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Imagem: Página Oficial Stephen King / Shane Leonard

Stephen King: o mestre contemporâneo do terror

O que nos pode ensinar Stephen King através das suas histórias de "meter medo"?

Stephen King é um dos mais prolíficos e populares autores norte-americanos de terror e de ficção sobrenatural. Com mais de 61 romances e 200 contos publicados, King é regularmente apelidado de “rei do terror“. Várias das suas obras foram adaptadas para cinema, destacando-se Os Condenados de ShawshankThe Shining. No dia de Halloween, o Espalha-Factos recorda Stephen King e o género literário que é o terror, e como as suas obras se inserem nesta tradição. Avisamos também que, se não estás familiarizado com a obra do autor, este artigo contém spoilers.

O terror é um género de ficção literária com objetivo de assustar ou perturbar o leitor, podendo conter elementos sobrenaturais. Na coletânea The Penguin Book of Horror Stories, o crítico J. A. Cuddon descreve o género como “um objeto de ficção em prosa (…) que visa chocar, ou até assustar o leitor, ou provocar um sentimento de repulsão ou repugnação”.

Grande parte das histórias de terror têm um motivo central que funciona, ou pode ser interpretado, como uma metáfora para uma temática maior. Frankenstein, de Mary Shelley, aborda temas como o isolamento da sociedade e da família, a ambição, a perda da inocência e a relação da humanidade com a natureza. Em Dracula, Bram Stoker explora temas como o amor, sensualidade e a pureza sexual, assim como explora o conflito entre a religião e a ciência e o antagonismo entre a sociedade e o outro. A mesma variedade de temáticas poderá ser encontrada na obra de Stephen King.

O alcoolismo e família em The Shining 

The Shining, é um dos romances mais celebrados e comercialmente mais bem sucedidos de Stephen King. Publicado em 1977, viria a ser famosamente adaptado para o cinema três anos mais tarde por Stanley Kubrick. Embora o autor desgoste da abordagem de Kubrick, o filme atingiu o estatuto de culto, e é celebrado como um dos melhores filmes de terror de sempre.

O livro conta a história da família Torrance, composta por Jack, Wendy e Danny. Jack, um ex-professor que tenta singrar-se como dramaturgo, é contratado como vigilante de inverno do luxuoso Hotel Overlook, nas montanhas do Colorado. A mulher e o filho acompanham-no pois Wendy está desejosa por estar confinada com a família durante os meses de inverno, enquanto Jack está seguro que terá as condições necessárias para finalmente escrever uma peça de teatro. No entanto, ambos desconhecem o misterioso poder do filho – Danny tem habilidades misteriosas que não consegue compreender, a que o cozinheiro do hotel, Dick, chama de shining (a luz, na tradução para português). No Hotel Overlook, Danny consegue ver as pessoas que lá dentro foram assassinadas e prever o futuro da família. Jack Wendy ignoram, também, a história do antigo zelador de inverno do Overlook, que matou a mulher e as duas filhas com um machado.

Ao longo do romance, Jack entra numa espiral de loucura que culmina na sua tentativa de assassinar a mulher e o filho. King estabelece um paralelismo entre a mente de Jack e a caldeira do hotel: o gerente do hotel avisa que é necessário regular a pressão da caldeira, pois esta poderá explodir e incendiar o hotel. Assim como a caldeira, os temas do romance e os problemas dos Torrance irão entrar em ebulição.

Em The Shining, são abordadas algumas questões que vão para lá do enredo acerca de um menino com poderes sobrenaturais. A temática do alcoolismo é de extrema importância no romance. O próprio autor teve problemas com dependência de álcool e outras substâncias nos anos precedentes à publicação do romance. Jack Torrance teve problemas com a bebida no passado, o que o levou a embarcar num caminho violento. Perdeu o emprego depois de agredir fisicamente um aluno, e pôs o casamento em cheque depois de ter partido o braço ao filho. No Overlook, deprovido de álcool, Jack regressa aos maneirismo de quando bebia: limpa os lábios com um lenço de mão, como se estivesse a beber; tem alucinações, como quando se senta no bar do Overlook e fala com um bartender que não está lá; pensa repetidamente em enfrentar tempestades de neve, às quais poderá não sobreviver, para ir comprar cerveja.

Aliada à frustração de não poder beber está a frustração de não conseguir escrever. Descarrega emocionalmente em Wendy a sua incapacidade de produzir uma peça de teatro. Jack fica dominado pelos demónios do hotel e pelos seus próprios demónios pessoais. O leitor percebe, também, a insatisfação de Jack face à família. Embora tenha uma relação próxima do filho, odeia o modo de estar na vida da esposa. É perigosamente ambicioso, algo que choca com Wendy, que é incapaz de perceber. Também está descontente com a condição do filho, porque não a entende. Aos olhos dos médicos, Danny tem convulsões. Jack é incapaz de conceber as adversidades que lhe são postas à frente, procurando sempre algum tipo de prazer instantâneo.

O romance também pode ser interpretado de outra maneira. O Overlook foi construído sobre um cemitério índio. Pode ser lido como uma metáfora sobre os atos dos colonos sobre os povos nativos, e a falta de respeito dos americanos para com a herança dos mesmos. Ou seja, The Shining analisa a relação dos americanos para com tudo o que não se enquadra nos seus padrões.

Aqui reside a maestria de Stephen King. Criar personagens complexas, ao ponto de não ser preciso um elemento do sobrenatural, que tão somente completa a história, em vez de a criar. As personagens em si fazem o romance, e os poderes de Danny são um “tempero” na história. A estrutura narrativa do romance interliga-se, tal como nos clássicos de terror como Frankenstein ou Dracula. 

O fanatismo religioso e o bullying em Carrie

Carrie é o primeiro romance de Stephen King. Publicado em 1974, foi adaptado para o cinema dois anos mais tarde por Brian De Palma. Ao contrário da adaptação de The Shining, King elogiou o guião de Lawrence Cohen e o final alternativo do filme.

O romance conta a história de uma rapariga com poderes telecinéticos. No entanto, tal como em The Shining, King aborda outras temáticas para além do sobrenatural. Carrie, a personagem, tem um vida conturbada: em casa, sofre abuso físico e psicológico de uma mãe fanática pela religião que não a deixa aproximar-se de outras raparigas ou de rapazes; na escola, sofre de bullying e não tem sucesso académico.

Em Carrie, o leitor percebe as consequências graves do fanatismo religioso. Margaret Brigham White, mãe da protagonista, refugiu-se no fundamentalismo cristão depois da morte do pai. Criada numa “jaula” de fanatismo religioso, Margaret sente-se culpada por ter tido relações sexuais com o pai de CarrieRalph White, antes do casamento, e desenvolve uma relação amor-ódio pela filha. Isto leva a um ciclo de violência, em que a mãe castiga a filha pelos atos que não acha corretos, para depois ser assassinada no final do romance.

O livro também explora a complexidade da adolescência. O clímax da história ocorre, nada mais nada menos, que durante o baile de finalistas, e o romance começa com a primeira menstruação de Carrie no balneário feminino do liceu. A adolescente não entende o que se está a passar e pensa que está a morrer. O castigo da aluna que atormenta Carrie, Chris Hargensen, é ser proibida de ir ao baile de finalistas. Chris fica furiosa quando descobre que Carrie vai participar no evento, então decide sabotar as votações, para elegê-la Rainha do Baile e banhá-la com dois baldes de sangue de porco – a derradeira humilhação de Carrie que ocorre quando, finalmente, se consegue livrar das correntes da mãe. Mas o episódio leva ao descontrolo dos poderes de Carrie, que assassina toda a gente presente no baile.

Numa década em que os tiroteios nas escolas secundárias nos Estados Unidos têm vindo a aumentar, a reflexão do autor sobre o bullying, escrita na década de 1970, nunca pareceu tão atual, especialmente quando a saúde mental é um tópico cada vez mais presente e discutido.

Carrie é uma adolescente que cresceu a ser torturada em casa e na escola, e que é incapaz de distinguir quem lhe quer bem ou quem lhe quer mal. No final, temos a história de uma rapariga que, entre o fanatismo religioso e a falta de apoio na escola, se sente assustada e sozinha e que não vê outra opção senão libertar os seus demónios.

A raiva para com a morte e a perda em Pet Sematary (Samitério de Animais)

No prefácio de Pet Sematary, Stephen King escrever que, na sua opinião, este é seu romance mais assustador. O livro foi novamente adaptado para cinema ano passado, altura em que o autor deu uma entrevista à Entretainment Weekly, onde comentou que “ouvi-o [em 2018] quando estava na Florida (…). Michael C. Hall [Dexter] narrou o audiolivro. Estava curioso. Sabes, não me aproximava [do livro] há 20, 25 anos. Então ouvi-o e pensei «Meu Deus, isto é simplesmente horrível. É o mais sombrio que podia ser.»”, e confirmou ainda achar que o livro “passou das linhas”, e que é “demasiado mórbido e preocupante”, “assustador demais para ser publicado”.

O romance foi baseado numa experiência pessoal. Depois do gato da filha ter sido atropelado por um camião, King imaginou como seria se o animal voltasse à vida, e de que forma voltaria. Aliado a isto, o filho do autor quase que morreu atropelado, também na mesma altura. King começou a imaginar o que faria se o filho morresse, e como agiria se pudesse trazê-lo de volta, e foi esta a base do romance.

Pet Sematary conta a história da família Creed, que se muda para o Maine depois de Louis Creed, médico, ter sido contratado para dar aulas na universidade. Louis estabelece uma amizade com Jud Crandall, o vizinho idoso do outro lado da rua. Jud leva a família a visitar um cemitério de animais onde os miúdos da zona enterram os animais de estimação. Semanas depois, o gato de Ellie, filha de Louis, é atropelado e Jud recomenda enterrar o gato num terreno para lá do cemitério de animais, que tinha pertencido à tribo Mi’kmaq. O gato volta à vida, mas tem um comportamento diferente. Depois da morte do gato, o filho de LouisGage, também é atropelado. Louis enterra-o no mesmo sítio que enterrou o gato, e o filho volta à vida, mas com comportamentos homicidas, assassinando a mãe, Rachel, o que leva Louis a sepultá-la no mesmo cemitério, para a trazer de volta. O romance acaba com Louis a jogar solitário e com o regresso de Rachel. 

Em Pet Sematary, Stephen King aborda o tema do luto. Estuda a possibilidade do ser humano voltar atrás, trazer alguém de volta à vida, mesmo estando ciente das implicações e das consequências negativas. O que vale mais: a tranquilidade da morte ou a incapacidade de lidar com a mesma, por parte dos vivos? Pet Sematary é o romance mais assustador de King porque é o mais real. Enquanto nem todos os leitores se possam relacionar com o alcoolismo de Jack Torrance ou a com a vida de Carrie White, todos, infelizmente, entendem a dor de Louis Creed.

Existem temas comuns nos romances de Stephen King, como a família, a infância e a morte. No livro The Encyclopedia of Science Fiction, os editores de ficção científica John Clute e Peter Nicholls elogiaram o autor pela sua “prosa pungente, ouvido atento ao diálogo, estilo relaxado, honesto” e pela sua “denunciação da estupidez e crueldade humana (especialmente para com as crianças)”. As personagens que mais sofrem nos livros de King são as crianças. O autor parece ter um fascínio com a inocência e com o mundo cruel das crianças, do mesmo modo que explora as questões mal resolvidas do mundo dos adultos e como estes passam os seus problemas para os mais novos.

O aterrorizante nos livros de Stephen King não é o sobrenatural, mas sim os atos humanos. Nós é que escolhemos ser assustadores ao ceder ao nossos próprios demónios em vez de os enfrentar. A obra de Stephen King garante ao autor um lugar de destaque no cânone do horror, porque bebe da tradição literária ao mesmo tempo que, na sua voz muito própria e despojada, expõe uma realidade em que os monstros somos nós, e não os outros.

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