Joey Grand Army
Fotografia: Divulgação

Grand Army: Não é não. O retrato necessário da violação

Joey DeMarco (Odessa A’zion), estudante no liceu de Grand Army, em Brooklyn, exala confiança. Não sabemos bem se é a câmara que está apaixonada por ela ou se somos nós; a seguir cada movimento, o olhar brilhante, a autodeterminação pulsante, os lábios vermelhos, sempre com a palavra certa, de coração ao pé da boca.

Atrevida, obstinada e corajosa, reúne todos os atributos necessários para protagonizar um drama adolescente. No entanto, há aqui mais drama, e mais sério, do que é costume.

Joey, essa força da natureza, é o produto de uma bolha de privilégio. Não tem medo de nada, porque nunca precisou de ter – até agora, o mundo sempre lhe pareceu um lugar que ia conquistar naturalmente. Provocadora, não tem medo de mostrar o quão desejável é. Luta por todas as causas, como aliada presente e permanente, mas tudo aquilo que sabe que acontece num mundo que não é igual para homens e mulheres, nunca lhe aconteceu a ela.

A partir daqui, o artigo contém spoilers relativos aos acontecimentos a partir do episódio 3 da primeira temporada.

Vê-se como one of the boys, mas para o espectador torna-se claro, a certa altura, que no fundo não o é. E aquela rede de segurança, dos amigos de infância, de quem sempre gostou, que a acompanham para qualquer lado, estava afinal furada. Os homens heterossexuais e brancos que a rodeiam, os verdadeiros donos do privilégio, falsos aliados da sua causa feminista de autodeterminação sexual, no fundo descrevem-na como “oferecida”, como um mero objeto do seu próprio desejo, arremessando-a entre si em disputas de masculinidade frágil.

Free The Nipple Grand Army
Luke, Tim e George mostram ser falsos aliados da causa feminista defendida por Joey apenas para conseguirem estar perto dela. (Fotografia: Divulgação)

Quando Tim (Thelonius Serrell-Freed) começa a desenvolver uma relação romântica com Joey, George (Anthony Ippolito) e Luke (Brian Altemus) rapidamente o convencem de que ela é slutty.Ela é capaz de fazer tudo… tu sabes como ela é“, afirmam a certa altura, dando gás aos ciúmes e possessividade de Tim.

E, de repente, começa a formar-se o cocktail de culpabilização. Engenho narrativo sábio, Grand Army coloca-nos a ver o lado de Tim, apaixonado e com dificuldades em lidar com a maneira de estar desinibida da amada. E, por momentos pensamos que “ela também não precisava ser assim“.

Quando Tim tenta controlá-la, pará-la e prendê-la, ela relembra-o da sua independência, beijando os amigos enquanto brinca com um vibrador, bebe e fuma. Os amigos de sempre, a rede de confiança, a zona de conforto. E parece que estamos a ouvir a caixa de comentários do Facebook a ressoar nas nossas cabeças – “e o que é que ela queria, com esta atitude?“.

O que começa com uns beijos acaba com George e Luke a apalpá-la e a tocá-la violentamente, mesmo quando ela implora, em choro, para que parem. Tim, impávido, paralisado, assiste a tudo sem fazer nada. Depois, os três abandonam-na na parte de trás do mesmo táxi em que iam. Ela com feridas físicas e psicológicas e a sangrar. Eles leves, ligeiros e sem remorsos.

“Boys will be boys”

A linha do consentimento é ultrapassada, e isso é claro para espectadores com empatia e esclarecimento, mas a série é extremamente hábil a mostrar como os limites podem tornar-se “flexíveis” numa cultura patriarcal. Os rapazes, criados neste mundo, veem como dado adquirido o direito que tiveram a explorar e aproveitar o momento para usufruir daquela mulher. Isto tudo enquanto faziam vídeos para as redes sociais, exibindo Joey como prémio. A escola, a sociedade, rapidamente a colocaram como uma ordinária e uma puta. Os rapazes foram só rapazes.Fizeram o que tinham a fazer“, e quando são chamados a responder pelas acusações, a escola de Grand Army vê em choque a detenção, rotula a vítima de histérica. A própria Anna (Sydney Meyer), também amiga de infância de Joey, não hesita em acusá-la e condená-la sumariamente.

Somos confrontados com a nuance que, noutras narrativas, faz falta. Esta mulher não é um agente passivo, não é aquilo que comummente se vê como “inocente” ou “pobre coitada”. E é por isso que este relato é necessário. Porque um beijo não é uma carta branca para o sexo, porque o facto de uma mulher manusear um brinquedo sexual não nos dá um passe para tocá-la, porque o consentimento tem obrigatoriamente de existir e ser claro quando estamos sob o efeito de substâncias.

Joey Grand Army
Fotografia: Divulgação

Contrariamente ao que acontece com Hannah Baker na congénere 13 Reasons Why, série que junta em partes iguais o choque e o maniqueísmo, Joey não é violada por um atleta presunçoso que ofende toda a gente. Também não o é por um homem mais velho e poderoso, nem por um predador aleatório. É agredida, sem misericórdia, pelos seus próprios amigos, por aqueles que julgava serem os seus mais fiéis e íntimos. Não há reduto que sobre a esta profanação.

Joey vê rebentar a bolha onde viveu até aqui. O mesmo mundo injusto e duro contra o qual combate, também é o mundo em que ela própria vive.

Será um erro acharmos que Grand Army é só mais uma série de adolescentes. Se olharmos com atenção, há aqui, nestes episódios, várias histórias que não têm sido contadas por outros. Pelo menos não assim, com um olhar tão desprendido das velhas fórmulas de heróis, donzelas e mauzões.

 

Mais Artigos
Júlio Isidro
Júlio Isidro confirma que está infetado com Covid-19