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Sulli e Hara, duas artistas do mundo do kpop que nos deixaram em 2019. | Fotografia: Instagram.

Opinião. Um ano sem Sulli e a toxicidade da indústria do kpop

O entretenimento na Coreia do Sul tem sido cada vez mais exportado para todo o mundo, mas nem tudo são rosas.

Há exatamente um ano, Sulli (nome pelo qual era conhecida Choi Jinri), atriz e ex-integrante do grupo de kpop f(x), deixou-nos sem quaisquer palavras.

Mas a mensagem era óbvia: a depressão não melhorara, e a artista, que se tentara afastar da indústria do entretenimento sul-coreano nos últimos anos, deixava o mundo para trás. Tinha 25 anos. Não é caso único, numa indústria cujas aparências felizes não passam de uma fachada, e onde os escândalos são ocultos até ao último minuto.

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Na fotografia, Sulli, das f(x), e Jonghyun, dos SHINee.

Na Coreia do Sul, e agora globalmente, o género musical kpop tem sido uma sensação — há 10 anos, ninguém sonharia que existiriam os BTS e muito menos que os ouviríamos nas estações de rádio.

As fãs dos grupos musicais sul-coreanos não perdem tempo a defender o seu caso: “ouçam este grupo por este e aquele motivo”, mostram imagens, vídeos, tudo. Mas talvez a maioria das fãs não se aperceba do óbvio: o kpop é uma indústria tóxica, como muitas outras indústrias de entretenimento por todo o mundo, e aqueles que admiram não estão tão contentes quanto mostram.

AVISO: A indústria de entretenimento sul-coreana não é a única com os defeitos infra elencados, e está longe de o ser. O seguinte artigo trata situações que podem ferir suscetibilidades, explorando temas como o abuso psicológico, a depressão, o suicídio, e agressão sexual.

Kim Jonghyun (1990-2017)

Jonghyun, o nome pelo qual era conhecido na indústria onde brilhava, deixou o mundo com um legado emocionante. Uma das vozes mais poderosas do kpop, especialmente popular na década anterior, não poderá voltar a ser ouvida. Na sua nota de despedida, lê-se:

Eu queria que alguém reparasse [no meu sofrimento], mas ninguém sabia. Claro que não sabiam. Eles nunca me conheceram.

Em Seoul, a 18 de dezembro de 2017, o jovem compositor, cantor e dançarino mostrava ao mundo que, afinal, todos aqueles que o haviam vindo a admirar desde o início da sua carreira, em 2005, não o conheciam. Jonghyun tinha, aparentemente, tudo — era um dos artistas mais bem sucedidos da empresa de entretenimento a que estava vinculado, participava em vários projetos nos quais se empenhava, era amado por um enormíssimo fandom (os Shawols, como apelidam aos fãs dos SHINee, grupo a que pertenceu desde 2008). Aos 27 anos de idade, enquanto nos diz adeus, percebemos que tudo isso é insuficiente quando comparado com a depressão que, citando a nota, finalmente devorou a pessoa que ele foi.

jonghyun shinee kpop
Fotografia: Reprodução/Pinterest.

A mensagem com que Jonghyun abandonou o mundo foi deixada à interpretação de todos os que a leram entretanto. Destacamos:

“Tentei descobrir as razões da minha dor e do meu sofrimento. Mas eu já tinha a resposta. Estava em sofrimento por minha causa. A culpa é minha por carregar tantas imperfeições. Professor, é isto que gostaria de ouvir? Não. Eu não fiz nada de errado. (…) Por favor, não digas coisas que não sabes. Como é que podes pedir-me justificações pela minha dor? Disse-te muitas vezes porque é que estou a sofrer. Preciso de mais razões para estar em sofrimento? Mais detalhes dramáticos na minha história? Mais histórias sequer?

Bastam pesquisas no Google, com o nome de um kpop idol e a palavra trainee, para ver como é que os artistas desta indústria se tornam famosos. O processo mais comum no mundo do pop sul-coreano é serem recrutados por uma das empresas de entretenimento, onde serão trainees (aprendizes) durante vários anos, dependendo o seu debut (estreia no mundo da música e da fama) da sua evolução. O debut não tem um tempo mínimo ou um tempo máximo: alguns estreiam-se após dois anos de trabalho, outros após dez.

A agência responsável pelos artistas fará a seleção dos trainees que entenda serem indicados para participar num determinado grupo musical que queira lançar no mundo do kpop. É verdade: aquelas pessoas poderiam até nem se conhecer e, de repente, são um grupo que tem de treinar horas a fio por dia para estarem perfeitamente coordenados uns com os outros, em voz, em dança, até em guarda-roupa.

LÊ TAMBÉM: Retrospetiva. 2013: o ano das boysbands

Isto não é uma novidade: certamente muitos grupos de música pop surgiram da mesma forma no Ocidente (aliás, o exemplo mais conhecido disso são os One Direction, que foram formados totalmente durante um programa de talentos britânico). A grande diferença é que, na indústria musical sul-coreana, isto acontece diariamente.

É uma indústria saturada, onde, como em tudo, não há lugar para todos, o que é desmotivador para os artistas e para quem os representa, estes últimos prontos a culpar os artistas pelo falhanço que, muitas das vezes, não lhes compete.

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O grupo SHINee, em 2016. Da esquerda para a direita, Taemin, Onew, Jonghyun, Minho e Key (nomes artísticos).

Os SHINee não tiveram problemas com o seu debut, pelo menos não tão óbvios quanto os de outros grupos: foram um dos primeiros quintetos neste universo moderno, que há dez anos era uma bolha, estão e sempre estiveram representados pela SM Entertainment, uma das maiores companhias do país, e, ao olho crítico do público (maioritariamente adolescentes), sempre tiveram bons resultados. Isso explica o porquê de continuarem a fazer música em 2020.

Guia sobre como (não) tratar os integrantes dos grupos que se representa

Pelo secretismo em que a vida dos idols de kpop é envolta, quando acontece algo que parece fora do normal geram-se rapidamente rumores aos quais nunca há uma resposta concreta. A título de exemplo, focaremos em dois grupos, representados por duas agências de entretenimento distintas: as Red Velvet, da SM Entertainment, e as Blackpink, da YG Entertainment. Ambos grupos no ativo atualmente.

As Blink (grupo de fãs das Blackpink) mostraram preocupação em relação às quatro integrantes do girl group que teve o seu debut em 2016. Com apenas quatro anos de atividade, o estado psicológico de um dos membros, Jennie, é um dos pontos que mais salientam nas redes sociais, pedindo à YG Entertainment que se responsabilize.

blackpink jennie kpop
Vários vídeos circularam pelo YouTube em que se via uma Jennie fragilizada, os títulos aludindo a um ataque de pânico. Embora a artista não tenha confirmado, as imagens do evento (um Meet & Greet em Manila) juntaram-se a um conjunto de situações que os fãs teriam em conta.

No início deste ano, a integrante foi acusada por vários internautas de ser “preguiçosa” (por não estar a dançar de forma entusiasmada) e de ter o papel de favorita da agência, que acusaram a artista de não valorizar. Uma entrevista foi republicada por vários fãs, embora não haja fonte oficial de momento a tê-la disponível, em que a artista dizia várias vezes estar “longe da felicidade“, e que gostaria de “desaparecer”. Vários vídeos informativos surgiram por parte das Blinks, e assim compreendemos a história.

Mas Jennie não é a única afetada por, possivelmente, má gestão.

Na companhia rival da YG Entertainment, a gigante SM Entertainment, a situação não é melhor, muito pelo contrário. O girl group Red Velvet mostra-nos como o controlo que as empresas exercem sobre os representados por elas é prejudicial à sua saúde, física e psicológica.

No caso das Red Velvet, esse controlo foca-se fortemente na imagem física: Wendy e Joy, duas das integrantes do grupo feminino, passaram por perdas e aumentos de peso em curtos espaços de tempo, o que causou preocupação por parte das ReVeluv (as fãs do grupo), que publicaram vários vídeos sobre a situação na internet.

joy wendy red velvet kpop
Nas duas primeiras imagens, Wendy, e nas duas últimas Joy.

Outra artista que frequentemente é mencionada online pelo mesmo motivo é a IU (nome artístico de Lee Ji Eun). No YouTube, circulam diversos vídeos em que várias pessoas tentam seguir a dieta de IU por um dia, uma semana ou até um mês. Dieta esta que consiste em comer uma maçã ao pequeno-almoço, uma batata doce ao almoço e um batido de proteína ao jantar.

Os especialistas avisam que dietas deste tipo podem levar a perda de cabelo, a depressão e a outros problemas físicos, que não será o objetivo pelo qual decidem experimentá-las. “Não o façam!”, reiteram ainda os que tentaram.

A influência mútua entre a beleza, a perfeição e o kpop

A Coreia do Sul chega ao Ocidente com um ar particularmente moderno, que lhe é atribuído pelos avanços tecnológicos que cidades como Seoul apresentam ao mundo. Ao contrário do que acontece com o mundo digital, a sociedade sul-coreana avança mais devagar, sendo até bastante conservadora. Provas disso são momentos em que até idols, aqueles que a sociedade quer que sejam vistos como exemplo, participam em situações como blackface e fazem disso um motivo de piada.

Ashly Perez, do Buzzfeed, diz num artigo intitulado de “eu não era bonita o suficiente para viver na Coreia do Sul” que a sua “experiência [na Coreia] foi largamente positiva“, mas também que “se sentou ao lado de uma estudante a chorar, tentando confortá-la depois de todos os rapazes da sua sala lhe terem chamado Presidente de África, por ter a pele um pouco mais escura do que o resto dos estudantes“. Perez diz que assistiu a uma colega, de 28 anos, a “passar fome” todos os dias, seguindo uma dieta de feijão preto, uvas e batidos para perda de peso, reiterando que a mulher “já é mais pequena” do que ela “alguma vez será“.

Aliás, há um outro detalhe curioso sobre a forma como os diferentes lados do mundo vêem uma coisa tão simples quanto maquilhagem, a título de exemplo. Durante muitos anos acreditou-se, no Ocidente, que homens usarem maquilhagem poderia estar conotado com a homossexualidade, uma ideia homofóbica, sexista e que tem vindo a ser refutada.

Na Coreia do Sul, graças à influência mútua entre o kpop e os ideais de beleza, homens utilizarem maquilhagem é uma coisa normal e incentivada; mas não significa isso que sejam mais tolerantes, pelo contrário. O mundo continua em luta por essa igualdade, e este conservadorismo é um dado que passa despercebido aos que dizem admirar a cultura asiática, deste país ou de outros (como o Japão), devido à representação positiva que os media lhes oferecem.

As músicas upbeat e as danças coordenadas fazem com que tudo pareça simpático. Mas não é — e Jonghyun foi o primeiro a mostrá-lo.

“Não era minha responsabilidade ir contra todo o mundo. Não era o meu caminho tornar-me mundialmente famoso. Eles dizem que é difícil ir contra todo o mundo e tornar-me famoso. Porque é que escolhi este caminho? É engraçado, agora que penso nisso. É um milagre ter aguentado tanto tempo. O que mais posso dizer? Digam-me apenas: bom trabalho. Fizeste o teu melhor. Digam-me que sofri o suficiente. E apesar de não poderem rir agora, só não me mandem embora a culpar-me. Bom trabalho. Sofreste muito. Adeus.”

Choi Jinri (1994-2019)

Passaram exatamente 366 dias desde que Sulli foi encontrada em casa, inanimada. Mais uma vítima da falta de atenção à saúde mental, gradualmente influenciada de forma negativa pelo local de trabalho que escolheu quando tinha apenas dez anos.

A cantora e dançarina tinha também uma promissora carreira como atriz, na qual mencionava frequentemente estar a trabalhar e a privilegiar, em detrimento da carreira na indústria musical, desde 2015.

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Fotografia publicada por Sulli, em setembro de 2019, no seu Instagram.

Sulli foi o nome artístico pelo qual ficou conhecida Choi Jinri, que teve o seu debut em setembro de 2009, com as f(x). Outro grupo que a SM Entertainment viria a representar nos anos seguintes, e que continuou no ativo até 2019. A idol ficou conhecida por ser sempre extrovertida, e o próprio grupo onde se inseria tinha um histórico peculiar quando comparado com a maioria dos grupos femininos no kpop. 

Os girl groups têm uma menor diversidade em conceitos (imagem, temas retratados nas músicas e nos vídeoclipes). A maioria das artistas é vista como inocente, fofa, cheia de aegyo (termo utilizado na Coreia do Sul para se referirem a tons de voz doces e expressões delicadas), as girl next door. As SNSD/Girls’ Generation, um dos grupos mais antigos da SM Entertainment, são o exemplo disso. Nesta década, essa imagem tem sido contrabalançada: há girl groups cujo conceito principal é mostrarem-se bad girls, que pisam em todos os que duvidem disso. As Blackpink, representadas pela YG Entertainment e conhecidas mundialmente, têm essa abordagem.

A inconformidade de Sulli — e das f(x) — com o status quo do kpop

As f(x) não se encaixam em nenhuma das categorias: as suas músicas são cativantes, as integrantes são bastante distintas (olhemos para Amber, que desafiou a femininidade socialmente imposta nestes grupos) e o desfecho do grupo não foi o ideal ou esperado pelos fãs e pela indústria onde estiveram durante dez anos.

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Uma das concept pictures do álbum Red Light (2014) das f(x). Da esquerda para a direita, Luna, Victoria, Krystal, Amber e Sulli (nomes artísticos).

Em 2015, Sulli deixava o grupo para se focar na sua carreira a solo. Não especificamente uma carreira a solo na música, mas nos mundos do pequeno e do grande ecrã, no qual verdadeiramente fizera a sua estreia (a primeira vez que a vimos no show business foi na série dramática Ballad of Seodong, em 2005). A saída do grupo não foi bem recebida pelos internautas, começando aqui uma espécie de clube de ódio a Sulli, que estaria pronto para a atacar a qualquer movimento que, dali para a frente, fizesse.

Em imagens e textos que apresentam os membros do grupo àqueles que têm interesse em saber mais sobre as f(x), quando Sulli é mencionada acompanham frases como “foi-se mas não faz falta” ou “nunca esteve aqui“, em vez de serem mencionados os feitos da jovem nos cinco anos em que esteve nas f(x) ou sequer as razões pelas quais a atriz deixou para trás essa carreira. O seu caminho na música estava interrompido, mas não porque chegara ao destino: só em 2019 voltava a lançar música, brevemente, e desta vez a solo, estreando em junho o single ‘Goblin‘. 

Em 2019, já só com quatro membros, o grupo f(x) declarou o seu fim sem precisar de o comunicar oficialmente. Amber decidiu não renovar o seu contrato com a SM Entertainment, não podendo integrar mais o grupo. Luna também terminava ali o seu caminho na SM. Restando apenas Krystal, com uma irmã na empresa (Jessica, das SNSD/Girls’ Generation), e Victoria, a líder do grupo, que eventualmente também renunciaria a um novo contrato.

Cyberbullying

Nos últimos quatro anos de Sulli no ativo, aos olhos de uma audiência crítica e sempre disponível (sempre online), a artista foi várias vezes a personagem principal de polémicas que muitos concordam serem, hoje, irrelevantes. Ora porque participou num photoshoot em trajes menores, ora porque nem sempre usava sutiã em público. Esta última situação deu azo a um enorme backlash, incompreensível para muitos, nas redes sociais.

Jinri sempre se mostrou alegre e, geralmente, despreocupada com aquilo que os outros iriam pensar. A forma como utilizava as plataformas na internet, em particular o seu Instagram, era também uma manifestação do seu destoar com uma larga maioria de idols como ela.

Em 2019, num programa televisivo dedicado à atenção negativa que os artistas sul-coreanos enfrentam na internet (The Night of Hate Comments), Sulli foi apelidada de “bomba nuclear dos comentários negativos“, e mencionou-se o facto de ser frequentemente apelidada de attention seeker.

As suas reações aos comentários mostravam, inicialmente, uma positiva indiferença. Porém, o que é demais é castigo, e o desfecho mostrou-se.

O programa, que começara em junho de 2019, teve o seu último episódio no dia em que o suicídio de Sulli foi noticiado. Semanas antes do 14 de outubro de 2019, Sulli pediu ajuda à empresa que a representava. Nas últimas publicações de Sulli no Instagram, a jovem repetia:

“Não sou uma má pessoa.”

Goo Hara (1991-2019)

Passou um mês: em novembro de 2019, o mundo do kpop despedia-se de mais uma idol, e da mesma forma que vira Sulli dizer adeus. Goo Hara cantou no girl group Kara, de 2008 a 2016 (ano em que, devido à não-renovação do contrato com a DSP Media, o grupo terminou). A artista rumou então a uma carreira a solo com outra companhia, embora o seu destaque tenha acabado por ser no pequeno ecrã: atuou no reputado drama sul-coreano City Hunter, e participou em vários reality shows com outros idols.

goo hara kara kpop
Fotografia: WireImage.

Ao contrário de vários idols, que mantêm a sua vida pessoal num círculo muito privado (ideia também reforçada pelas empresas, de forma a preservar a imagem neutra dos membros dos grupos que representam, proibindo vários de fazer coisas banais como dietas não reguladas ou um simples namoro), Hara viu a sua vida entrar de rompante em títulos de notícias: Choi Jongbum, o seu ex-namorado, sentia de tudo por ela… menos amor. Ou assim diriam os relatos de violência física que os dois contariam em Tribunal ou mostrariam, através dos hematomas mutuamente deixados no corpo do outro, nas redes sociais.

Este era o início de um longo processo judicial, que começava oficialmente com a acusação de Hara contra Jongbum pela ameaça de publicar um vídeo sexual que fora filmado sem o seu consentimento. Apenas um ano depois seria declarado que Jongbum cumpriria pena de um ano de cadeia por ameaça de publicar um vídeo sexual, coação, agressão física e destruição de propriedade (do apartamento de Goo, onde a discussão se desenrolou).

Apesar de ter tentado pagar uma fiança para sair da prisão, o Tribunal reiterou que Choi sabia exatamente que o dano provocado seria muito superior por a vítima ser famosa. O arguido não foi condenado por ter filmado o vídeo, mas pela ameaça de partilha do mesmo, porque a relação entre os dois não havia terminado nesse momento.

Goo Hara tentou acabar com a sua vida em abril de 2019, sendo imediatamente levada para o hospital. Em agosto, viu finalmente a condenação do ex-namorado pelos crimes por este cometidos. A justiça fez-se mas, até ao momento, fora constantemente atacada por internautas que não acreditavam na sua história.

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Sulli e Hara eram amigas chegadas, dizendo-se online que se ajudavam mutuamente a lidar com a depressão. | Fotografia: Instagram.

Em outubro, perdera uma das suas amigas chegadas por suicídio. Em novembro, Hara seguia o mesmo caminho.

Os escândalos sexuais escondidos durante anos a fio do público

Após a morte de Goo Hara, vários sul-coreanos reuniram-se para submeter uma petição à Casa Azul (residência e escritório oficiais do Presidente sul-coreano), pedindo que a justiça seja mais punitiva em relação a crimes sexuais, como é o caso de atos sexuais filmados sem consentimento e a sua distribuição. 200 mil pessoas assinaram a petição.

Infelizmente, o possível filme sexual em que Goo Hara apareceria não era o único que poderia comprometer celebridades na indústria do kpop. Pouco antes da sua morte, relatam alguns jornais sul-coreanos, Hara ajudou jornalistas na sua investigação contra um escândalo sexual que alterou totalmente a concepção que os fãs têm de alguns dos seus idols.

O caso de que vamos falar a seguir não os tem como vítimas, mas como agentes do crime.

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Seungri, um dos donos do clube Burning Sun e um dos arguidos na maioria dos crimes em que o clube esteve envolto. | Fotografia: AFP.

Molka

Se o leitor já ouviu falar desta palavra, certamente já conhece este caso. Ou vice-versa. Molka (em hangul, 몰카) significa “câmara escondida” e é uma palavra popularizada na Coreia do Sul para referência a casos em que foram filmados vídeos de atos sexuais sem o consentimento de todos os presentes. A popularização do termo começou nesta década, especialmente devido aos casos de celebridades que foram acusadas de participar em atividades ilícitas, conforme acima descritas.

O caso mais polémico à data é o caso do clube noturno Burning Sun, onde Seungri, ex-integrante de um dos grupos mais icónicos da indústria, os Big Bang, foi o principal arguido. O clube foi investigado depois de uma acusação de abuso sexual, por parte de um membro do staff do clube, a uma mulher que frequentava o espaço. As investigações da polícia reportariam muito mais: foram feitas alegações de prostituição, tráfico de drogas e, ainda, corrupção policial. Seungri foi condenado a seis anos de cadeia.

A investigação jornalística para este escândalo revelou ainda mais, tornando o caso mais complexo do que o previsto — foi um dos casos mais falados em 2019, e nem os políticos souberam, inicialmente, como lidar corretamente com o mesmo. Ao Burning Sun juntavam-se chatrooms de uma plataforma chamada KakaoTalk, onde Seungri e vários outros artistas masculinos se juntavam para partilhar vídeos que encaixavam perfeitamente na categoria supra mencionada — vídeos onde atos sexuais eram retratados e as mulheres nem sempre tinham dado o seu consentimento.

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Jung Joonyoung, um dos principais intervenientes do caso, a ler o comunicado em que admite os crimes cometidos e pede desculpa às vítimas. | Fotografia: Lee Seung Hyun.

O escândalo envolveu vários artistas bem conhecidos no mundo do kpop, os principais arguidos sendo integrantes de bandas de kpop e krock e participantes em vários reality shows ao longo da sua carreira. Jung Joonyoung dá o nome ao caso; segue-se-lhe Choi Jonghoon, ex-integrante dos F.T. Island.

A conexão do chatroom de Jung Joonyoung ao caso Burning Sun encontrou-se em mensagens, partilhadas na conversa, que expunham os crimes cometidos no clube. Um dos crimes confessados na conversa foi de violação em grupo, na qual participavam os dois idols e outros dois empresários, e que aconteceu em duas situações diversas, totalizando duas diferentes vítimas.

Joonyoung abandonou todos os cargos que representava na indústria de entretenimento e admitiu todos os crimes que cometeu, bem como o facto de não sentir culpa no momento em que partilhou os vídeos das mulheres envolvidas, embora tenha feito um pedido de desculpa às vítimas no mesmo comunicado.

Apesar de só ter sido revelado em 2019, as atitudes destes homens, adorados até então no mundo do kpop, remontavam a 2014. Foram condenados a penas de prisão entre cinco a dez anos.

LÊ TAMBÉM: A saúde mental retratada no cinema e na televisão

O que aprendemos?

Na indústria do kpop, a maioria das situações que deixam os fãs a tremer de raiva não são situações em que encontramos o dilema de “separar a arte do artista“, embora existam (o último grande caso que mencionámos é o grande exemplo disso).

São, maioritariamente, artistas que se submetem a determinados tratamentos, por vezes desumanos, pelo seu bom nome numa indústria em que entram com a ideia de ser feliz e, presume-se, de fazer o que gostam.

Fruto de uma sociedade consumista, a indústria do kpop não passa disso: consumismo.

E dizê-lo não é desrespeito pelo trabalho dos artistas nela envolvidos: kpop tem vozes magníficas, tem danças que todos gostariam de conseguir fazer, tem compositores de mérito, tem conceitos trabalhados arduamente por designers de cada área. Todos estes profissionais merecem o respeito e a admiração dos seus fãs. E estes fãs têm o dever de ser seletivos. Até que ponto compensa dar streamings a uma canção das Blackpink se as artistas não podem ser elas mesmas?

A 10 de outubro, celebrou-se o Dia Mundial para a Saúde Mental, uma área que, ainda hoje, é negligenciada, e essa negligência é ainda mais evidente quando se tratam de pessoas que estão sob o olhar do mundo.

O mundo do kpop é artístico, é colorido, é uplifting. Mas não tem liberdade e não tem cuidado pelo indivíduo e pela individualidade, tudo derivado de contratos assinados para o limitar, como na maioria das indústrias de entretenimento pelo mundo fora, e basta relembrar o último segmento de tweets do Kanye West a denunciar coisas bastante semelhantes.

 

Contactos de prevenção do suicídio em Portugal

SOS Voz Amiga
(entre as 16h e a meia-noite)
21 354 45 45
91 280 26 69
96 352 46 60

Telefone da Amizade
22 832 35 35

Escutar – Voz de Apoio – Gaia
22 550 60 70

SOS Estudante
(20h00 à 1h00)
969 554 545

Vozes Amigas de Esperança
(20h00 às 23h00)
22 208 07 07

Centro Internet Segura
800 21 90 90

Conversa Amiga
808 237 327
210 027 159

Telefone da Esperança
222 030 707

  1. Vcs demonizarem tudo de maneira sensacionalista n ajuda muita coisa, a maioria das coisas faladas poderia ser usada pra indústria americana tbm, acho uma falta de respeito com a memória das pessoas que faleceram usar elas em artigos citando a toxidade da indústria indústria(que sabemos que é um belo de um plural) como se fosse um problema alheio

    1. Olá, Math!
      Obrigada pelo comentário.
      Compreendo os motivos no mesmo expostos e peço, desde já, desculpa se passou por ofensivo à memória dos falecidos a menção das suas histórias neste artigo. De outra forma não poderia ser feito, mas nunca foi intenção desta exposição demeritar estas pessoas (muito pelo contrário) ou ser, de todo, sensacionalista.
      No artigo, está logo no início um aviso que diz que a “indústria de entretenimento sul-coreana não é a única com os defeitos infra elencados, e está longe de o ser“. No último parágrafo do texto, também surge a menção: “como na maioria das indústrias de entretenimento pelo mundo fora, e basta relembrar o último segmento de tweets do Kanye West a denunciar coisas bastante semelhantes“.
      Não estou alheia à realidade das outras indústrias de entretenimento, especialmente no Ocidente, mas não me cumpriria falar das mesmas num artigo que, desde o início, foi construído para expor a situação da indústria do entretenimento sul-coreano.
      Desde os 12 anos que estou em “contacto” com o mundo do kpop, tendo sido fã de vários grupos ao longo dos anos. Com 12 anos, para mim a existência do kpop era uma coisa fantástica, adorava estar em contacto com uma cultura tão diferente da minha (a cultura “ocidental”, europeia talvez). O meu grupo favorito eram os SHINee, e quando soube do que aconteceu com o Jonghyun, em 2017, fiquei chocada. Procurei saber mais sobre o que se passava no background.
      Este artigo (de opinião) não está aqui com o objetivo de dizer que tudo no kpop é horrível (longe disso, acho bastante criativo e adoro o facto de haver muito menos estigma agora com o kpop do que havia em 2012, quando encontrei os SHINee na Internet).
      O artigo surge da necessidade de informar muitos fãs que, como eu fui, vivem no escuro em relação a estas questões, acabando por contribuir indiretamente para esta toxicidade (não vamos fingir que não existem guerras fortes entre fandoms, por favor).
      Este não é um problema alheio, e por não o ser é que este artigo existe. Não estamos a demonizar a indústria de um modo sensacionalista, estamos a expor uma realidade que muitos estão relutantes em conhecer ou mencionar, e só o fazem quando as tragédias acontecem, num artigo simples, direto, e que anuncia apenas uma morte mas peca em explicar o porquê.
      Todos sabemos que é melhor prevenir do que remediar (um ditado popular), e felizmente as pessoas estão mais conscientes agora do que estavam há dois/três anos atrás, quando soubemos da notícia do Jonghyun. Infelizmente, pouco ou nada melhorou dentro da indústria em si (sugiro pesquisar mais sobre as Blackpink no YouTube, visto que são um exemplo frequente de má gestão por parte da YG).

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