Foto: página oficial de Frankie Chavez no Instagram

Frankie Chavez: “Neste último disco a ideia era experimentar um pouco de tudo”

Em entrevista ao Espalha-Factos, o músico falou-nos do seu percurso, de projetos e do setor da cultura

O Village Underground recebeu a 25 de outubro o blues de Frankie Chavez no formato com que iniciou a sua carreira. Seguem-se mais três exibições do projeto Miramar no dia 7 de novembro, em Macedo de Cavaleiros, dia 20 em Loulé, e dia 10 de dezembro na Póvoa de Varzim.

O Espalha-Factos esteve à conversa com o músico após o concerto. Frankie Chavez falou-nos do seu percurso, da experiência como compositor no Festival da Canção, da parceria com o guitarrista Pedro Peixe Cardoso e do setor da cultura.

Foto: Village Underground Lisboa
Iniciaste o teu percurso na música a tocar guitarra. O que é que te levou a escolher uma carreira como cantor?

Eu comecei mais por tocar guitarra e o meu foco sempre foi a guitarra. Comecei a aprender a tocar muito novo, para aí com nove anos e só mais tarde é que comecei a cantar. Já tinha tido bandas e já tinha tocado baixo noutras bandas mas nunca tinha sido vocalista. Depois, houve uma vez em que comecei a tocar em bares e a cantar. Eu nunca tinha cantado na vida portanto foi assim uma aprendizagem já no palco. Tocava música de bandas que eu gostava de ouvir. Na altura andava muito pelo punk rock e reggae.

Cresceste a ouvir muitos artistas diferentes, cada um com o seu próprio estilo. Consideras que isso teve influência na tua música?

Claro, influencia sempre. Uma pessoa vai aprendendo aqui e ali e isso vai moldando a tua linha. Depois quando comecei a escrever músicas… As músicas eram o resultado daquilo que eu andava a ouvir há vários anos.

E como é o teu processo criativo?

Geralmente é à guitarra. Primeiro sai qualquer coisa na guitarra e depois há muitas vezes em que, se vejo espaço para haver uma linha melódica e alguma coisa que me faça escrever sobre algum assunto, aí aparece se calhar uma letra e forma-se uma canção. Se não, há muita coisa que é instrumental.

Mas costumas inspirar-te em situações do dia-a-dia?

Sim, coisas que eu vivi, coisas que eu vi alguém perto de mim viver, coisas que vão acontecendo. Eu tenho músicas que falam de relações, tenho músicas que falam do Bataclan, tenho músicas que falam dos meus filhos…

Por falar nos teus filhos… O teu mais recente álbum, Double or Nothing, remete para o nascimento das tuas filhas gémeas. Até que ponto o facto de seres pai condiciona a tua vida de artista?

Condiciona bastante, se bem que a minha mulher é quem segura o barco quando eu estou fora. Mas condiciona sempre. Mesmo quando não estou na estrada tenho de dedicar muito tempo aos meus filhos. Eu gosto de dedicar muito tempo aos meus filhos e gosto de fazer coisas com eles. E claro, isso também me tira tempo depois para o meu processo. Se de manhã estive no estúdio, não saiu nada, e depois há tarde vou estar com eles. Só quando eu tenho mesmo de trabalhar ou tenho de apresentar alguma coisa com prazo, aí sim, desdobramo-nos.

O teu primeiro disco [Family Tree] era mais folk, o segundo era mais arrojado [Heart & Spine] e o Double or Nothing parece ter um pouco de tudo. Era essa a tua ideia?

Sim, isso também foi uma coisa muito natural, faz parte do processo de aprendizagem. Saber para que lado é que a minha música quer ir e eu ir atrás foi uma coisa que foi acontecendo. E neste último disco, Double or Nothing, a ideia era experimentar um pouco de tudo. Demorámos imenso tempo a gravar, se calhar até tempo de mais mas foi o processo. O próximo se calhar vai ser muito mais imediato porque acho que muito tempo em estúdio também é prejudicial.

Foto: Inês Cardoso
Qual é a diferença entre tocar sozinho e acompanhado? A pressão é menor? Ou já não a sentes?

Sinto, sinto. Há um ano, depois de andar a tocar há dois/três com a banda, comecei com uma vontade de voltar a tocar a solo. E olha, o Village Underground foi exemplo disso.

Em 2019 foste convidado pela RTP para participares no Festival da Canção. Compuseste um tema em português, Mundo a mudar, e convidaste os Madrepaz a interpretá-lo. Como encaras esta experiência?

Foi muita giro. Convidaram-me a mim e depois eu falei com o Pedro Puppe para escrever a letra. O  Pedro é que se lembrou dos Madrepaz porque andava a ouvi-los e tinha gostado. E depois realmente, quando conheci a banda, achei que ia dar um resultado giro. A experiência foi muito boa porque foi tudo novo, pelo menos para mim. Compor uma música que eu não ia cantar, com uma letra que não fui eu que escrevi e com outras pessoas a interpretá-la. Isso é que fez a experiência, pelo menos para mim que gosto de coisas novas.

E pensas em concorrer como cantor?

Não, isso não (risos). Acho que não tenho perfil para isso. Tinha que ser uma música muito especial.

Ao longo da tua carreira, tens dado concertos por toda a Europa. Qual o país em que sentes maior adesão por parte do público?

O país onde senti uma maior aceitação foi Itália. Eu fartei-me de tocar em Itália. Arranjei lá uma agência, um agente que é meu amigo e que me arranjou imensos concertos. Houve uma altura em que, eu acho que foi um bom trabalho dele, mas também foi uma boa receção por parte das pessoas. Eu estive por volta de dois ou três anos a fazer três tours em Itália por ano. Eu ia no verão, fazia festivais assim maiores, em setembro/outubro fazia uma tour de clubes e depois em fevereiro/março fazia outra. Andei assim durante algum tempo. Tive imensa sorte, Itália é um país brutal e eu adorei andar por lá a fazer tudo.

O teu primeiro EP foi totalmente a solo, no segundo já tiveste alguns convidados, o terceiro já foi gravado em duo. A tua família foi aumentando e tu também decidiste aumentar os músicos com quem trabalhas. Houve alguma razão para isto ou simplesmente surgiu?

(Risos) Surgiu. Primeiro tinha uma série de músicas e quando fui para estúdio apresentei-as assim como estavam, nem sabia que nome dar àquilo. O segundo, eu já estava no mundo da música e haviam bateristas com quem eu gostava de trabalhar, já tive alguns convidados. O terceiro já estava a tocar com um baterista ao vivo, que é o João Correia, que agora é o meu baterista de sempre. Aí já gravámos os dois o disco em duo, apesar de também terem havido outros convidados. Mas foi uma coisa que aconteceu porque tinha de acontecer.

Foto: página oficial do projeto ‘Miramar’ no Instagram
Estás envolvido no projeto Miramar com o Pedro Peixe Cardoso. Como é que esta iniciativa surgiu?

Este projeto apareceu porque o Pedro foi convidado pelo Vasco Durão que organiza um festival, o Guitarras ao Alto. Normalmente são dois guitarristas que tocam e o Pedro convidou-me a mim. Nós preparámos um reportório, eu lembro-me que na altura perguntei como é que ele queria fazer “tocas tu, depois toco eu?”. Ele respondeu-me que era fixe tocarmos o mais tempo possível juntos. Quando chegámos ao fim dos três dias que estivemos em Miramar, olhámos e dissemos “isto merece ser gravado”. Então fizemos os concertos, fomos para estúdio e gravámos as músicas que tínhamos preparado para esse festival. Acabou por resultar no projeto Miramar e gravámos um disco. Tem sido uma aventura fixe. Nós tínhamos uma tour, este ano, a começar em março que claro foi adiada. Por isso, os concertos estão a acontecer agora, desde setembro.

Relativamente à pandemia… Como é que encaras a situação que o setor da cultura vive atualmente?

É uma chatice. É uma chatice porque isto está a ter repercussões a vários níveis. Não falo só de músicos, falo também de malta do teatro, malta que trabalha em eventos, em concertos também. Estes todos estão sem trabalho, basicamente. Por outro lado, as pessoas que possam pensar que “a cultura é aquela coisa que está ali, quando me apetece vou, se calhar não me faz muita falta”. Epá enganam-se. Imagina que a pandemia fazia com que, para além de espetáculos, não houvessem filmes, televisão, porque isso é cultura. Não há uma música que tu ouves na rádio, não há cultura. As pessoas enlouqueciam. A cultura é uma coisa que vem desfasada do tempo, ou seja, tu crias um disco, o disco sai, e depois tu como ouvinte, podes ouvir esse disco durante anos. Às tantas se não houver um novo disco, ou se não aparecer outra banda, outro filme ou peça de teatro as coisas morrem. Não podes estar a ouvir constantemente o mesmo disco. Eu ainda oiço discos dos anos 70, mas também gosto de ouvir discos deste ano. As pessoas às vezes não dão valor a isso. Os primeiros lesados são realmente os artistas, tanto músicos como atores, mas as pessoas a longo prazo também vão ser lesadas. Se não houver cultura, as pessoas não têm entretenimento.

Não podia mesmo deixar de te fazer a próxima pergunta. A tua imagem de marca é a boina que usas sempre. Hoje por acaso estás de gorro, só para contradizer (risos). Há alguma razão para isso?

(Risos) É uma história engraçada. A boina apareceu porque o meu pai sempre usou boina. Eu às vezes até brincava com ele porque ele andava sempre de boina. Ele não a usava durante o dia por causa do trabalho. Mas durante o fim-de-semana usava-a sempre, quando ia conduzir. Eu percebi que havia ali uma relação entre ele e a boina. Acontece que, uma vez, eu estava na Austrália e encontrei uma boina que curti e comprei. A partir daí comecei a gostar de usar boina e depois comecei a gostar de tocar com boina. E pronto, acabei por adotá-la em todos os meus concertos.

Para terminar, já tens dado alguns concertos. Tens uma turné marcada para 2021. E durante os próximos meses?

Olha vou ter alguns concertos com o Miramar. Dia 7 de novembro vamos estar em Macedo de Cavaleiros, dia 20 em Loulé e dia 10 de dezembro na Póvoa de Varzim. Dia 23 de janeiro vamos estar em Ponte de Lima.

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