Grand Army
Fotografia: Divulgação

Crítica. ‘Grand Army’ ensina-nos a lutar por aquilo que importa

Uma série adolescente que debate assuntos como as questões raciais, a homossexualidade e a agressão sexual

Grand Army, a nova série daNetflix criada por Katie Cappiello, estreou-se na plataforma de streaming esta sexta-feira (16). O drama americano foca-se em cinco alunos de Brooklyn e na forma como alcançam um futuro melhor e enfrentam todos os problemas que surgem nas suas vidas.

A narrativa começa em Grand Army, uma escola secundária igual a tantas outras. No entanto, aquela que pareceria ser mais uma série juvenil, surpreende-nos com a diversidade de assuntos tratados. Deixem-me, contudo, avisar que embora os temas estejam muito presentes na nossa sociedade, e por isso seja de extrema importância abordá-los, não é algo inovador. Grand Army tem histórias pesadas, mas que nos remetem um pouco para 13 Reasons Why.

Intitulado Brooklyn 2020, o primeiro episódio começa com a escola em isolamento, depois de um atentado terrorista a alguns quarteirões de Grand Army. Neste momento de tensão, conhecemos as personagens principais: Joey, Leila, Sid, Dominique e Jayson. Embora o episódio piloto se desenrole lentamente, sem nos deixar perceber o que aí vêm, são estes cinco alunos que nos prendem, desde logo, ao ecrã. São personagens que todos conhecemos, uma vez que nos retratam a nós mesmos ou a pessoas que conhecemos e que passaram pelo mesmo.

Um elenco com altos e baixos

Grand Army conta com um elenco muito variado, o que poderia ser bom, mas, neste caso, faz com que algumas personagens sejam um pouco ignoradas. Contudo, um dos pontos mais positivos do elenco é a sua diversidade cultural, com atores negros, indianos, asiáticos e caucasianos nos papeis principais. Focamo-nos então, nas cinco personagens fundamentais, que mesmo assim, não tiveram todas o mesmo tempo de ecrã.

Odessa A’zion é a atriz que merece a maior relevância. Assumindo o papel de Joey, interpreta uma rapariga emancipada, cheia de amigos, prestes a tornar-se capitã da equipa de dança e que parece ter a sua vida nos eixos. Todavia, a narrativa muda quando Joey é agredida sexualmente por dois dos seus melhores amigos, que agiam como se nada se tivesse passado. Para piorar a situação, tudo estava gravado e a escola inteira sabia do que se tinha passado. Inicialmente Joey decide ignorar o assunto, mas a pouco e pouco começa a sentir o peso das consequências. É aqui que a personagem muda completamente e a badass da escola tem uma mudança de personalidade enorme. O stress, depressão e ansiedade originados por esconder este segredo começaram a ser visíveis e Joey viu-se na necessidade de contar tudo aos pais e à polícia. Tiramos então o chapéu a Odessa, uma vez que conseguiu captar na perfeição a dor que Joey sentiu depois da agressão.

O elenco feminino continua a ser digno de destaque com Amalia Yoo e Odley Jean, nos papeis de Leila e Dominique, respetivamente. Leila é uma rapariga chinesa, mas que foi adotada quando era bebé, o que faz com que as outras raparigas asiáticas gozem com ela por não saber falar a sua língua materna. Leila começa a série como a típica caloira que quer ser aceite e que, por isso, faz de tudo para ser notada. É outra personagem que dá uma volta de 180 graus e que nos deixa especados a olhar para o ecrã. À medida que a série avança começa a tornar-se um pouco detestável, mas é mesmo por isso que o papel foi bem entregue.

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Amalia Yoo interpreta Leila (Fotografia: Divulgação)

Dominique é uma rapariga que passa dificuldades financeiras, mas que trabalha imenso para ajudar a família e poder continuar na escola. É uma personagem inteligente, divertida, empenhada e que luta pelo seu futuro. A sua vida complica-se quando a sua mãe lhe pede para casar com um jovem emigrante, para elas ganharem dinheiro. Apesar de isso modificar toda a sua vida, Dom, como é conhecida, está disposta a tudo pela família. Apesar de Odley Jean ser uma atriz pouco conhecida, mereceu o papel e não conseguimos pensar em ninguém melhor para o ocupar.

Sid e Jayson, interpretados por Amir Bageria e Maliq Johnson, são personagens que passam despercebidas por serem mais básicas e pela série não lhes dar tanto tempo para brilhar. Sid é um rapaz indiano que pertence à equipa de natação de Grand Army e que, por isso, tem uma excelente reputação entre os colegas. No entanto, enquanto escreve a redação de entrada na universidade, conta que é gay. De alguma forma, esta redação é partilhada com toda a escola, o que força Sid a assumir-se. O ponto negativo é que, talvez por a homossexualidade ser debatida em quase todas as séries adolescentes que existem atualmente, esta personagem tornou-se previsível e pouco interessante. Apesar disso, a prestação de Amir foi razoável.

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Amir Bageria interpreta Sid (Fotografia: Divulgação)

Por fim, temos Jayson, outra personagem que pouco fica na memória dos espectadores. Depois de uma brincadeira de mau gosto, ele e o seu melhor amigo são suspensos da escola. Quando volta, Jayson, que é um talentoso músico, ganha a oportunidade de fazer uma audição para entrar em Juilliard, a sua universidade de sonho. No entanto, esta vaga estava destinada ao seu melhor amigo, que ainda se encontrava suspenso. Maliq encontra-se no mesmo saco que Amir, uma vez que, apesar de bom ator, a sua história carece de profundidade. Ainda assim, a personagem dá voz a vários movimentos políticos associados à Black Lives Matter e, só por isso, já vale a pena.

As cenas que marcam Grand Army

Infelizmente, o assunto do terrorismo e do preconceito racial morre na praia ao fim dos primeiros episódios, porém, os problemas em Grand Army não acabam. Levanta-se assim, no segundo episódio, o tema do slut-shaming, depois da professora de Joey lhe dizer que esta arranjava qualquer oportunidade para mostrar o seu corpo. Assim, ela decide organizar um protesto na escola, que consiste em usar uma camisola com a frase “Free the Nipple”, sem sutiã por baixo. É aqui que surge uma das cenas mais marcantes da série, já que, em resposta, a professora diz que Joey não tem autoestima, que se veste como uma prostituta e para chamar à atenção.

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Odessa A’zion no papel de Joey (Fotografia: Divulgação)

Ora aqui está algo com que nos debatemos há imenso tempo, uma vez que todos temos mamilos, mas por alguma razão, os das mulheres são razão de censura. A série mostra este preconceito, não só quando outros alunos lhe chamam nomes, mas quando vemos uma mulher denegrir outra, algo que acontece frequentemente e que pouco é falado, muito menos assistido numa série. A cena intensifica-se quando o próprio diretor da escola afirma que a roupa “deixa pouco à imaginação”. Grand Army crítica claramente esta forma de pensamento, que é mudada assim que três amigos de Joey aparecerem com a mesma camisola e com os mamilos visíveis. Aí o diretor não reconhece problema.

A história prossegue com um tema com o qual já estamos mais familiarizados, mas que continua a ser um dos mais importantes — a agressão sexual. É de realçar o diálogo poderoso entre Joey e a sua psicóloga. O facto de Joey acreditar que é a má da fita por ter denunciado os seus amigos e ter medo de ser odiada por tê-lo feito é extremamente triste e revoltante. Infelizmente é um tema que ainda é importante ser debatido, devido à quantidade de pessoas que esconde este tipo de abuso por medo de serem julgadas.

A última cena digna de uma análise mais aprofundada é quando Dominique vai à sua entrevista de estágio. Lá, ela fala sobre as dificuldades vividas pela “sua comunidade”, relativamente à saúde mental. Dom confessa que se deita às cinco da manhã e que acorda cedo porque o dia não tem horas suficientes para o que ela tem de fazer. Apesar disso, ela não desiste e quer tornar-se psicóloga para poder ajudar aqueles que viu sofrer a sua vida inteira. É um monólogo que enche o coração de quem vê, na medida em que, sendo negros ou não, percebemos a sua mensagem. É uma cena pesada, sim, mas real e que pode abrir os olhos a muitos de nós, que temos pouco conhecimento sobre o assunto.

Um final inesperado, mas feliz

No início de cada episódio aparecia um ecrã com uma frase que apenas era completada no fim do mesmo. Ora, só neste final de temporada é que conseguimos entender que as frases eram o resultado de um e-mail, escrito para ameaçar muçulmanos, negros, chineses e judeus da escola. Quem enviou o e-mail? Uma personagem que ninguém esperava, mas que pelo avaliar da série, também não espanta.

Assim, após nove episódios, chegamos ao fim de Grand Army. Ainda que a história se demore a desenvolver, começa a ficar mais interessante no final, acabando em grande. O último episódio é sem dúvida o melhor e culmina num final imprevisível, mas que, ao mesmo tempo, era a forma que queríamos que acabasse. Apesar de tudo, a série dá-nos o final positivo que precisávamos depois de vermos tanta desgraça a acontecer. Grand Army dá-nos um final muito bem feito e feliz, deixando aberta possibilidade de existir uma próxima temporada.

Grand Army
7.5
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