Donald Trump
Imagem: TIME

O que significaria mais um mandato de Trump para o ambiente?

Quem habitará a Casa Branca no futuro pode ter um papel decisivo no futuro do nosso planeta. Durante o debate presidencial, Donald Trump foi, mais uma vez, vago em relação às alterações climáticas, tornando-se urgente refletir sobre o significado futuro de mais um mandato do atual presidente.

É difícil determinar a opinião de Donald Trump no que toca às alterações climáticas. Quando interrogado sobre o tema no debate, falou no ” programa Trillion Trees” e outros “tantos programas diferentes”. “Eu adoro o ambiente”, colmatou. O certo é que, durante o mandato, o atual presidente dos EUA adotou políticas desastrosas para o meio ambiente e desfez vários regulamentos ambientais adotados na era Obama.

Após seis meses da sua entrada na casa Branca, Trump desanimou os cientistas ao anunciar a retirada dos Estados Unidos do Acordo Climático de Paris, o pacto internacional concebido para evitar o aquecimento global do planeta. O acordo tem como objetivo diminuir a temperatura média mundial abaixo dos 2º C em relação aos níveis pré-industriais, ao adotar medidas para reduzir os gases de efeito estufa emitidos. A saída dos EUA tornou claro que o presidente não estava interessado em manter os esforços que Obama tinha conseguido até ali para diminuir essas emissões, o que torna muito mais difícil conseguir atingir os objetivos traçados.

Objetivos traçados no Acordo de Paris em risco

Com a implementação destas medidas, Trump pode comprometer vários objetivos que foram traçados no Acordo de Paris e que visam reverter os efeitos do aquecimento climático.

Em primeiro lugar, poderá vir a ser muito difícil baixar a temperatura média para os níveis acordados.

Por outro lado, também poderá deitar por terra os esforços para limitar a quantidade de gases de efeito de estufa emitidos pela atividade humana até níveis que possam ser naturalmente absorvidos pelas árvores, pelo solo e pelos oceanos.

Da mesma maneira que o investimento em combustíveis fósseis poderá restringir a cooperação entre países ricos para ajudar os países pobres a trocar os combustíveis fósseis por energias renováveis com o “financiamento climático”.

Medidas ambientais retiradas ou enfraquecidas por Trump

O presidente iniciou o aumento da sua pegada ecológica ao acabar com o plano de energias limpas elaborado pela administração de Obama. Este plano visava reduzir as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. O objetivo era substituir o carvão pelo gás natural, expandir as energias renováveis e nucleares, impulsionar a eficiência energética e estabelecer um preço social para o carbono.

Trump também abandonou a meta da eficiência energética dos carros. Esta meta aumentaria a eficiência energética para cerca de 208 litros, em vez dos cerca de 151 litros de Trump. Para além de os únicos beneficiados serem as grandes petrolíferas, que irão conseguir vender mais gasolina, a troca de estratégias resultou em quase dois milhões de toneladas de gases de efeitos de estufa emitidos nos passados 4 anos.

O presidente eliminou igualmente o controlo de emissões de metano no país. Na era de Obama foi proposto às empresas petrolíferas e de gás que utilizassem tecnologia de ponta para monitorizar e reparar potenciais fugas de metano de toda a cadeia de abastecimento – de poços, oleodutos, e instalações de armazenamento. Estas medidas foram completamente deixadas de lado pelo atual presidente.

Os esforços do anterior governo para definir um custo social para o carbono também foram abandonados. Esta é uma medida introduzida pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA, feita para ser possível calcular o valor económico dos danos climáticos causados pela emissão de cada tonelada de dióxido de carbono.

Para além disso, o presidente também cedeu milhares de hectares em projetos associados aos combustíveis fósseis e autorizou o aumento do consumo energético das lâmpadas.

Os regulamentos em cima apresentados representam apenas uma parte das políticas climáticas que a Administração Trump tem procurado reverter. A Universidade de Harvard rastreou todos os regulamentos ambientais afetados e deparou-se com um total de 72 regulamentos que foram retirados ou enfraquecidos e 27 que ainda estão a ser processados, com o único objetivo de beneficiar as indústrias dos combustíveis fósseis.

Significado de um segundo mandato de Trump para o clima

A agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, no seu inventário anual de emissões de gases de efeitos de estufa, mostra-nos que as emissões totais de 2018, comparadas com as de 2005, são muito mais baixas, contudo entre 2017 e 2018, o primeiro ano de Trump como presidente, houve uma subida nas emissões totais de gases de estufa.

Comparada com 2005, a taxa das emissões de gases de efeito de estufa ainda é 10,2% mais baixa.  Isto acontece devido a muitas “tendências favoráveis que se apoiaram em vetores como a população, crescimento económico,  mercado energético, mudanças tecnológicas, eficiência energética e ainda escolhas de combustíveis energéticos”, lê-se no inventário.

Esta tendência parou entre 2017 e 2018, com um aumento em 3,7% do total das emissões de gases com efeito de estufa, que foi em grande parte “impulsionado por um aumento das emissões de CO2 provenientes da combustão de combustíveis fósseis”.

Este aumento foi o resultado de múltiplos fatores, incluindo o aumento da utilização de energia, por haver uma aumento da necessidade energética devido a um Verão mais quente e a um Inverno mais frio em 2018, em comparação com 2017.

Outro dos fatores é a clara preferência do presidente pelos combustíveis fósseis, já que 80% da energia usada nos EUA, em 2018, foi produzida através de combustíveis fósseis. Os restantes 20% provieram de outras fontes de energia, tais como a energia hidroeléctrica, biomassa, energia nuclear, eólica e solar.

Dia Mundial do Ambiente
Fotografia: Luca Bravo/Unsplash

Michael Man, cientista que estuda as alterações climáticas, em declarações ao The Guardian, reprova veemente esta política que beneficia as energias sujas. Para o cientista é necessário baixar 1,5º C da temperatura média e “mais quatro anos do que vimos sob a administração de Trump, que é trocar a política ambiental e energética para os poluidores e desmantelar as proteções postas em prática pela administração anterior, tornariam isso [baixar 1,5ºC da temperatura média] essencialmente impossível”.

Mais um mandato de Trump significa então que mais 27 regulamentos ambientais vão ser danificados. Significa que os donos das grandes empresas de combustíveis fósseis vão ser cada vez mais beneficiados. Significa também mais emissões de gases de estufa para atmosfera. E ainda significa o agravamento do aquecimento global.

Michal Mann vai mais longe e diz-nos que “mais um mandato de Trump seria ‘game over’ para o meio ambiente”.