Fábia Maia/ Imagem: Instagram
Fábia Maia. Imagem: Instagram

Fábia Maia: “A música, no fundo, é a forma de me curar”

Em entrevista ao Espalha-Factos, Fábia Maia falou-nos da sua carreira, do propósito da sua música e da indústria musical em Portugal.

Fábia Maia atuou no passado domingo (18) no Village Underground. O Espalha-Factos esteve à conversa com a artista sobre a sua carreira, o propósito da sua música, os seus planos para o futuro e a indústria da música em Portugal. 

Fábia Maia ficou conhecida em 2014 graças às suas versões acústicas de músicas de hip-hop nacional que publicava no Youtube. Atualmente, é uma das poucas vozes femininas em Portugal a dar cartas no R&B e Soul. Em 2017, lançou o seu EP de estreia, Melodia-me e, em 2019, lançou vários temas soltos como ‘BarcelonaParis’, ‘My Baby’, ‘A Vibe Certa’ e ‘#nemsei’. Este ano, conta lançar o EP Santiago, do qual farão parte quatro novos temas.

Village Underground

Fazias versões acústicas de músicas de hip-hop nacional no Youtube. Como é que isso surgiu?

Surgiu através de um desgosto amoroso! Eu não consumia hip-hop na altura, mas a pessoa que estava comigo ouvia muito Allen Halloween, Valete, Regula e Bezegol. Essa pessoa costumava dizer-me “Tu ainda vais ser ouvinte de hip-hop e passado um ano ou dois eu comecei a ouvir, mas a consumir mesmo muito, este estilo musical. Depois, um amigo meu, um dia, ouviu-me a tocar, a fazer uns sonzinhos ou seja, a cantar música de rap em forma de melodia e disse-me “Fábia, se tu não puseres isso no Youtube, ponho eu!”. Na altura, o Youtube não era a máquina que é hoje, e eu respondi-lhe “Também, se é para publicares tu, publico eu!”. Assim fiz, e na semana seguinte fui bombardeada com mensagens, inclusive do Allen Halloween, que me disse que eu era uma artista e que tinha sido lindo aquilo que eu tinha feito, e do Valete, que me convidou para ir cantar com ele quando ele foi ao Norte, e assim fiz.

Rapidamente passaste dos covers a escrever as tuas letras. Como foi esse processo?

Desde pequena que gosto muito de escrita. O meu avô era escritor, foi nomeado pelo jornal do Partido Comunista como escritor do ano, a minha mãe também escreve muito mas, ao contrário de mim, não partilha o que escreve. Por isso, penso que a escrita e aquela introspeção é de família. E tudo começou assim, já tinha muita coisa escrita e fui adaptando ao que estava a viver na altura.

A música é uma forma de libertação para ti?

Sim, é!

Recebeste o convite, em 2015, para o Festival Rimas e Batidas. Como foi esse momento?

Foi a primeira vez que atuei ao vivo e aconteceram coisas muito bonitas! Foi o único concerto que a minha mãe foi ver até agora, e eu estava fascinada pelo facto de quinze pessoas terem pago dez paus para me ver. Lembro-me de estar nas escadas do Cinema São Jorge e do Rui Miguel Abreu, organizador do festival, me dizer “Foi dos melhores concertos que eu vi na minha vida, só uma rapariga e uma guitarra”. Outra coisa que também me marcou foi uma conversa com o Slow J. Ele disse-me, com a sua voz de jazz, “Sou muito teu fã, não sei qual de nós dois vai chegar primeiro, mas sei que vamos chegar os dois”. Eu fiquei muito envergonhada porque, na altura, já ouvia a música dele. Estas são as coisas que eu gravo do primeiro Festival Rimas e Batidas

O teu EP de estreia, Melodia-me, lançado em 2017, foi uma colaboração com  Slow J, um dos nomes fortes do hip-hop nacional. O que achas que essa colaboração te trouxe?

Esse EP ia ser um álbum, esteve gravado e guardado durante, seguramente, três anos. Portanto, teve um delay enorme quando saiu, eu já não me identificava com ele na totalidade. As duas únicas músicas que ainda toco são o ‘Melodia-me’, porque me vou sempre identificar com o Slow J e com o tipo de artistas como ele, e o ‘Mama diz’, que eu escrevi para a minha mãe.

E porque é que demorou três anos a sair?

Porque eu estava iludida! Comecei a perceber muito tarde – quando digo muito tarde é com um atraso de quatro ou cinco anos depois do tempo das covers – que, quando alguém brilha um bocadinho, tens de ter cuidado com as pessoas que te rodeiam, porque algumas pessoas vão iludir-te e fazer-te esperar. Mas eu aceitei esse tipo de espera e era aconselhada a fazer mais covers em vez de fazer os meus originais, o que fez com que entrasse num processo de achar que ninguém me queria ouvir – apesar de achar que todos os artistas passam por isto, mais do que uma vez na carreira.

O que mudou na tua vida após esse EP?

Esse EP serviu para perceber que eu não posso deixar que a minha música fique nas mãos e no conselho de outras pessoas. Eu devo ouvir os conselhos daqueles que são honestos e esses, muitas vezes, não são aqueles que estão mais perto de nós.

Tens alguma formação musical?

Vou ser muito honesta, eu não sei ler música. Estive numa escola de música porque a minha avó cismou que queria que eu fosse artista – e ainda bem – e pagou-me as aulas de música. Fui aprender guitarra [mas] a parte teórica interessava-me menos. Fazia um choradinho ao professor para ele tocar guitarra, eu ouvia, aquilo entrava e eu fazia tudo de ouvido. Graças a isso, tenho a facilidade de ouvir e encaixar qualquer música. A minha formação musical é muito pequena, não posso dizer que sou um Jimmy Hendrix.

Quem são as tuas influências musicais e artísticas?

Erycah Badu é uma delas. A Lauryn Hill, sem dúvida. No Miseducation, foi a primeira mulher a fazer uma fusão entre o hip-hop e soul e eu fico maravilhada. Estou fascinada também pela Rosalía porque não há como negar, tem carisma, não precisa de ser muito bonita para toda a gente olhar para ela, e tem uma coisa que se chama atitude, porque ela sabe que é boa naquilo que faz. Em Portugal, adoro António Variações Pedro Abrunhosa – do tempo de Viagens. O meu sonho era cantar com o Rui Veloso e com a Sara Tavares.

O que achas do hip-hop nacional neste momento?

Primeiro, estou a tentar, porque o meu coração e a minha alma pedem, fazer uma coisa mais musical, porque eu acho que sou melhor quando canto do que quando tento fazer aquilo que está na moda! Percebi isso neste tempo de quarentena. Desde março que estive em casa e percebi, realmente, que tenho de deixar de querer ser como os outros e que o sucesso vem quando fazes as coisas com alma. O que acho do hip-hop nacional, neste momento, é que é um nicho. É o novo pop, ninguém vai negar que é, mas não vejo brilho em tudo o que se faz, acho que há muitos sucessos repentinos, tal como há muitas quedas e desaparecimentos. Penso que o maior erro de um artista é não querer ser eterno… ele acha que quer ser mas não faz por sê-lo – eu acho que o hip-hop é assim. As pessoas querem ser eternas sem fazerem nada por isso.

O ano passado, em 2019, lançaste quatro faixas novas: ‘My Baby’, ‘A Vibe Certa’, ‘BarcelonaParis’ e ‘#nemsei’. Estas músicas mostram uma Fábia diferente da Fábia de 2017?

Sem dúvida. Mas não mostram a Fábia que sou hoje. Apesar de não ter passado assim tanto tempo, eu já mudei imenso. Não sei se todos os colegas de profissão têm isto mas quando lanço algo consigo ouvir durante um ou dois meses, depois já não consigo ouvir mais. Ao vivo é diferente porque é algo que estás a partilhar com o público. ‘BarcelonaParis’, ‘My Baby’ e ‘A Vibe Certa’ foram três temas que lancei soltos para perceber se ia por um lado mais digital ou orgânico.

O que queres dizer com um lado orgânico?

Orgânico é não ser um só produtor por trás a fazer o instrumental, mas sim ter alguém a tocar o instrumento, ter lá a alma do instrumento.

Como é o teu processo criativo?

[Risos] O meu processo criativo passa por momentos em que estou muito triste com a vida, às vezes nem são tristezas minhas, são de outras pessoas. Também uso os sonhos como inspiração. A maior parte vai dizer que sou maluca mas, por vezes, chego a descobrir que aquilo com que sonhei vem comigo de outras vidas – sim, eu acredito nessas coisas. Tenho de estar mesmo triste para criar, seja algo triste ou feliz. Quando estou bem da vida não me sinto tão preparada para partilhar. Ou seja, sinto-me mais preparada para partilhar a tristeza do que a felicidade. Isto talvez se deva ao facto de ser uma pessoa mais triste e ter poucos momentos de felicidade. A minha alma é assim, é carregada!

Achas que o artista tem de ser atormentado?

Eu acho que todos os artistas são, mesmo que não admitam. E se não são é porque são muito pouco egoístas na dor que sentem. Quando estás triste tens de ir ao fundo e perceber o que se passa. Se tiveres a coragem de escrever isso, melhor.

As pessoas que estão a trabalhar ao teu lado são importantes?

Foram a melhor coisa que me aconteceu na vida! Primeiro, porque encontrei amigos – a banda é composta por cinco pessoas – e, depois, porque achava que só eu é que tocava as minhas músicas. Quando pessoas do jazz gostam de me ouvir cantar e decidem tocar comigo, é sinal que veem em mim algo diferente. Partilhar a minha música com eles faz-me sentir menos sozinha.

Nas músicas ‘My Baby’ e ‘A Vibe Certa’ falas para uma mulher. Achas que ainda há falta de representatividade destes temas no panorama musical português?

Não acho, tenho a certeza! Lembro-me de ir à Antena 3 quando lancei ‘A Vibe Certa’ e da Isilda Sanches, locutora, me dizer que eu era a primeira mulher que ela via a fazer uma coisa daquelas, principalmente no hip-hop. A Carla Prata, por exemplo, fala destes temas sem qualquer tipo de pudor, mas normalmente as coisas são um pouco disfarçadas para não chocar tanto. Na música ‘A Vibe Certa’, eu decidi que ia despir uma mulher porque isso acontece e não vale a pena as pessoas fingirem que não!

Vês a tua música como uma forma de abrir mentes?

Tenho a certeza! Sou [do signo] Touro, por isso tenho a certeza de muita coisa [risos]. Quando alguém vem e fala de temas que ninguém fala, as pessoas, por muito que não digam, sabem quem falou. Também, se a música não for para abrir mentes, é para abrir o quê? Às vezes criticam o Valete por tudo o que se passou. Eu entendo e respeito todos os lados, mas também é uma forma de ele abrir mentes – de quem quiser que a sua mente seja aberta. É tudo uma questão de perspetiva. O problema das pessoas é que não conseguem respeitar a liberdade dos outros. A liberdade é a coisa que mais medo dá!

O que sentes ao ser uma das poucas mulheres a cantar hip-hop e R&B em Portugal? Achas que é mais difícil para uma mulher vingar?

Acho. Em vez de portas abertas dão-te janelas, é preciso muito para te levarem a sério! Há algo que deve ser partilhado, que é o facto de ser um meio onde te sentes muito sozinha, porque existem poucas mulheres. Das poucas que fazem música, algumas passam a ideia das mulheres serem bitches – quer dizer, fazem o que os gajos fazem.

Achas que podes abrir portas para outras mulheres?

Acho que todas as mulheres que cantam ou que têm uma cena de empowerment, porque realmente é preciso, acho que todas elas abrem portas – não abrem janelas, como vi muitos homens fazer!

Como te sentes ao voltar a pisar os palcos após o confinamento?

Senti-me muito feliz e angustiada ao mesmo tempo. Devido aos últimos dados da DGS [Direção Geral da Saúde], pensei que não ia ter ninguém para me ver, a não ser as pessoas que estavam comigo. Chegar aqui e ter gente para me ver e, principalmente, para me ouvir – porque acho que sou o tipo de artista que as pessoas vão para ouvir e não para ver-, deixou-me muito feliz, pois posso partilhar aquilo que tenho andado a fazer e também dar momentos de alegria a dois músicos que vieram comigo e tiveram, desde o confinamento, a vida estagnada.

Este foi o teu primeiro concerto?

Depois do confinamento, foi.

Tu és de Barcelos, ainda vives lá?

Sou de Barcelos e vivo lá e faço intenções de continuar a viver, e também comprar uma casa em Cascais quando for muito famosa [risos].

Numa entrevista disseste que tinhas de conciliar um day job com o teu percurso artístico. Ainda é assim?

Não! Tive a brilhante ideia, porque a minha alma me pedia, de me despedir uma semana antes do confinamento e ainda bem que o fiz. Eu percebi, e foi algo que o Valete também me disse: “se queres realmente ser excelente numa coisa, tens de parar de ser bom em muitas”. Ainda bem que o universo me tirou daquele trabalho de 600 euros e da miséria de ficar com 50 euros no bolso. Fiquei sem o trabalho por opção minha, na altura a minha ideia era dedicar-me a cem porcento à música. [Depois] aconteceu a pandemia, mas tenho pessoas que me apoiam em tudo e não deixam que me falte nada em casa.

Achas que isso te pode levar a arriscar menos ou mais?

Quando trabalhava tinha muita criatividade para deitar cá para fora e tinha muito cansaço dentro de mim. Trabalhava numa cozinha, era um trabalho de sair às duas horas da manhã e não ter horários para comer nem tempo para mais nada. Acho que não vim ao mundo para fazer aquilo que não gosto, como todos deviam pensar.

Cada vez mais há a emergência de falarmos de saúde mental, achas que a música pode fazer a diferença na vida de uma pessoa?

Na minha faz, porque eu considero-me uma pessoa que tem muitos momentos baixos e, logo de seguida, muitos momentos altos. Faz parte do artista, que está constantemente à espera da validação e opinião dos outros – se vão gostar de ti, se te vão criticar,… Levar com isto tudo, sem ter um bom apoio em casa, faz com que entres num caldo de depressão e nem te apercebes. A música, no fundo, é a forma de me curar.

Como tens visto a falta de apoios à cultura em Portugal durante este período de pandemia?

Acho ridículo, como qualquer pessoa que pare e se sente para pensar no assunto. Tive conhecimento que a GDA [Gestão dos Direitos dos Autores] deu 200 euros em cartões-refeição a cada músico. Por acaso, não estou inscrita na GDA, porque ainda não lancei um álbum – há essa regra, pelo que me disseram. Estou inscrita na SPA [Sociedade Portuguesa de Autores] e a única coisa que recebi foi direitos do ano passado mas, de resto, não recebi mais nada. Acho muito bem aquilo que se fez ontem [em referência ao movimento #aovivooumorto], acho que esse tipo de iniciativas devem continuar a existir. A minha banda conta-me de casos de amigos que estão literalmente a passar fome. Os músicos vão começar a fazer as malas e nunca mais tocam em Portugal. Já pensei em ter um agenciamento na Europa e outro na América do Sul e apenas tocar em Portugal quando derem valor aos artistas.

Quais os teus planos para o futuro?

Vou lançar um EP este ano, Santiago. Este título é algo que me marcou porque Santiago é uma homenagem ao meu irmão que não nasceu. Do EP fazem parte as músicas ‘#nemsei’, ‘Mãe Heroína’, ‘Na Minha’ ‘Rock Star’. Depois do lançamento do EP, e até ao final do próximo verão, terei o meu primeiro álbum pronto e irei trabalhar na promoção dele.

 

 

Zeen is a next generation WordPress theme. It’s powerful, beautifully designed and comes with everything you need to engage your visitors and increase conversions.

Mais Artigos
Anatomia de Grey
Porque ‘Anatomia de Grey’ decidiu infetar personagens com a Covid-19