Fotografia: Ayaz Palma/Divulgação

Entrevista. D.A.M.A: em ‘Sozinhos à Chuva’, “a palavra de ordem é a partilha”

Os D.A.M.A lançam o novo discoSozinhos à Chuvaesta sexta-feira, dia 30 de outubro. Em conversa com o Espalha-Factos, os membros Miguel CristovinhoKasha Miguel Coimbra explicaram o conceito do álbum, que assenta na partilha e na ideia de que “se uma pessoa está com outra sozinho, já está acompanhado”.

Sozinhos à Chuva é o quarto álbum dos D.A.M.A. Os músicos descrevem-no como “uma aprendizagem”, tanto pelo “grande desafio” a que se propuseram de criar um disco que se pode ouvir “da primeira à última música sem interrupções”, como pela cooperação com vários artistas, como Bárbara Bandeira, Carolina Deslandes, Ivo Lucas, Lutz, Mike 11, Nelson Freitas e T-Rex. Segundo o membro Miguel Cristovinho, este grande número de colaborações gerou um grande sentimento de partilha, uma vez que cada um deles é diferente dos outros. “Com cada um destes artistas, nós partilhámos a nossa forma de trabalhar, a nossa maneira de ser, e eles partilharam isso também connosco. Depois, cada um tem a sua estrelinha, como nós costumamos dizer”, referiu.

1- De onde surgiu a inspiração para Sozinhos à Chuva?

Kasha – Sozinhos à Chuva é o nome de uma canção que nós temos, que na verdade nem se chamava Sozinhos à Chuva, chamava-se Pepitas de Tempo, mas nós gostámos particularmente do nome e do significado do nome para uma coisa mais geral do que a música. ‘Sozinhos’ é o plural de ‘sozinho’ e se uma pessoa está com outra sozinho, já está acompanhado. E a ‘chuva’ representa todas as coisas que se têm passado na nossa vida que temos vivido em conjunto.

2 – Como foi voltar a criar juntos, depois de um ano afastados?

Miguel Cristovinho – Foi bom. Nós sempre tivemos uma química de criatividade muito boa e, não só entre nós os três, mas com qualquer artista com quem nos juntamos, acaba sempre por surgir uma vibe certa para fazer uma canção ou para fazer qualquer tipo de parceria. Portanto, para nós, foi importante também tirarmos um tempo para vivermos outras coisas, mas quando nos voltámos a juntar foi como sempre foi, que é uma vibe super certa e as coisas a saírem naturalmente.

3 – Por falar em parcerias, o disco conta ainda com a participação de Bárbara Bandeira, Carolina Deslandes, Ivo Lucas, Lutz, Mike 11, Nelson Freitas e T-Rex. Como foi trabalhar com todos estes artistas?

Miguel Cristovinho – Cada um deles tem uma coisa especial sobre si. Nós sentimos isso. Também é um bocado a razão pelo qual o álbum se chama Sozinhos à Chuva, a palavra de ordem é a partilha neste disco, e toda a gente que se juntou a nós está ‘sozinha à chuva’ connosco. Portanto, com cada um destes artistas, nós partilhámos a nossa forma de trabalhar, a nossa maneira de ser, e eles partilharam isso também connosco. Depois, cada um tem a sua estrelinha, como nós costumamos dizer.

Miguel Coimbra – Foi uma aprendizagem.

Miguel Cristovinho – Foi uma aprendizagem, exatamente. A Bárbara [Bandeira], por exemplo, é uma artista que tem uma qualidade interpretativa muito acima da média. Ela pega em qualquer coisa e faz dela como se não houvesse mais nada. O Ivo [Lucas] é dos artistas que eu considero mais subvalorizados aqui em Portugal, eu acho que é um artista que se calhar ainda não encontrou o seu espaço, mas que está cada vez mais a conquistar as pessoas pela sua qualidade, não só a compor, como enquanto artista, cada vez mais. O Mike 11 acho que é um talento que está também escondido do olhar das pessoas e, se as pessoas puderem conhecer o trabalho dele através do nosso trabalho, nós ficamos contentes, porque é um talento enorme da guitarra portuguesa. O T-Rex é uma nova escola do rap. Para nós, é dos nossos rappers preferidos aqui em Portugal e é daqueles artistas que também nos ensinou imensas coisas quando esteve em estúdio connosco.

Kasha – O Lutz é da novíssima escola do rap.

Miguel Cristovinho – Exato, o Lutz nem sequer é nova escola do rap, é novíssima escola do rap. O miúdo tem 17 anos e começou no ano passado a lançar coisas na internet e nós decidimos pegar nele e dar-lhe uma oportunidade e foi das melhores decisões que podíamos ter tomado neste disco, porque foi uma partilha de energia e de criatividade top e ele é um miúdo excelente e vai certamente chegar longe no panorama da música em Portugal. A [Carolina] Deslandes e o Nelson [Freitas] são pessoas um bocadinho mais estabelecidas, artistas mais consagrados, diria talvez como nós, que já têm mais projetos lançados, mais álbuns, etc. São pessoas fantásticas e muito talentosas. A Carolina não só temos uma relação fortíssima pessoal, como eu diria que é das melhores compositoras portuguesas, e o Nelson é uma referência na música luso-africana. Ele toca em quase tudo o que é país por aí fora e, portanto, para nós ter uma pessoa como o Nelson no nosso disco é um orgulho.

4 – Como foram as gravações? Houve entraves devido à pandemia?

Kasha – As gravações pararam com a pandemia. A verdade é que a pandemia veio alterar a realidade e a realidade que nós tínhamos do que seria o nosso disco. Nós já tínhamos gravado algumas coisas antes da pandemia, já tínhamos lançado outras. Durante os tempos da quarentena e do confinamento, nós estivemos afastados e, por isso, sem pegar no álbum. Assim que nos pudemos juntar, fomos para casa de uma amiga nossa, levamos o estúdio connosco e voltámos ao ativo, voltámos a compor. E aí começa na verdade aquilo que é este álbum, o Sozinhos à Chuva. Este álbum começou antes da pandemia, mas é depois da pandemia que ele ganha forma e estrutura. Na verdade, ele passou por várias metamorfoses, mas agora está na sua fase borboleta.

5 – Ao falar sobre o álbum, disseram: “tivemos momentos na carreira que nos emocionaram, que nos deram as lágrimas mais felizes e os sorrisos mais vincados”. Conseguem recordar um momento que vos tenha marcado de forma especial?

Kasha – Tantos…. A primeira vez que passámos na rádio, cada Campo Pequeno, o Meo Arena… Eu acho que é inevitável sorrir em todos os concertos.

6 – Dizem ainda que o nome do álbum resume “a facilidade com que nos isolamos e de sentirmos que não precisamos do outro, até à tomada de consciência de que esse não é o caminho que nos está destinado e, na realidade, quando partilhamos e nos unimos (mesmo estando afastados) é que a ‘magia’ acontece”. Parece-me um sentimento que se adequa muito ao momento em que vivemos…

Kasha – Sem dúvida. Nós, depois da quarentena, temos estado com vários artistas e com várias pessoas, e essa vibe de partilha tem acontecido muito mais. Se calhar, exatamente por isto, as pessoas percebem que precisamos uns dos outros e que ficamos muito mais fortes uns com os outros. O que o isolamento veio trazer foi uma oportunidade para nós olharmos também um bocadinho mais para dentro e para aquilo que andamos a fazer na nossa vida. E a verdade é que muitas vezes andamos dentro da nossa cabeça e, andando de fora para dentro, não conseguimos perceber que de dentro para fora as coisas resultam melhor para nós, porque acabamos por partilhar vivências, por beber de outras pessoas e outras pessoas bebem de nós. É isso que faz o mundo andar. Sem dúvida.

Miguel Cristovinho – E o ser humano é um ser social. Nós precisamos todos uns dos outros. Às vezes podemos é achar que não precisamos, ou podemos sentir-nos mais em baixo, que não fazemos parte e sentir-nos mais isolados. Acho que isso pode ter acontecido com a quarentena, as pessoas estão mais sozinhas, estão mais na sua cabeça e nos seus pensamentos. Mas o que as pessoas precisam é de alguém com quem se relacionar e de perceber que o que eu sinto os outros também sentem. E então estamos todos juntos, na mesma chuva de problemas às vezes e na mesma chuva de coisas boas. E esse foi o sentido que tentámos dar com o disco. É o nosso motivo e acho que é um motivo com o qual as pessoas se vão relacionar, porque partilham do mesmo sentimento, diria eu.

Sozinhos À Chuva
Fotografia: D.A.M.A/Facebook

7 – Por fim, dizem que o disco “resume o vosso passado, assume o vosso presente e espreita pela fechadura do vosso futuro”. Que futuro é esse? Que planos já têm em mente?

Miguel Coimbra – Este disco marcou para nós uma etapa, um novo redescobrir. Isto junto também de uma concretização de um objetivo que nós pusemos a nós próprios, em que nós tentámos provarmo-nos a nós próprios que éramos capazes de fazer isto, que é um álbum que está do início ao fim a tocar, as pessoas podem ouvir o disco da primeira à última música sem interrupções. Foi um grande desafio propormo-nos a fazer isso, porque era uma coisa que nós sentíamos que ia ser difícil de fazer e foi uma luta muito grande ligar as músicas todas e fazer com que o álbum fizesse sentido como um todo e não fosse só ouvir as músicas sozinhas. Nesse sentido, viramos uma página e agora estamos positivos, prontos para novos desafios e sentimos que somos capazes de fazer qualquer coisa.

8 – Se tivessem de escolher uma música favorita do álbum, qual seria?

Miguel Coimbra – Eu acho que cada pessoa não tem uma preferida. Tem alturas em que gosta mais de uma e menos de outra e isso vai mudando sempre. Mas se tivesse de escolher uma, neste momento escolhia o “Deve Ter Sido Engano”, com o Lutz.

Miguel Cristovinho – Eu escolheria a “Sozinhos à Chuva”, com o T-Rex e com o Mike 11.

Kasha – Pois, eu também ia escolher essa. Mas, para escolher outra, escolho o “Faz de Conta”, com o Nelson Freitas.

9 – Como é regressar agora aos palcos para apresentar este trabalho?

Miguel Coimbra – Não queremos outra coisa. É basicamente o que temos a dizer sobre isso. É um facto que infelizmente parece que está um pouco distante, voltar a reunir toda a gente e viver aquilo que temos vivido nos últimos anos, que é ter uma data de pessoas juntas a partilhar esta boa energia que se cria. Mas estamos confiantes que o futuro nos trará bons momentos de partilha e é viver um dia de cada vez até que volte tudo ao normal.

10 – Que receção esperam pela parte do público do Sozinhos à Chuva?

Kasha – É o que nós mais queremos saber nesta altura. Estamos mortinhos para saber isso.

Miguel Coimbra – Que as pessoas gostem, que partilhem, que oiçam, que se revejam nas músicas, porque nós dedicamos muito tempo a fazer isto e o que esperamos é que as pessoas consigam sentir um pouco do que nós sentimos. Se isso acontecer, já é tudo para nós.

Miguel Cristovinho – Sim, se pudermos pedir uma coisa é que percam os 39 minutos que tem a duração do disco para ouvir do início ao fim e que no final nos mandem uma mensagem no Instagram a dizer o que é que acharam.

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