Anya Taylor-Joy em Gambito de Dama
Fotografia: Phil Bray/Netflix

Crítica. ‘Gambito de Dama’ é uma série arrebatadora

Gambito de Dama chega esta sexta-feira (23) à Netflix e promete voltar a fazer do xadrez moda em 2020. A minissérie protagonizada por Anya Taylor-Joy é das melhores deste ano da plataforma de streaming.

É difícil encontrar falhas nesta nova minissérie de época. Desde a lealdade à obra de base, à incrível realização e excelente argumento, passando ainda pela prestação dos atores, Gambito de Dama não desilude. Pelo contrário, surpreende-nos e deixa-nos com uma sensação de arrebatamento quando terminamos os sete episódios.

A história é inspiradora, mas realista. Uma jovem chamada Beth Harmon fica subitamente órfã após a mãe ter um acidente de carro. A sua infância torna-se ainda mais conturbada e desafiante do que já era — quando vivia com uma mãe instável — e Beth refugia-se no xadrez. Este jogo torna-se no seu “mundo de 64 quadrados”, uma paixão, uma forma de escapar à fria realidade.

Aos oito anos, aprende a jogar com um funcionário do orfanato que, rapidamente, percebe estar perante um prodígio. Beth passa as noites a pensar em jogadas de xadrez, ao imaginar o tabuleiro no tecto, e os dias a ler sobre o jogo. Apesar desta paixão e de ser uma excelente jogadora, é impedida de continuar a praticar após um incidente no orfanato. O vício mostra-se, desde a infância, como um grande obstáculo na vida e no jogo de Beth.

Anya Taylor-Joy em Gambito de Dama
Beth vai ter de lutar contra o alcoolismo e o vício em narcóticos. Fotografia: Phil Bray/Netflix

Primeiro são os comprimidos calmantes, depois o álcool. O seu génio é constantemente desafiado por estes demónios bem reais. Quando consegue escapar do orfanato, ao ser adotada, tudo parece estar prestes a mudar. Retoma os jogos e o estudo do xadrez e começa finalmente a participar em torneios e campeonatos. E quando Beth começa nada consegue pará-la.

Gambito de Dama segue a vida desta jovem rapariga e mostra os altos e baixos da genialidade e do sucesso, com os anos 60 como pano de fundo. Numa América em plena Guerra Fria, o campeonato de xadrez em Moscovo tem muita importância não só para Beth, mas também para o Governo. Mas Harmon é realmente apaixonada pelo xadrez, e não se deixa influenciar por ninguém.

Uma excelente adaptação

A minissérie baseia-se no romance de Walter Tevis, escrito em 1983, e faz um ótimo trabalho de adaptação. Muitos dos diálogos são retirados diretamente do livro, tal como as incríveis jogadas de xadrez. Os criadores Scott Frank e Allan Scott foram ainda capazes de dar mais dimensão a todas as personagens ao introduzir novas cenas e temas. Por exemplo, a mãe de Beth torna-se central para compreendermos o passado da órfã, através de flashbacks.

A banda sonora e as cores escolhidas acompanham muito bem a história, alternando entre vibrantes e apagadas em cada momento crucial. O ritmo da série também é adequado, sem nunca ser demasiado lento, e acelerando exatamente quando é necessário.

Anya Taylor-Joy prova mais uma vez que devemos prestar-lhe atenção. A sua prestação é infalível e cativante, e melhora a cada episódio, à medida que a personagem cresce e se transforma perante os nossos olhos.

A igualdade do xadrez

Jogo de xadrez em Gambito de Dama
Fotografia: Phil Bray/Netflix

A série também nos faz pensar sobre a importância da igualdade. O xadrez é um jogo onde ambos os oponentes são vistos como iguais e isto traduz-se muito bem na narrativa, ainda que um esteja sempre a tentar colocar o outro em desvantagem.

Algumas questões parecem levantar-se à medida que a história se desenrola. Para quê colocar mulheres a jogar xadrez umas com as outras quando homens e mulheres podem jogar juntos? E será assim tão importante que Beth seja uma mulher? Não devíamos apenas prestar atenção à sua táctica, como faríamos com qualquer outro jogador? O excecional deve ser celebrado, mas talvez não seja assim tão excecional quanto isso, e se houvesse uma maior igualdade de oportunidades mais pequenas Beths poderiam mostrar o que valem.

Numa entrevista ao Observer, Anya Taylor-Joy classificou a sua personagem como uma feminista muito comum, como muitas pessoas são quase sem saber. Para a atriz, isso acontece apenas porque Beth não deixa que nada a impeça de fazer aquilo que quer, não vê obstáculos — mesmo que existam — e segue sempre os seus sonhos.

Gambito de Dama faz-nos ver a beleza do xadrez e sentir a sua energia. Ficamos hipnotizados por cada jogada e por cada movimento. Sabemos de que lado estamos e esperamos que Beth vença — não só no campeonato de xadrez, mas sobretudo que vença todos os demónios que a atormentam.

A minissérie de sete episódios estreia-se a 23 de outubro na Netflix e é uma das melhores produções limitadas do ano, ao lado de Unorthodox.

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