Ben-Hur
Fotografia: Reprodução

‘Ben-Hur’: a magia do cinema sem CGI

Há 60 anos, estreou em Portugal o bastião do cinema épico.

Ben-Hur estreou há 60 anos em Portugal. O filme foi premiado com 11 Oscars, um recorde que deteve durante 38 anos. Antes do CGI, o filme mostrou ser possível transpor para o grande ecrã o que vai na imaginação humana. Seis décadas depois, o Espalha-Factos recorda o colosso do filme do cinema épico.

O filme é um remake de um filme mudo homónimo. No entanto, teve uma produção, por parte da MGM, sem precedentes. Até à data de lançamento, foi o filme com maior orçamento, tanto para filmagens, como para publicidade. Foi publicitado como “A experiência cinematográfica de uma vida inteira“.

Um filme sem precedentes

No total, foram gastos 25 milhões de dólares em Ben-Hur. Foram repartidos equitativamente entre produção e publicidade. O filme foi produzido por Sam Zimbalist, o editor que também tinha estado por detrás de O Feiticeiro do Oz. O produtor faleceu durante as filmagens, com um ataque cardíaco. O Oscar de Melhor Filme foi-lhe entregue postumamente.

Ben-Hur Stills
Fotografia: Reprodução

William Wyler assumiu a realização do filme, para qual venceu um Oscar de Melhor Realizador. Das filmagens, Wyler recorda a dificuldade em capturar a crucificação de Cristo. “É assustador, quando todos os grande pintores dos últimos vinte séculos pintaram eventos com os quais estás a lidar, eventos da vida do homem mais famoso de sempre. Toda a gente tem a sua própria conceção dele (Cristo)“.

O filme triunfou nos Oscars nas categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Ator Principal (Charlton Heston), Melhor Ator Secundário (Hugh Griffith), Melhor design de produção, Melhor Cinematografia, Melhores Efeitos Especiais, Melhor Edição, Melhor Banda Sonora Original e Melhor Mistura de Som. O feito só foi igualado 38 anos mais tarde, com TitanicSenhor Dos Anéis: O Regresso do Rei.

O cinema épico

Em 1956, a Paramount lançou Os Dez Mandamentos (The Ten Commandments), produzido e realizado por Cecil B. DeMille. O filme foi um sucesso, faturando mais de 100 milhões de dólares, contra um orçamento de 10 milhões. Começou-se a prestar mais atenção ao cinema épico, um género que já se tinha vindo a desenvolver em décadas anteriores.

O cinema épico consiste em contar uma história centrada num herói, ou num povo. Em Ben-Hur, temos a vida de Judah Ben-Hur (Charlton Heston), um príncipe judeu que é comerciante em Jerusalém. Heston também deu pele ao protagonista em Os Dez Mandamentos. O filme é uma histórica bíblica, a jornada de um homem judeu que é guiado até à luz do Cristianismo.

No início do filme conhecemos também Massala (Jack Hawkins), um amigo de infância de Ben-Hur, que é agora um comandante romano. Fiel ao Império Romano, Massala acredita que o amigo virará costas ao povo judeu para se juntar a ele. Quando percebe que isso não vai acontecer, encontra um pretexto para prender Ben-Hur e a sua família, Miriam (Martha Scott) e Tirzah (Cathy O’Donnell), mãe e irmã, respetivamente. Começa, assim, a odisseia da personagem principal.

A corrida de cavalos

Talvez o momento mais celebrado de Ben-Hur seja a corrida de cavalos. Representa o momento em que o protagonista tem hipótese de se vingar do seu adversário, Massala.

Para além de ser uma cena emocionalmente forte, é um feito na história do cinema. No remake de 2016, a cena foi recriada com CGI. Naturalmente, não obteve a mesma receção. Em 1959, a cena foi realizada por dois realizadores diferentes, para além de William Wyler, Andrew Marton e  Yakima Canutt. O lendário realizador de westernsSergio Leone, também ajudou. A cena demorou cinco semanas a ser filmada e um ano a ser trabalhada. Foi preciso treinar cavalos e construir a arena. No total, foram gastos mais de um milhão de dólares nesta cena.

A audiência é transportada para o centro da corrida, graças aos mais variados ângulos adotados pelos quatro realizadores. A cena acaba com um acidente entre as carruagens de Messala Ben-Hur. Este momento está carregada por um simbolismo muito forte, a queda do Império Romano. Messala adorna as rodas da carruagem com um espeto para fazer descarrilar as demais. No entanto, o feitiço vira-se contra o feiticeiro: a sua carruagem acaba por se desmontar, depois de tentar tentado destruir a de Ben-Hur. Outro aspeto simbólico, é o chicotear de Messala nas costas de Ben-Hur, com o chicote que usa nos cavalos. Quando Messala é derrubado da carruagem e atropelado pelos cavalos dos restantes corredores, Ben-Hur atira o chicote para o chão, como sinal da libertação do povo judeu.

Grande parte do sucesso da cena, assim como de um filme num todo, resulta do esforço humano. A audiência, para além de ser transportada para o centro da corrida, é comovida por este esforço coletivo para transportar estas ideias para o ecrã.

Alguma sequências são replicadas do original filme mudo de 1926. Contudo, a cena não perde mérito por causa disto, porque é uma adaptação que eleva o que foi feito antes.

Ben-Hur aos olhos de 2020

Numa artigo publicado há um ano atrás, Guy Lodge, do The Guardian, demonstra alguma intolerância para com o filme.

Talvez o maior erro do filme tenha sido o brownface de Hugh Griffith, que interpreta Sheik Ilderim. Não há a presença de nenhum ator ou de nenhuma atriz negra, em qualquer momento do filme. E, como agravante, os cavalos de Messala são negros, para representar o mal.

Também é de notar algum cariz antissemita do filme, que funciona quase como propaganda de ideais cristãos. O ator Burt Lancaster recusou o papel principal, acusando o guião de ser desinteressante e somente propaganda cristã. Com efeito, o subtítulo do livro é Uma História de Cristo (A Tale of Christ).

No entanto, a influência de Ben-Hur é inegável. Sem este filme, nunca teríamos clássicos como Cleopatra, Lawrence da Arabia ou O Rei dos Reis. No cinema contemporâneo, não teríamos Gladiador, ou 300.

60 anos depois, Ben-Hur acaba por ser um lufada de ar fresco. Com a predominância do CGI nos filmes que batem agora recordes de bilheteira, como Vingadores: Endgame, é refrescante ver um filme cujo espetáculo recaiu sobre feitos humanos e não tecnológicos.

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