada ao artista.

A Fundação escreve que o pintor era “detentor de um acervo pessoal constituído por cartas, postais, cadernos manuscritos, fotografias, desenhos, catálogos, serigrafias, colagens, pinturas, entre outros”, e que criou “com grande perícia técnica um universo muito pessoal”.

No entanto, o seu trabalho pode ser visto nas Coleção Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado e na Biblioteca Nacional, em Lisboa, no Museu Machado de Castro, em Coimbra, na Biblioteca de Tomar e Fundação Cupertino de Miranda, em Vila Nova de Famalicão, entre outras.

Sobre a sua obra, Cruzeiro Seixas dizia que “não é genial. É um depoimento“. Em entrevista à agência Lusa, em 2011, o artista dizia ter reunido “uma das melhores coleções de arte em Portugal”.” E fiz uns disparates“, acrescentava.

“Da minha vida nada vai ficar de definitivo”

Em 2015 estreou o documentário As Cartas de Rei Artur, realizado por Cláudia Rita Oliveira. Sobre o projeto, o artista disse “da minha vida nada vai ficar de definitivo. Não vivi, mas deixarei documentos desse não viver. No documentário foram reunidas várias entrevistas dadas por Cruzeiro Seixas, que se intersetam com frames das pinturas, dos seus pertences, dos cadernos preenchidos com anotações e desenhos do autor. Como não podia deixar de ser, estão presentes momentos da sua relação amorosa com Mário Cesariny. “Um dos meus suicídios foi em 1975, quando cortei relações com Cesariny“, afirmou no filme.

A editora Sistema Solar publicou, em 2016, o livro Cartas de Mário Cesariny para Cruzeiro Seixas, com registos que vão desde agosto de 1941 a dezembro de 1975. No livro, o leitor testemunha as “confissões do lado de lá da barricada“, as “reflexões, iluminações, relâmpagos, faíscas que nos falam do amor consumado e fugidio e dos sucessivos objetos do desejo“, nas palavras de Perfecto E. Cuadrado, que reuniu os elementos da obra.

Em 2018, com o escritor Valter Hugo Mãe, o artista organizou uma das suas últimas exposições, “Colaborativa.mente”. No Facebook, o autor publicou um texto a recordar o “querido amigo“. “Conheci poucos como ele. Generoso, de verdade genial, um deslumbrante criador de imagens, de sonhos e pesadelos. Levarei para sempre uma infinidade de encontros e de conversas. Levarei para sempre o carinho e o fascínio“.

Em outubro deste ano, a ministra da Cultura, Graça Fonseca, reconheceu Cruzeiro Seixas com a Medalha de Mérito Cultural, pelo “reconhecimento institucional, mas também como reconhecimento pessoal de alguém que se junta aos muitos que o admiram e que em si encontram um olhar que sempre viu mais longe e mais profundo”.

No Twitter, o Primeiro-Ministro António Costa deixou uma mensagem de reação à notícia da morte do pintor. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa também recordou o “mestre” que “revolucionou o panorama artístico e literário” português.

Paulo Cunha, presidente da Câmara de Vila Nova de Famalicão, decretou esta segunda-feira (9) dia de luto pela morte de António Cruzeiro Seixas e garantiu que a sua obra vai “permanecer viva” no concelho.

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