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‘Kill Bill’. 17 anos do expoente do cinema contemporâneo

Há 17 anos, Uma Thurman deu vida à protagonista do filme de Quentin Tarantino.

Kill Bill estreou em Portugal a 24 de outubro de 2003. Uma Thurman deu vida a uma das personagens mais emblemáticas do cinema contemporâneo, The Bride/ Beatrix Kiddo/ Black Mamba. À semelhança de Pulp Fiction, ou do mais recente Once Upon a Time… In Hollywood, o quarto filme de Quentin Tarantino é uma fusão de géneros pouco habitual no cinema de Hollywood. 17 anos depois, o Espalha-Factos recorda o filme que provou que Tarantino não foi um one-hit wonder com Pulp Fiction.

Quatro anos depois, uma ex-assassina acorda de um coma e jura vingança no grupo que a tentou matar, os Deadly Viper Assassination Squad, e no seu líder Bill (David Carradine). O grupo é constituído por Elle Driver (Daryl Hannah), Budd (Michael Madsen), Vernita Green (Vivica A. Fox), e O-Ren Ishii (Lucy Liu)

Na sua essência, o enredo de Kill Bill é muito simples.  No entanto, Quentin Tarantino mostra-nos, novamente, a sua destreza em pegar numa história simples e torná-la complexa. Apresenta-nos um vasto leque de personagens, nesta história contada em dois volumes: Crazy 88, o exército pessoal de O-Ren Ishii, Gogo Yubari (Chiaki Kuriyama), a pupila de 17 anos de O-Ren Ishii, Nikkia “Nikki” Bell (Ambrosia Kelley), filha de Vernita Green, e que poderá ser o elo de ligação para um terceiro volume da saga, e até mesmo uma adaptação do lendário ninja Hattori Hanzō(Sonny Chiba).

Um guião afiado, como uma katana

Embora o guião seja creditado a Quentin Tarantino, Uma Thurman ajudou-o a desenvolver a personagem de The Bride.

Os dois já tinham trabalhado juntos em Pulp Ficiton. Numa entrevista concedida a Charlie Rose, Tarantino contou que depois de Pulp Fiction, começou a trabalhar numa personagem que “seria perfeita” para Thurman. Depois de Tarantino lhe contar a premissa do filme, Thurman começa a elaborar o que viria a ser a cena de abertura: uma mulher coberta do sangue, num vestido de noiva.

Tal como em Pulp Fiction, Tarantino escreveu um guião rapsódico, com vários saltos temporais. The Bride é-nos apresentada numa luta com Vernita Green, no entanto, cronologicamente, a cena deveria estar situada no final do filme. Tarantino introduz-nos a alguns elementos que iriam dominar os seus filmes no futuro: close-ups, privar a audiência de saber alguns detalhes sobre as personagens, por exemplo, o verdadeiro nome de The Bride é censurado ao longo do filme, mas oferecer toda a informação sobre outras personagens, como o passado de O-Ren Ishii. 

Com Jackie BrownReservoir Dogs, Tarantino mostrou a sua habilidade de construir um filme baseado no diálogo. Em Kill Bill, Tarantino demonstra que também consegue escrever longas cenas de ação. A luta entre The Bride e os Crazy 88 é a espinha dorsal do filme, um banho de sangue incrivelmente bem realizado e escrito, que deixou gerações de fãs boquiabertas e perguntar “como é que ele fez aquilo?“. Tudo isto aliado à entrega total de dezenas de atores americanos e japoneses a este projeto, que cruzou várias culturas cinematográficas. O resultado foi o maior êxito de bilheteira de Tarantino, até à data da sua estreia.

Uma Thurman e Quentin Tarantino durante as filmagens de ‘Kill Bill’.

Uma fusão de géneros e uma banda-sonora escolhida a dedo

Once Upon a Time… In Hollywood conteve demasiadas referências a várias culturas cinematográficas diferentes. Quentin Tarantino tem um conhecimento sobrenatural sobre cinema, o que se tornou numa das suas imagens de marca. No entanto, o realizador não se limita a fazer referência aos filmes que o influenciaram, ele “rouba” elementos de outros argumentos.

Nas suas próprias palavras, “os grandes artistas roubam. Não fazem homenagens“. Esta frase também é roubada, terá sido dita por Picasso, “bons artistas copiam. Os grandes artistas copiam“.

Em Kill Bill, vemos réplicas exatas de filmes como Samurai FictionGame of Death. O filme também partilha algumas parecenças com Lady Snowblood. No entanto, Tarantino consegue criar algo totalmente novo em volta dos seus artefactos roubados. Vem daí o orgulho em confessar o furto, porque existem inúmeros elementos originais, que só podiam ter sido escritos por ele.

No seu quarto filme, o realizador consegue juntar elementos de várias culturas cinematográficas diferentes, através da banda sonora, principalmente. Contudo, ele está a roubar, novamente, pois não compôs nenhuma das faixas. Por exemplo, Tarantino usou a música ‘Please Don’t Let Me Be Misunderstood’, uma canção americana. No entanto, não foi buscar a versão original, de Nina Simone, mas sim de Santa Esmeralda, um grupo disco espanhol, que fizeram um arranjo flamengo da música. Com isto,  Tarantino conseguiu trazer para o seu filme um cruzamento da cultural americana com a cultura flamenga. Usa um rol de faixas para fazer o mesmo. Num filme que recai sobre a figura do ninja, Tarantino escolhe faixas como Bang Bang (My Baby Shot me Down), That Cetain Female, ou a voz do rapper americano RZA. Tarantino também vai buscar elementos musicais que seriam encontrados num Spaghetti Western, como Run Faye Run.

É impossível esquecer a “música do assobio”, ‘Twisted Nerve’, composto por Bernard Herrman, para o filme homónimo. Tarantino também popularizou ‘Battle Without Honor Or Humanity’, um tema composto por Tomoyasu Hotei, e que se tornou indispensável nos filmes de ação dos anos 2000.

Kill Bill é um versão americanizada do cinema de ação de Hong-Kong e do Japão. Tal como os próprios Estados Unidos da América em si, é um melting pot de várias culturas. O seu sucesso reside em ser um filme original, mas que não se isolou do mundo em seu redor e que não teve medo de assumir as suas influências.

Críticas polarizadas

O filme foi bem recebido nos Estados Unidos, sendo que a nostalgia de Tarantino foi o aspeto mais comentado pela crítica. No New York Times, A. O. Scott escreveu que Tarantino é “um cinéfilo ousado, e que o seu entusiasmo sincero confere a este espetáculo desalinhado uma integridade fervilhante e estranha“. No Los Angeles Times, Manohla Davis reconhece a homenagem de Tarantino ao cinema pré-secularizado.

Em Portugal, a crítica não chegou a um consenso. Vasco Câmara, editor do Ípsilon, deu uma classificação de cinco estrelas ao filme.Kill Bill é o filme mais sensual de Tarantino. Aquele em que, pela primeira vez, o realizador americano explicita a relação erótica e mortífera que resulta das manobras do olhar. É uma verdadeira experiência para os sentidos – visual e sonora, e sem os famosos diálogos e trocas de informação sobre a pop culture que fizeram a marca de QT. E assim o espectador também fica de olhos abertos.” No entanto, Kathleen Gomes e Luís Miguel Oliveira ficaram-se pelas três estrelas.

O filme não recebeu nenhuma nomeação para Oscar, mas Uma Thurman foi nomeada para um Globo de Ouro para Melhor Atriz principal, e para um Prémio BAFTA na mesma categoria.

Kill Bill introduziu um género esquecido a uma geração de cinéfilos mais jovem. Nunca foi tão fácil aceder a filmes e nunca foi tão fácil saber “o que vale a pena ver”.

Tarantino não frequentou um curso de cinema, mas foi sim um funcionário num videoclube, onde se destacou por ter um conhecimento enciclopédico. Ou seja, era um IMDb humano, com a sua própria lista dos 250 melhores filmes de sempre. Portanto, no seu trabalho, vemos a passagem deste conhecimento para a audiência.

Ao ver Kill Bill, 17 anos depois, estamos a ver o resultado de um jovem que se instruiu sozinho, pois não tinha acesso às ferramentas que temos agora, para descobrir o que “vale a pena ver”. Uma herança de um tempo perdido, em que se viam cassetes VHS por gosto, não por estar na moda, por curiosidade, não porque lemos “que era bom”. Talvez seja esta a grande lição de Tarantino, sermos cinéfilos incansáveis que se pautam por uma paixão irredutível pelo cinema.

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