Lily James como Mrs. de Winter em Rebecca
Fotografia: Kerry Brown/Netflix

Crítica. ‘Rebecca’ é uma adaptação fraca que não faz jus ao livro

Rebecca chega esta quinta-feira (21) à Netflix. O drama é uma adaptação da já clássica obra literária homónima de Daphne du Maurier. 80 anos após Hitchcock brilhar ao trazer a história para o grande ecrã, o novo filme é uma desilusão e certamente não será recordado.

Romance, mistério e uma protagonista feminina. Rebecca tem tudo o que parece funcionar nas novas produções da Netflix. Protagonizado por Lily James e Armie Hammer, e com uma prestação excecional de Kristin Scott Thomas, o filme conta a história de uma jovem mulher que casa com um viúvo da alta sociedade. Quando vão viver para a grande mansão de Maxim de Winter, Manderley, a jovem sente a constante presença da falecida dama da casa, Rebecca.

Enquanto tenta descobrir o seu lugar naquela mansão misteriosa e envolta em segredos, a nova Mrs. de Winter vai ter de enfrentar os seus medos e impor-se, atormentada pelo legado de Rebecca.

Livremente baseado no livro

Ben Wheatley, realizador desta adaptação, já tinha avisado que não iria fazer um remake do filme de Hitchcok, nem seguir o livro à risca. Jane Goldman (Stardust), Joe Shrapnel e Anna Waterhouse (Seberg) assinam o fraco argumento que, apesar de não começar mal, é um insulto para o legado de Daphne du Maurier, especialmente na última parte da película, já que ambas as personagens femininas representavam as diferentes facetas da autora da obra.

Se a protagonista-narradora — que permanece sem nome no livro e no filme, limitando-se a aceitar Mrs. de Winter como sua identidade — se apresenta como uma tímida e constrangida rapariga, rapidamente a personagem se liberta dessa caracterização para assumir uma personalidade confusa e incongruente com as suas ações. Já Maxim de Winter perde todo o seu carisma ao ser transformado num homem simples e sem qualquer aparente vontade própria. A diferença de idades entre os dois — 21 anos — não é, erradamente, um aspeto central do enredo do filme.

Armie Hammer e Lily James em Rebecca
Fotografia: Kerry Brown/Netflix

As personagens estão, no geral, mal escritas e são pouco realistas. Não correspondem aos seus respetivos no livro, mas também não são novas e diferentes com valor em si mesmas. As ações de Maxim e da nova esposa são precipitadas, com grande parte da história a acontecer apressadamente.

A tentativa de transformar Mrs. de Winter na heroína da história converte as restantes personagens em caricaturas, com pouco tempo dedicado ao desenvolvimento de cada uma. Os argumentistas escrevem esta personagem como alguém capaz de ser dona do seu destino, mas não conseguem libertá-la verdadeiramente.

Uma mixórdia mal conseguida de géneros

O filme não consegue ser romântico, nem misterioso o suficiente. Se as primeiras duas partes, e a cena final, tentam mostrar-nos esse romance idealizado, a terceira parte deixa-nos confusos, e não no bom sentido. Tudo se desmorona, e a história torna-se melodramática e sem sentido. O filme quase parece um mistério-drama adolescente, como conhecemos bem da Netflix, e nunca explora as grandes motivações sentimentais das personagens, ficando sempre pela superfície e resolvendo os problemas rapidamente e da forma mais óbvia possível.

Tudo o que é acrescentado à narrativa original, ou até alterado, é difícil de engolir. Há relações entre personagens que são completamente apagadas, pormenores que surgem sem objetivo— como o sonambulismo de Max ou os arranhões de Mrs. de Winter. O desfecho é também desleal às personagens, novamente simplificando uma grande história, que nunca devia ser retratada como uma história de amor, mas antes uma história de sobrevivência.

A verdadeira dona de Manderley

Lily James e Kristin Scott Thomas em Rebecca
Lily James é Mrs. de Winter e Kristin Scott Thomas é Mrs. Danvers. Fotografia: Kerry Brown/Netflix

Apesar do terrível trabalho feito com o argumento, Kristin Scott Thomas é a grande estrela do filme, apenas com uma personagem secundária, e consegue retratar perfeitamente a frieza da governanta Mrs. Danvers. Lily James também brilha, mas Armie Hammer fica aquém do talento das atrizes e não consegue melhorar este olvidável Maxim de WinterSam Riley merece uma menção honrosa pelo retrato de Jack Favell.

Além destes três, não há qualquer membro do elenco que se destaque, até porque as outras personagens são quase simples figurantes na história, infelizmente.

Rebecca é um filme cheio de potencial desperdiçado. Tem imagens belíssimas, um guarda-roupa espantoso, e efeitos especiais como nenhuma adaptação deste clássico viu. No entanto, as duas horas de filme não valem a pena e deixam-nos desiludidos. A experiência de ler o livro, ou até a de recordar o filme de Hitchcok, são certamente melhores opções para passar o tempo.

Lily James como Mrs. de Winter em Rebecca
5.5

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