#aovivooumorto
Fotografia: Sofia Matos Silva

#aovivooumorto. Um quilómetro de razões para manter vivas as salas de espetáculos

O Espalha-Factos marcou presença nos protestos do Porto, no Maus Hábitos.

A rede Circuito criou o movimento #aovivooumorto para alertar para as dificuldades passadas pelas salas de espetáculos na crise gerada pela pandemia de Covid-19. Este sábado (17), vários espaços de música ao vivo manifestaram-se por todo o país.

Lux Frágil (Lisboa), Maus Hábitos (Porto), Carmo 81 (Viseu) e Sociedade Harmonia Eborense (Évora) organizaram um protesto que contou com artistas e outros trabalhadores do setor.  Os espectadores também participaram e todo o setor uniu-se para formar uma fila às portas fechadas das salas de espetáculos.

Durante três horas, uma emissão feita diretamente do Lux Frágil, e dirigida por Pedro Ramos, deu música àqueles que estiverem na fila, fazendo pontos de situação sobre a ação nas quatro cidades.

Tanto em Lisboa, como no Porto a linha estendeu-se por mais de um quilómetro. Cada dois metros (porque havia distanciamento social a cumprir) um esforço para manter vivas as salas de espetáculos face a uma crise que ainda faz pairar muita incerteza em todos os setores da economia e da sociedade.

Espalha-Factos marcou presença nos protestos do Porto, no Maus Hábitos. Promotores, músicos e outros agentes foram unânimes em ressaltar a importância das salas de espetáculos para a música e, sobretudo, para a Cultura.

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A fila desceu a Rua de Passos Manuel e continuou até à Praça da Batalha. Fotografia: Sofia Matos Silva

“Ainda estamos vivos!”

Pouco depois da hora marcada, a fila já se prolongava por toda a Rua de Passos Manuel. Em meia-hora, virava a curva e chegava até à Batalha. Uma grande área coberta por artistas, técnicos, promotores e, claro, espectadores. Todos de cartazes na mão e máscaras na cara. Ninguém ficou indiferente e até turistas estiveram a observar e a perguntar a cidadãos locais o que estava a acontecer. “Há protestos semelhantes pelo resto da Europa”, ouvia-se um estrangeiro dizer.

À porta do Maus Hábitos, liderando o protesto equipado a rigor com camisolas e cartazes do #aovivooumorto, estava o seu dono Daniel Pires. O fundador de uma das salas de espetáculos mais icónicas da noite portuense resumiu a mensagem do protesto numa frase: “Ainda estamos vivos!”.

Daniel Pires garante que todos querem “continuar a trabalhar, mesmo com as condicionantes da Direção-Geral de Saúde (DGS). Mesmo assim, garante que “não é comportável reduzir a capacidade [do Maus] a um quinto”, pois tal impossibilita gerar lucro – como quem diz “pagar custos”.

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Sara Cunha, profissional de comunicação na área da Cultura, concorda com esta visão. “Estas casas estão muito longe daquilo que eram”, afirma ao Espalha-Factos.

As restrições da DGS têm de ser cumpridas, mas provocam restrições à programação das salas de espetáculos. “Uma banda de 7 pessoas exige uma remuneração que não pode ser colmatada com lotação limitada”, exemplica a assessora cultural.

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Daniel Pires, fundador do Maus Hábitos. Fotografia: Sofia Matos Silva

As salas de espetáculos são o berço” de muitos artistas

O músico Valter Lobo também esteve na fila do Maus Hábitos e admitiu que as regras da DGS são “castradoras” para o setor e que devia, por isso, haver uma compensação. “Não deixem de pensar na saúde pública, mas também não deixem de pensar nos profissionais da música”, apelou o artista.

Daniel Pires realça a quantidade de vidas afetadas por apenas uma das 27 salas de espetáculo da rede Circuito“desde os músicos, os técnicos de som, os próprios jornalistas, aos hotéis e restaurantes que recebem turistas”. No total, a cadeia de valor do setor corresponde a cerca de 600 postos de trabalho, revela o dono do Maus Hábitos.

Muitos dos empregos que correspondem diretamente a eventos ao vivo foram reduzidos, garante Sara Cunha. “Este setor não produz riqueza” capaz de aguentar os custos da pandemia, o que levou a despedimentos, de acordo com a profissional de comuncação. O próprio Maus Hábitos teve de o fazer, segundo Daniel Pires, para “travar a sangria e segurar os custos”.

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A crise das salas de espetáculo também afeta os músicos, bem sabe Manel Cruz, a voz inconfundível dos Ornatos Violeta“Não há consciência que estas salas são o berço de todas as bandas e projetos que gostamos de ouvir”, diz o músico.

Sara Cunha acredita que o circuito é “vital para renovação da música portuguesa e da sua diversidade”. São nos palcos pequenos destas casas de espetáculos “que artistas de baixa e média dimensão se apresentam ao grande público”. É um processo fundamental para o crescimento dos músicos na fase inicial da sua carreira que está agora sobre ameaça.

“Os Ornatos não seriam nada sem os bares, foi nos bares que a gente se fez”, garante Manel Cruz. Para o músico, a “sobrevivência passa pela sensibilização do público” a esta importância do circuito de espetáculos ao vivo. Uma tarefa complicada, até porque Manel Cruz afirma que “não há uma sindicalização como em outros setores”. É por isso que, segundo Valter Lobo, a Circuito e o #aovivooumorto são importantes para “fazer peso junto do setor e dar abrigo a artistas e técnicos”.

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Valter Lobo, Edgar Ferreira, Pedro Nascimento e Manel Cruz. Fotografia: Sofia Matos Silva

Orçamento de Estado 2021 “não chega”

A resposta para enfrentar a crise é unânime. É necessário um apoio do Estado português para sustentar um setor condicionado pelas medidas de segurança.

As salas de espetáculos “são agentes culturais das cidades” e quando vier a retoma financeira “terão de estar cá” para não haver uma “perda de identidade”. Daniel Pires não tem dúvidas que os espaços culturais são “absolutamente insubstituíveis” e que merecem um apoio do Estado para aguentar a pressão da pandemia. O risco, segundo o dono do Maus Hábitos, é o “retrocesso do ecossistema da noite e da economia da música portuguesa.

Sara Cunha afirma que o grande problema é que a pandemia afeta diretamente a “sustentabilidade do próprio meio”. A profissional de comunicação explica que a maioria das salas de espetáculos não recebia apoios estatais, antes da chegada da covid-19. “Estas casas tinham um modelo de negócio que funcionava por si só. Com a pandemia, estes modelos deixaram de funcionar”, esclarece.

O setor “está esquecido” pelo Estado, diz Manel Cruz. O músico acredita que há uma falha da perceção do “prejuízo nefasto” da pandemia em toda a Cultura. “As multas são altíssimas”, afirma a voz dos Ornatos que também não compreende a “tensão e hostilidade das forças de segurança”.

Esta semana ficou-se a saber que o Orçamento de Estado para 2021 prevê um despesa total consolidada para a Cultura de 563,9 milhões de euros. Os números representam uma subida de 7,73%, mas ficam aquém da meta do 1% da totalidade da despesa da Administração Central.

Um valor que é insuficiente para Daniel Pires. “O Orçamento do Estado não chega. Terá de haver retificações”. O dono do Maus Hábitos contou ao Espalha-Factos que mantém os canais de diálogo abertos com o Governo e sente-se otimista.

Numa visão mais crítica, Sara Cunha sente que “este executivo percebe pouco de como tudo funciona”. A assessora cultural afirma que “nunca houve vontade de olhar para os problema, procurar uma solução ou medidas” para ajudar as salas de espetáculos.

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Fotografia: Sofia Matos Silva

“Segundo confinamento é a morte”

Também há consenso em relação à falta de perigo de eventos. “É objetivamente seguro frequentar espaços culturais”, diz Sara Cunha. A assessora garante que todos os espetáculos “cumprem escrupulosamente as regras”.

Daniel Pires acredita que “há condições para abrir” as salas de espetáculo e aponta para a falta de surtos relacionados com eventos culturais. “Não é nos espetáculos que estão os problemas, mas nos eventos clandestinos, sem cumprimento de regras”, reitera o fundador do Maus Hábitos.

O espaço portuense tem sobrevivido através de um aproveitamento da sua sala de restauração Vícios à Mesa para programar espetáculos à mesa. Daniel Pires revela que este modelo só funciona “talvez durante um ano” e que até lá têm de se arranjar novas soluções.

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Um segundo Estado de Emergência e um regresso ao confinamento obrigatório tem estado na mesa, devido ao recente aumento de casos diários. Tanto o primeiro-ministro como o Presidente da República levantaram a possibilidade, apesar de a quererem evitar.

Daniel Pires garante: “O segundo confinamento é a morte” das salas de espetáculos e não só. Por isso, Sara Cunha acredita que “é possível fazer as coisas acontecer, respeitando as regras”. É a única forma do setor aguentar uma crise que assola todas as áreas do país e do mundo.

A fila dispersou ao final da tarde e o sentimento da iniciativa #aovivooumorto era de missão cumprida. Foi mais de um quilómetro de razões para tentar salvar a indústria das salas de espetáculos e todos os que vivem dela. A difícil sobrevivência da Cultura prossegue em busca de soluções para o tempo mais incerto de uma geração. Este sábado, todos ficaram à porta, com o desejo de “amanhã” entrarem para mais uma noite inesquecível.

Com fotografias de Sofia Matos Silva
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