Pulp
Fotografia: Pulp

25 anos de ‘Different Class’, dos Pulp, o expoente máximo do britpop

No dia 30 de outubro de 1995 era lançado Different Class, o quinto disco assinado pelo grupo britânico Pulp. De forma a celebrar o 25.º aniversário do lançamento do disco, o Espalha-Factos analisa como é que este se tornou o símbolo máximo do britpop.

Um longo caminho até ao topo

Originários de Sheffield, no Reino Unido, os Pulp foram formados em 1978 pelos músicos Jarvis CockerPeter Dalton quando estes tinham 15 e 14 anos, respetivamente. Inicialmente conhecidos pelo nome de Arabicus, posteriormente por Arabicus Pulp e, finalmente, apenas por Pulp, o grupo foi criado por Cocker com o intuito de ajudar com a sua timidez e conseguir com que “as raparigas viessem falar comigo primeiro“, explicou no documentário Pulp: A Film About Life, Death & Supermarkets.

A banda daria os seus concertos dois anos mais tarde, em 1980, e em 1981 conseguiria uma sessão no programa de John Peel para a BBC Radio 1. Esta conferiu exposição suficiente à banda para ganhar algum nome dentro do circuito local de Sheffield. No entanto, esta não foi o suficiente para a banda garantir um contrato com uma gravadora e maior parte dos elementos da banda, à exceção de Cocker (que seria o único membro constante do grupo ao longo da sua história), abandonaram o projeto para ingressar na universidade. A constante troca de membros marcou os primeiros anos do grupo, sendo que a sua formação só se tornaria constante a partir do final da década de 80.

Em 1983, e com Cocker a ser acompanhado por outros sete músicos, a banda lançaria aquele que seria o seu disco de estreia, It. É um disco que fugia ligeiramente ao som que a banda tinha desenvolvido até aí, influenciado pelo new wavepost-punkjangle pop, ligando estes a uma componente folk que não seria tão explorada em futuros trabalhos. O disco teve pouca exposição à altura mas, ouvindo-o hoje, é possível notar vários elementos que marcariam os trabalhos mais aclamados do grupo. A capacidade de desenvolver melodias melosas e cativantes e de juntar diferentes influências para criar um som eclético e próprio estava lá. E, acima de tudo, a poesia e a voz de Jarvis Cocker também.

Ao longo da história da música pop, muitas pessoas escreveram sobre amor e sexo, sobre relações e sobre as inseguranças que uma pessoa sente. Sobre a vida. Mas poucos o fizeram tão bem como Jarvis Cocker. Na sua poesia, este conseguia capturar os sentimentos do amor e desamores, do isolamento, das inseguranças, de forma brutalmente crua, incutindo ainda um humor bastante próprio.

Apresentava-os de forma a conseguir criar uma imagem muito vívida, quase cinematográfica e exibicionista (como Cocker era em palco), dos cenários sobre os quais estava a cantar. “Fiquei impressionado com a enorme discrepância entre a forma como os relacionamentos eram descritos na música que eu ouvia na rádio e a forma como eu os sentia na vida real. Então, decidi tentar restaurar o equilíbrio e colocar à vista de todos as partes estranhas e desastradas [dos relacionamentos], escreveu o músico no seu livro Mother, Brother, Lover, acrescentando que “juntar assuntos inapropriados com estruturas de música pop convencionais” passou a ser a forma como queria apresentar a sua música. E esta capacidade de criar faixas que conseguiam ser extremamente cativantes na sua melodia mas relacionáveis na sua lírica e imaginário continuou a desenvolver-se há medida que a carreira dos Pulp avançava.

Quatro anos mais tarde, com mais algumas trocas de membros pelo meio e agora fazendo parte da gravadora Fire Records, os Pulp lançavam aquele que seria o seu segundo disco, intitulado de Freaks. Freaks foi um disco que via a banda abraçar um som muito mais escuro que em It, colocando mais enfâse nas características do post-punk e do gothic rock. Agora, a música soava mais de acordo com a poesia que Cocker criava, crua e abrasiva, mas apaixonante. À semelhança de ItFreaks voltou a ter pouco sucesso, e com a desintegração da relação de Cocker com a gravadora, o artista viajou para Londres, colocando os Pulp em hiato durante um curto período de tempo. Sendo uma cidade muito maior do que a sua Sheffield, as experiências que Cocker viveria em Londres, enquanto estudava cinema na Central Saint Martins College of Art and Design, serviriam de inspiração para os trabalhos futuros da banda.

No momento certo à hora certa: britpop e o sucesso dos Pulp

Enquanto vivia em Londres, Jarvis conhece Steve Mackey e convida este a juntar-se à banda para ser o novo dono do baixo. Por esta altura, além de Cocker e Mackey, a banda era constituída por Nick Banks (bateria), Candida Doyle (teclas) e Russell Senior (guitarra e violino). Esta seria a formação com a qual os Pulp teriam o seu salto para o estrelato, inicialmente com os singles que antecipariam o seu terceiro longa-duração, intitulado Separations, e depois com o disco His ‘n’ Hers, lançado em 1994.

Separations foi lançado em 1992, pela Fire Records, três anos depois do seu processo de gravação ter terminado. A sua sonoridade, que cruzava os elementos que a banda já havia explorado anteriormente, como new wavepost-punkjangle pop, com música house e eletrónica, assentava que nem uma luva num movimento cultural que começava a ganhar tração no Reino Unido: o britpop.

Surgindo em resposta ao crescimento do grunge, o britpop foi um movimento cultural (e musical) que marcou os meados da década de 90. Várias bandas, como os Pulp, OasisBlur ou Suede, passaram a ser os principais rostos de um movimento que encarnava as classes operárias (e média, no caso dos Blur) e estava carregado de referências à realidade britânica da altura, ainda a recuperar dos efeitos do thatcherismo.

Musicalmente, estas bandas apresentavam sonoridades diferentes, mas partilhavam semelhanças suficientes no que representavam para passarem a ser apelidadas de britpop. Estes grupos juntavam referências clássicas, como o pop psicadélico, o garage rock dos anos 60 e o punk dos finais da década de 70, a características de estilos que tinham ganho espaço durante a década de 80 no circuito britânico, como o new wave, o baggy e o jangle pop. As estruturas das faixas estavam mais próximas de uma música rock “normal”, mas eram cantadas e compostas de forma a que pudessem ser hinos, com as suas guitarras estridentes e cobertas de reverb e hooks que apelassem ao público em geral. O britpop foi dos movimentos mais icónicos da década de 90 e muitos discos dessa altura tornaram-se clássicos da história da música britânica (veja-se (What’s the Story) Morning Glory?, dos Oasis, ou Parklife, dos Blur). Com a morte de Kurt Cobain e do grunge, em 1994, os grupos de britpop passaram a ser a referência máxima musical do Reino Unido e passaram a dominar os tops de vendas.

Enquanto o britpop surgia, em meados de 1991/92, os Pulp tentavam que Separations fosse lançado. Os problemas com a Fire Records, que tinham assombrado a banda durante o processo de gravação de Freaks, continuavam. Em 1992, os Pulp finalmente trocavam de casa, assinando pela Gift Records (subsidária da Warp Records). Ainda antes disso, em 1991, o singleMy Legendary Girlfriend’ era considerado como o single da semana pela revista NME e o seu próximo lançamento, ‘Countdown’, também havia ganho tração junto da imprensa britânica.

Em consequência desta nova exposição, e com o aumento da popularidade do britpop, as gravadoras viram o potencial do grupo e os Pulp assinavam por uma gravadora de peso, a Island Records. Era o primeiro grande contrato da banda e o seu próximo disco, His ‘n’ Hers, seria o bem mais sucedido do grupo até à altura. Este continuou o desenvolvimento da sonoridade do grupo a partir da base estabelecida em Separations. As suas guitarras ficaram ainda mais melosas e divertidas, ainda que com texturas algo escuras, os seus refrões tornaram-se ainda mais cativantes. A lírica de Cocker atingia novos patamares de humor e empatia,e agora, com um orçamento maior para promoção, o carisma enigmático do músico passou a fazer parte da imagem de marca dos Pulp.

O disco atingiu a nona posição no top de vendas britânico e foi nomeado para o Mercury Music Prize de 1995. Este prémio, entregue anualmente desde 1992, consagra o melhor disco britânico do ano para a imprensa especializada do Reino Unido.

Different Class e o pico de fama dos Pulp

Em 1995, os Pulp atingiriam o seu pico, tanto em termos de fama como em termos criativos. A preparação para o seu novo trabalho envolveu adicionar à banda mais um guitarrista na sua formação, Mark Webber (até então, o presidente do clube de fãs da banda), e o recrutamento do produtor Chris Thomas para ajudar o grupo a atingir o som que pretendia. O lançamento do próximo trabalho da banda foi procedido por quatro singles, ‘Common People’, ‘Mis-Shapes‘/’Sorted for E’s & Wizz‘, ‘Disco 2000′ eSomething Changed‘, e por uma atuação de última hora no palco principal do festival de Glastonbury, que elevou a banda e Jarvis Cocker a todo um novo estatuto. Os Pulp haviam se tornado uma das maiores bandas do Reino Unido, numa altura em que o britpop havia tomado a nação completamente de assalto. A expectativa estava alta e a 30 de outubro de 1995, Different Class, o quinto disco de estúdio da banda de Sheffield, saía para o mercado.

Different Class é um disco que, musicalmente, resulta de uma evolução abismal no som apresentado nos anteriores trabalhos da banda. E isto é logo notado na faixa de abertura, ‘Mis-Shapes’. Nota-se, de forma imediata, a influência acrescida do glam rock, que permite a Cocker e à banda exibirem-se de forma extravagante e teatral mas, ao mesmo tempo, encantadora. A produção de Chris Thomas eleva o som da banda a novos decibéis, conseguindo caminhar a linha fina entre soar delicado e sujo, servindo de complemento essencial para a poesia de Cocker. E o grupo consegue tudo isto sem perder a sua (enorme) capacidade de captar o ouvinte.

Sublinha-se a já referida ‘Disco 2000′, com o seu riff estridente de guitarra a servir como o motor da groove de disco da faixa, complementada por sintetizadores que evocam uma nostalgia incrementada pela entrega e poesia de Cocker. E há outros exemplos disto no disco. Veja-se ‘Something Changed’, uma balada grandiosa na sua instrumentação, que retrata as mudanças que podem ocorrer quando somos presenteados com acontecimentos aleatórios na nossa vida, ou a faixa que encerra o trabalho, ‘Bar Italia’, um retrato vívido e cinematográfico de um local onde podemos encontrar conforto quando necessário.

Different Class é um disco onde Cocker se eleva a um novo nível como poeta e como vocalista. A sua entrega exuberante, tanto em palco como em estúdio, encaixa de forma perfeita nos instrumentais grandiosos que nos são apresentados. A sua escrita atinge novos patamares, com o seu humor a ser mais astuto e perspicaz do que nunca. A capacidade de Cocker de criar imagens vividas da história que está a ser contada está ao alcance de poucos e aqui está presente em praticamente todas as faixas. Canta-se sobre o sexo de forma bastante vívida e crua, como se pode observar nas faixas ‘Pencil Skirt’, ‘Live Bed Show’ ou ‘Underwear’. Em ‘Sorted for E’s & Wizz’, Cocker canta sobre o desespero de estar perdido no meio do nada sobre o efeito de drogas, e a música complementa este sentimento. O mesmo se pode observar na épica ‘F.E.E.L.I.N.G.C.A.L.L.E.D.L.O.V.E’, com as suas várias trocas de ritmo (algo que os Pulp faziam muito bem) e uma história sobre estar no lugar errado à hora errada para encontrar o amor.

E, pelo meio destas histórias, destes amores e desamores, o que os Pulp fizeram em Different Class foi um reflexo quase perfeito da classe operária britânica. É possível observar uma crítica à sociedade britânica ao longo do disco, ganhando uma notoriedade maior em faixas como ‘I Spy‘, que comenta os vícios dos famosos, e Common People’, em que Cocker conta a história de uma conversa que teve com uma mulher rica que deseja viver como os pobres. Esta última, com os seus múltiplos hooks que aparecem de forma sucessiva à medida que o ritmo da faixa aumenta de forma gradual, tornou-se a canção mais conhecida da banda e um dos maiores hinos do britpop, uma representação de tudo aquilo que o movimento simbolizava, a revolta dos desfavorecidos e dos outsiders perante o sistema. E os Pulp eram isso: um grupo de indivíduos que “só queriam ser diferentes” e que tinham conseguido chegar ao topo. Different Class foi um sucesso com o público e com a crítica. Atingiu o topo de vendas no Reino Unido e, no ano seguinte, os Pulp arrecadavam o seu único Mercury Music Prize.

A vida tribulada depois de Different Class

Após este disco, os Pulp, e especialmente Jarvis Cocker, tiveram algumas dificuldades em lidar com a sua nova fama. Estas serviriam de base para o próximo trabalho da banda, This is Hardcore, lançado em 1998, uma altura em que o britpop já estava a ser deixado para trás na história da música. É um disco que agarra na sonoridade de Different Class e a leva a lugares de maior experimentação e que soa muito mais sombrio (e masoquista) que os trabalhos anteriores do grupo. Os Pulp regressariam, três anos depois, com aquele que seria o seu último longa-duração, We Love Life. Ainda com a banda a sofrer com diferenças criativas que surgiram no período pós-Different Class, o disco produzido por Scott Walker trazia a banda de volta a um som mais natural e relaxado comparado com a escuridão de This Is Hardcore.

Os Pulp terminaram em 2002, mas regressariam entre 2011 e 2013 para uma tour de reunião com a formação que assinou Different Class. Entre 2002 e 2011, Jarvis Cocker lançou dois discos a solo, Jarvis e Further Complications. Mais recentemente, o músico britânico regressou aos trabalhos com o seu novo projeto, Jarv Is. A banda tem data marcada em Portugal na edição de 2021 do Vodafone Paredes de Coura, para apresentar o seu disco de estreia, Beyond the Pale (se a pandemia Covid-19 assim permitir).

Different Class não foi só o pico dos Pulp em termos de expressão artística. Ainda hoje, é um disco que continua atual no imaginário mundano que apresenta da sociedade britânica. Por onde quer que se olhe, os seus grooves transpiram britishness e, com a lírica visual que Cocker conseguia criar, é um disco que rapidamente se torna numa experiência arrebatadora sobre o que é, acima de tudo, viver. Não importa onde estamos ou a nossa posição na “hierarquia social”, todos nós passamos pelas mesmas experiências porque, acima de tudo, somos todos humanos. E não há nenhum outro disco que represente a era do britpop da forma que Different Class o faz. É um trabalho que, de facto, elevou os Pulp a uma different class comparado com os seus contemporâneos.

 

 

 

Mais Artigos
Júlia Pinheiro
Júlia Pinheiro está em isolamento e já tem substituta