'Borat 2' é o novo triunfo de Sacha Baron Cohen, apresentando-se ao nível do primeiro filme.
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Crítica. ‘Borat 2’ de Sacha Baron Cohen é das coisas mais fascinantes do ano

O filme está disponível na plataforma de streaming da Amazon Prime.

A comédia em cinema baseia-se normalmente em eventos reais ou próximos da realidade, mas distorcidos e exagerados pela ficção, para nos podermos rir deles. Sacha Baron Cohen faz algo mais complicado (e perigoso) que é construir um produto humorístico, e uma personagem, neste caso em Borat 2, e trazê-la para o mundo das pessoas reais, em situações sem texto e guião, adicionando um traço de imprevisibilidade aos seus filmes pouco visto noutros títulos do género.

Há 14 anos estreava Borat, em que Sacha Baron interpretava a personagem principal, com o mesmo nome do título, um jornalista do Cazaquistão, enviado para a América pelo governo para fazer um documentário sobre o país norte-americano e a cultura daquela população.

Borat interagia com pessoas verdadeiras, fora do elenco normal do filme, em situações tanto hilariantes quanto vergonhosas, especialmente para quem aparecia inusitadamente na história. O objetivo, tão bem conseguido, e que tornou Borat num dos clássicos intemporais de comédia do século, era mostrar-nos que o fantasma do racismo e misoginia americana ainda pairava no ar, apesar de parecer estar adormecido.

Aliás, esta dormência do pior lado da essência humana é transversal a outros países. Descobriu-se, nos últimos anos, que parte da nova geração do povo alemão não tinha aprendido sobre o Holocausto nas escolas. Borat, na América da altura, teve facilidade em criar situações desconcertantes que lhe permitiram expor o racismo, a homofobia, o antissemitismo e xenofobia que está ainda bem presente nos norte-americanos.

É, por isso, uma história sem ano e tempo específico porque, olhando para a América em 2020, percebe-se que se trata de uma civilização muito mais degradada socialmente que em 2006. Tudo o que ali vemos sobreviveu ao testemunho do tempo, contribuindo para a tal intemporalidade de Borat.

Borat 2 e a América dos dias de hoje

Estamos em outubro de 2020, os Estados Unidos contam com mais de 200 mil mortos devido à Covid-19, em vésperas das eleições mais importantes da história da democracia norte-americana, e Cohen decidiu desenterrar o esqueleto do seu Borat, numa sequela arriscada, é certo, mas totalmente bem-sucedida. É arriscada porque se torna quase inglório tentar comparar este seguimento com o original.

O fator surpresa desvaneceu-se, é certo, a audiência já está meio que à espera do que vai ver em Borat 2, a personagem já nos é familiar. O sucesso de Sacha torna-se ainda maior por causa disto mesmo, por ter tentado (e conseguido) criar novos truques na manga, para surpreender o espectador e apanhá-lo desprevenido.

O objetivo do segundo filme acaba por ser o mesmo que o primeiro, tratando-se de uma tentativa de desmascarar o pior lado dos norte-americanos e o argumento, escrito por oito pessoas, incluindo Cohen, volta a girar em torno de Borat, encarregado desta vez pelo governo para entregar um presente ao vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, para que o país volte a recuperar a simpatia da potência mundial, principalmente de Trump, depois de o primeiro documentário de Borat apenas ter trazido vergonha para o seu país de origem.

Sacha Baron Cohen continua a interpretar Borat de forma impressionante.
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O primeiro obstáculo da sequela, bem superado por sinal, tem que ver com o magistral sucesso do primeiro filme. Desde 2006 que quase toda a gente conhece Borat e a sua aparência singela, tanto que o próprio filme demonstra isso mesmo, quando a personagem interpretada por Cohen passeia pela rua e várias são as pessoas anónimas a reconhecê-lo, não caindo nas manhas do jornalista. Esta dificuldade vem só aumentar a qualidade da interpretação de Cohen, que teve de criar mais disfarces, passando a interpretar outras personagens dentro da própria personagem de Borat. A missão era complicada, mas foi cumprida com distinção.

Se a própria personagem ganhou uma densidade refrescante, a história, com a inclusão da filha de Borat, Tutar (Maria Bakalova) ganhou um arco emocional curioso, que permite balancear o horror do humor proveniente do choque do jornalista com o mundo real e uma sensibilidade pouco vista na primeira incursão de Borat, em 2006. O argumento deixa tanto de depender de situações insólitas improvisadas, apesar de estas continuarem a estar presentes, bem na linha do primeiro filme, para passar a ganhar uma base narrativa que dá outra consistência àquilo que estamos a assistir.

A inclusão de Tutar explica-se facilmente: Borat quando regressa ao Cazaquistão, no fim dos eventos do primeiro filme, descobre que outro homem se apropriou de todas as suas posses e famílias, ficando só com a dita filha, Tutar. Na versão do país imaginada por Cohen, as filhas não podem ter qualquer tipo de carinho por parte dos pais, sendo que o seu plano é abandoná-la e cumprir a missão dada pelo governo, que é ir para os Estados Unidos. Mas Tutar consegue infiltrar-se na caixa onde vai o presente para Pence e lá se junta a Borat, conquistando-o devagarinho.

O casting de Maria Bakalova parece escolhido a dedo, porque forma uma verdadeira dupla com Borat, chegando ao patamar das expressões de Cohen, tão características da personagem. Outra vitória de Borat 2 é a forma como descola da personagem principal, sem que isso pareça forçado, muito por culpa da inclusão de Tutar.

Muitos são os filmes ou séries que, dando um foco a outras personagens que não a principal, perdem o fôlego por não gerar no espectador a atenção e curiosidade para seguirmos as suas jornadas, mas Borat 2 não se torna cansativo quando investe parte do seu tempo mostrando Tutar a descobrir o mundo por si própria, longe das mentiras do pai, que incluem o “facto” de as mulheres não se poderem masturbar porque se não a vagina morde-as.

Quando a realidade é mais assustadora que a ficção

O ingrediente mais viral do primeiro Borat, os momentos de improviso em situações a envolver situações ditas reais, está igualmente presente em força. Se em 2006 era preciso fazer uma espécie de “jogo de anca” para revelar o pior lado do ser humano, em 2020 as pessoas parece que assumiram a postura de espécie de livro aberto, no que toca a exibir o seu racismo e xenofobia, não fosse o ódio provocado e alimentado pela administração de Trump nos últimos quatro anos de liderança.

Apesar do fator surpresa não estar tão presente, o que é triste, porque significa que o mundo está pior e mais tenebroso que há 14 anos atrás, o filme permite-nos rir da desgraça e do quão chocante é aquilo que estamos a presenciar, ainda mais pelo facto de a maior parte dos intervenientes serem “reais”. De regresso está também a busca pelo antissemitismo ainda presente dos tempos da Segunda Guerra Mundial, em que vemos indivíduos brancos, mesmo sabendo da presença da câmara, a destilar ódio de forma gratuita, tal é a naturalidade com que aquilo lhes sai da boca.

Porém, vivemos noutra era, e agora há também críticas ao Facebook e à forma como Mark Zuckerberg se recusa a filtrar as fake news, numa cena em que a personagem interpretada por Balakov diz, para horror de Borat, que acredita que o Holocausto não existiu, porque leu um artigo de opinião no Facebook que dizia isso mesmo. Esta é, aliás, uma luta pessoal de Cohen enquanto ativista, contra as fake news e o perigo que elas constituem na desinformação de uma população menos informada, e as tiradas políticas integram-se na história conseguindo fazer mossa valente.

Borat funciona bem por alguns motivos específicos: primeiro porque estamos habituados a rir-nos de coisas que, vistas no grande ecrã, são uma antítese daquilo que nós somos. Facilmente Cohen nos arranca gargalhadas, e alguma incredulidade (se estivermos do lado certo da questão), quando a sua personagem se infiltra, para fazer a quarentena, junto de uma dupla de seguidores da QAnon, uma teoria da conspiração montada pela extrema-direita norte-americana, que acusa os democratas de criarem uma campanha sangrenta – para além de, supostamente, pertencerem a um culto de canibais – contra Trump e de defenderem, nos dias de hoje, que a Covid-19 foi criada pela China, não se tratando de um mero acidente.

Borat 2 retrata a assustadora realidade que se instalou nos dias de hoje.
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Não se torna surpreendente igualmente o momento em que os dois crentes da QAnon aceitam, sem colocar entraves, ajudar Borat a oferecer a filha e a torná-la uma escrava sexual de um republicano, neste caso Pence. Cohen explora bem o outro lado da barricada, e termina o filme pedindo aos americanos para que votem nas eleições de novembro. É como se o ator nos estivesse a mostrar tudo o que de mau há no mundo e nos estivesse a questionar ‘é mesmo isto que querem?’, caso ainda exista alguém a pensar votar em Trump.

Tanta coisa aconteceu durante este ano e a surpresa com a existência deste tipo de gente já é menor, mas o choque continua bem presente. Aliás, só se sente atacado quem vê o filme e tem a sensação de que se está a ver ao espelho. De resto, o timing de comédia de Cohen é impecável, certeiro e necessário. É comédia bem feita, corajosa, sem medo de apontar dedos e colocar os pontos nos is, deixando tudo o que a rodeia em polvorosa.

Borat 2 é Sacha Baron Cohen no seu melhor

O filme está recheado de momentos inusitados, quase a parecer ficção, de tão longe que parecem daquilo a que assistismos na “nossa realidade civilizada”. Temos uma influencer digital a dizer que a mulher tem de se rebaixar perante o companheiro, um cirurgião plástico a confidenciar que assediaria a filha de 15 anos de Borat caso o pai não estivesse presente, uma trabalhadora de uma pastelaria a não se revoltar quando Borat lhe pede para escrever algo como ‘os judeus não voltarão ao poder’ num bolo.

Há igualmente, por exemplo, uma mulher a vender um vestido que, supostamente, simboliza “no means yes”, um momento que é mais uma farpa de Cohen, neste caso a políticos e homens do século XXI que ainda não percebem os fundamentos mais básicos do que significa consentimento numa relação sexual.

As aventuras em que Sacha Baron se coloca levam-nos até a temer pela segurança do ator e restante equipa de produção, principalmente quando irrompe num comício republicano, cheio de supremacistas brancos, armados, numa manifestação contra o uso de máscaras (que, adivinhe-se, aconteceu também aqui em Portugal). Esta sensação de risco e de sabermos que, a qualquer momento, algo pode correr mal, traz a já citada imprevisibilidade cativante.

Mas, para além da história a envolver a filha, que proporcionará alguns momentos emocionais no final, existem também outras cenas luminosas, em que Cohen nos mostra que ainda existe alguma esperança no mundo, em que se incluem a aparição de uma senhora judaica e uma babysitter contratada.

Há dias em que parece que não, mas haverá, de certeza, algum tipo de salvação. Há gente a praticar o bem, a partilhar humanidade, empatia e estima pelo próximo. E Borat 2 oferece-nos esse vislumbre, não caindo na tentação de ser apenas mais um retrato demasiado negativo dos nossos dias, que nos deixaria ainda mais angustiados do que já andamos no nosso dia-a-dia.

O momento mais tenso é, claro, quando a filha de Borat vai entrevistar Rudy Giuliani, antigo mayor de Nova Iorque e advogado de Trump. Apesar de as imagens, pouco simpáticas e comprometedoras para o (nojento) indivíduo estarem a correr mundo, não se entrará aqui em detalhe. O engenho é de tal forma arriscado que Sacha sai da personagem de forma breve, quando pai e filha saem a fugir do edifício, soltando um “esta foi por pouco”. Há poucos artistas a arriscarem a vida como Cohen pela arte e, na sequela, para deixar uma mensagem política notável, mesmo que corra perigo a fazê-lo.

Estamos com Sacha Cohen e estamos bem acompanhados

A crítica maior que se pode apontar a Borat 2 envolve o facto de o primeiro filme ser intemporal por não retratar nada de muito específico ou que seja datado no tempo. Este segundo filme está mais preso aos dias de hoje, com referências a Kevin Spacey, à pandemia, a Biden, ao Facebook e às fake news. Se tudo correr bem, por exemplo, Trump sairá do poleiro e deixará de figurar nos destaques.

Borat continua a ser de visualização obrigatória, mesmo que tenham passado 14 anos. Com Borat 2 será mais complicado de isso acontecer, porque a maior parte dos temas tratados já estarão mais gastos e menos em voga. Porém, o novo filme de Sacha Baron é o filme certo para 2020, oferecendo-nos um recanto onde nos podemos rir e esquecer o estado de um mundo que está, perigosamente, a rolar para um futuro incerto. O novo filme de Cohen troca a intemporalidade pela urgência temática, sendo uma troca imensamente bem sucedida.

Ricardo Araújo Pereira (RAP), quando confrontado sobre se o humor tem influência na política, dá uma resposta negativa à questão, socorrendo-se das eleições norte-americanas de 2016, em que houve um achincalhamento coletivo a Trump, de todas as camadas humorísticas do país, mas que, mesmo assim, não teve o desfecho desejado. O humorista português tem-nos vindo a dizer que o humor serve apenas para rir e pouco mais. RAP estará só a ser humilde e a menosprezar o valor e importância do seu trabalho, um escudo que usa ao longo dos anos. O humor não venceu as eleições, simplesmente porque Hillary Clinton era uma candidata menos inspirada que Biden e, para além disso, a comédia não tem ainda produção legislativa, não consegue mudar o sistema eleitoral arcaico dos EUA.

Não deixa de ser por isso que filmes como Borat 2 são tão importantes. Sacha Baron Cohen não terá a expectativa que a sua obra ajude a vencer as eleições, mas as suas alfinetadas políticas, o seu compasso moral (bem vincado na sequela) e os vilões que consegue desmascarar e deixar à tona de água, não conseguem deixar ninguém indiferente, sendo um excelente guia para quem ainda esteja indeciso. Para além disso, o humor de Borat funciona pela malvadez característica das pessoas representadas na produção. Se não existissem republicanos antissemitas em 2020, que acreditam que Hillary Clinton bebe o sangue das crianças, se Trump não fosse presidente, o filme não teria metade da piada que efetivamente possui.

Facilmente trocaríamos Borat 2 por um mundo sem pandemia, sem governos irresponsáveis no combate à pandemia, sem xenofobia, racismo, patriarcado, supremacia branca e sem Trump. Mas, havendo tudo isto, para mal dos nossos pecados, resta-nos rir descomunalmente à boleia de Sacha Baron Cohen e do seu Borat 2, mas também da estupidez humana espelhada no filme, incapaz de ter um pingo de empatia. Estamos com Cohen e estamos bem acompanhados. Borat 2 sai mais que recomendado, à espera de um mundo melhor.

'Borat 2' é o novo triunfo de Sacha Baron Cohen, apresentando-se ao nível do primeiro filme.
8.5

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