Dona do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF avança com despedimento coletivo

A administração da Global Media Group justificou a decisão com "crise sem precedentes" e "profunda quebra de receitas do setor"

A Global Media Group anunciou um despedimento coletivo que abrange um total de 81 trabalhadores, dos quais 17 são jornalistas. Em comunicado enviado a todos os funcionários na tarde desta sexta-feira (30), a administração do grupo justifica a decisão com “a evolução acentuadamente negativa do mercado dos media, agora mais evidente com a presente pandemia”, que “precipitou os meios de comunicação social numa crise sem precedentes a que importa responder com fortes medidas de contenção”.

“A profunda quebra de receitas do sector, em particular na área da imprensa, impõe à Global Notícias, Media Group, SA uma opção difícil, mas inadiável: iniciar um processo de despedimento coletivo que abrange 81 colaboradores, 17 dos quais jornalistas, em diferentes áreas da empresa”, diz o grupo no comunicado. Os trabalhadores abrangidos começaram esta sexta-feira a ser informados.

A administração reconhece os custos sociais causados pela decisão, mas defende que “as medidas que estamos a tomar permitem ao Global Media Group regressar a um nível económico e financeiro saudável, garantir a proteção de várias centenas de postos de trabalho e a continuidade dos inestimáveis serviços que os nossos meios de informação, alguns deles centenários, vêm prestando à comunidade, com qualidade e independência”.

O grupo afirma que tem “vindo a desenvolver um conjunto de ações de contenção, a todos os níveis, que todavia se têm revelado insuficientes para permitir inverter os desequilíbrios existentes”, pelo que é “indispensável ir mais longe nos objetivos de restruturação”. Sem entrar em detalhes, a administração presidida por José Pedro Soeiro não descarta a necessidade de tomar outras medidas.

O grupo tem celebrado acordos de rescisão por mútuo acordo com vários profissionais nas últimas semanas, sobretudo em cargos de direção transversais a todos os títulos da empresa. Recorde-se que a Global Media recorreu ao lay-off na sequência da pandemia, no qual foram abrangidos 538 trabalhadores, e também beneficiou dos apoios estatais à comunicação social, recebendo cerca de 1 milhão de euros em compra antecipada de publicidade institucional.

A estrutura acionista do grupo que detém o Jornal de Notícias, O Jogo, a TSF ou o Diário de Notícias está em processo de mudança. Em setembro, Marco Galinha, fundador do grupo Bel, chegou a acordo para passar a deter 10,5% das ações, e assume a vontade de se tornar acionista maioritário. Entretanto, o diretor do JN, Domingos de Andrade, foi cooptado vogal do conselho de administração do grupo, não se sabendo se irá também integrar a comissão executiva, da qual fazem parte Afonso Camões e Guilherme Pinheiro.

Em entrevista ao Público no início de outubro, Marco Galinha assumiu como objetivo a reestruturação das publicações do grupo e a aposta no mercado lusófono, com enfoque nos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). O novo acionista manifestou também a vontade de fazer regressar o Diário de Notícias ao formato diário em papel, com a intenção de “ser o grande jornal da região de Lisboa”, e de criar uma edição Lisboa e uma edição Porto para O Jogo.

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O grupo Global Media, nome dado em 2014 à antiga Controlinveste, já passou por várias reestruturações financeiras e avançou para despedimentos coletivos em 2009 e 2014, abrangendo 122 e 140 trabalhadores respetivamente. Os últimos anos foram também marcados por perdões de parte da dívida do grupo por vários bancos, e pela venda dos edifícios históricos do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias.

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Fotografia: Global Imagens

Sindicato dos Jornalistas contesta despedimento

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) reagiu esta sexta-feira ao anúncio da Global Media Group, contestando o despedimento coletivo. Manifestando a sua solidariedade com os trabalhadores atingidos pela decisão, a estrutura sindical defende que “os despedimentos e a degradação das condições de trabalho não devem, nem podem, ser a única solução das administrações para resolver as dificuldades económicas” e aponta o dedo à “gestão irresponsável”.

Reafirmando a “determinação em defender os postos de trabalho e garantir a proteção dos direitos e interesses dos jornalistas”, o SJ considera que “o despedimento não pode ser a resposta para compensar perdas em vendas de jornais e publicidade ou investimentos falhados” e alerta para a “redução da informação produzida, com reflexos na qualidade dos conteúdos” que esta redução de pessoal irá causar em redações já “demasiado exauridas”.