Créditos Diana Matias
Fotografia: AURORA / Diana Matias

AURORA. “Sem cultura, uma sociedade vive de olhos fechados.”

Serra da Lousã, 1100 metros de altitude, 19 de outubro. Foi assim que aconteceu o primeiro episódio de AURORA, projeto criado por Manuel Chau. Em conversa com o Espalha-Factos, o produtor e diretor artístico explicou o conceito, partilhou a experiência do primeiro episódio, falou dos desejos para o futuro e partilhou a sua opinião sobre a importância da cultura em Portugal.

AURORA é um fenómeno audiovisual inovador no país, que produz e organiza a filmagem de concertos em diferentes lugares de Portugal, adaptando o espaço a cada artista. Por agora ainda acontece sem público, devido à pandemia COVID-19, mas AURORA traz esta experiência até nós, através dos vídeos e fotografias que partilham.

Como é que surgiu esta ideia, este interesse?

Basicamente, com tudo o que se passou durante este ano, era necessário reinventarmo-nos, e eu estava num período de reflexão para o futuro e de pensar no que é que se podia fazer de diferente. Criei o AURORA a pensar nos espaços naturais que temos em Portugal, a pensar nos espaços culturais, a pensar nas regiões em que vamos atuar, porque aí envolvemos parceiros e marcas locais, que também é muito importante serem valorizados numa altura como esta. Pensámos também na parte de termos um artista adaptado ao espaço onde vamos atuar, pois era importante que acontecesse algo não só esteticamente bonito, mas que em termos sonoros tivesse uma boa ligação com o próprio espaço. E foi o que aconteceu com o primeiro episódio. Foi isso, a vontade de criar aqui uma ligação entre os vários “agentes”.

E de onde surgiu esta inspiração?

Há várias inspirações para o AURORA, mas inspirei-me num projeto lá fora. No entanto, nós fazemos em moldes diferentes. Havia a necessidade de criar este conceito em Portugal. Termos um vídeo produzido para um artista de 45 minutos a uma hora, num sítio inóspito, digamos desafiante, por Portugal Continental e Arquipélagos.

Como é feita a escolha dos artistas?

Fazemos uma análise do que faz sentido em determinados sítios, também temos em consideração algumas variáveis na escolha dos artistas, mas a nossa intenção é mesmo essa – abranger o maior número possível de pessoas e destacar os artistas nacionais, em diferentes locais, bem como abrir portas a artistas internacionais. Pode haver aqui uma abertura de portas para o exterior, para o estrangeiro. E acho que é mesmo importante que isso exista, porque dando destaque a algum artista a nível internacional, também damos maior visibilidade ao projeto e destaque aos artistas que vão atuar.

Surma foi o primeiro artista deste projeto a atuar. Porquê a escolha desta artista para atuar na Lousã?

Porque se enquadrava no local, e porque é uma artista maravilhosa que sei que aceita aventuras com o coração. Além disso, tem tido bastante sucesso nacional e internacionalmente. A Surma, nos últimos dois anos, apresentou-se ao vivo mais de 200 vezes e por 16 países. Em dois anos, Surma também tem corrido o país, desde pequenas salas a dezenas de festivais como o NOS Alive, o Vodafone Paredes de Coura, o Bons Sons, o Super Bock Super Rock e o NOS Primavera Sound. Continua vários trabalhos e residências colaborativas, mantém-se, desde 2016, como solista convidada dos Concertos para Bebés e foi responsável pela banda sonora da longa-metragem SNU, bem como concorrente e finalista da edição de 2019 do Festival da Canção.

Como correu o primeiro episódio?

A 1100 metros de altitude, na serra da Lousã. Inicialmente esperava que estivesse sol, no entanto, no início da semana, esteve sempre a chover. No dia da repérage, estava bom tempo e apanhámos um bonito pôr do sol. No dia seguinte, a partir do momento em que a Surma começa a tocar, veio um nevoeiro tremendo. Só que foi um nevoeiro bonito, percebes? Foi mesmo bonito. E acho que isso trouxe a magia ao concerto. É isto que vamos esperar a cada concerto, há muita coisa programada, e temos atenção também às condições climatéricas, mas é isto – fazer concertos na Natureza e em espaços assim traz-nos esta magia, e acho que o projeto AURORA complementa-se exatamente por isso.

E qual tem sido o feedback?

O feedback tem sido muito positivo, temos tido imensas partilhas, milhares de visualizações em apenas uns dias, e tem corrido muito bem. Aproveito também para dizer que o episódio foi apoiado pela Câmara Municipal da Lousã, e também teve como parceiros a Vodafone FM, Licor Beirão e a Comunidade Cultura e Arte. É importante agradecer também ao Hotel Palácio da Lousão, Q.B. Resto Bar e Mata Borrão – Publicidade e Artes Gráficas, LDA.

Como é que ultrapassaram as dificuldades técnicas? Na verdade, não deve ser fácil fazer um concerto no meio da serra.

Em termos técnicos, não foi difícil porque já tínhamos tudo programado para fazer as coisas acontecer. Nós fazemos sempre testes nos dias anteriores ao episódio, portanto, já tínhamos tudo isso montado. Depois, temos uma equipa. AURORA não só sou eu, faz-se comigo e com mais dez pessoas. Temos, como responsáveis de vídeo, a Casota Collective, no design gráfico, os Divisa, na comunicação, Diana Matias e, no som, edição e mistura, Pedro Feio e Rafael Silver.

Qual o próximo episódio e onde? Podes revelar?

(Risos) Temos efeito surpresa. Posso dizer que vamos gravar em sítios que não são assim tão expectáveis à primeira vista.

Como têm sido as dificuldades devido à pandemia? Como as têm ultrapassado?

A nossa intenção, no futuro, é que o público viva a experiencia em si, no local. É algo que queremos muito fazer, mas neste momento, infelizmente, não é possível. Visto os episódios serem ao ar livre, é mais acessível que tenhamos público no exterior, mas claro que temos sempre que cumprir as regras. Temos de estar sempre com atenção a isto. É perfeitamente possível acontecer mas, infelizmente, não para já.

Este projeto surge também para mostrar vários locais de Portugal, valorizando o país. A cultura em Portugal tem sido alvo de alguma atenção nesta pandemia. Qual é a tua opinião sobre a importância que a cultura e a música, mais especificamente, tem na sociedade?

A cultura é um dos pilares em qualquer sociedade. Como, neste caso em concreto, estamos a falar de música, não conheço ninguém que viva sem ela, diariamente. Gostamos muito do silêncio, mas até a música da natureza, por assim dizer, é música. A situação que temos vivido não é favorável. Levamos meses bastante duros. A cultura tem de ser apoiada, temos de dar atenção à cultura e perceber que é fundamental.

Foram muitos os festivais e concertos cancelados este ano, salas fechadas, músicos sem trabalho, artistas emergentes que merecem atenção e a oportunidade de se mostrarem, assim como toda a equipa envolvente à produção de um espetáculo. Falo de espetáculos não só de música, mas de teatro, dança… E necessitam de ser mais apoiados.
Temos de aprender a viver com este medo de forma responsável. Tem sido insustentável, e necessitamos de abrir portas aos espetáculos, abrir portas à cultura. Sem cultura, uma sociedade vive com os olhos fechados. Vive fechada.

Para terminar, em que plataformas te podemos encontrar?

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