Capital
Fotografia: Divulgação

Crítica. ‘Capital no Século XXI’ e o estado moderno da desigualdade

O documentário Capital no Século XXI, baseado na obra do economista francês Thomas Piketty, chega na quinta-feira (15), numa exibição especial pelas mãos da Festa do Cinema Francês. A longa-metragem tem como principal objetivo responder a questões sobre “a acumulação de capital“, numa estreia a não perder.

O Capital no Século XXI mostra-nos que a busca por riqueza e poder nada mais gera do que um aumento progressivo na desigualdade social. O documentário revela, de forma interativa e inteligente, um vislumbre sobre a história, com alusões à cultura pop, e com entrevistas a especialistas de vários países. A obra que serve como inspiração tornou-se uma importante referência no género, tendo vendido mais de três milhões de cópias mundialmente, colocando o economista Thomas Piketty na lista de pessoas mais influentes da Time.

And we’ll never be royals (royals)
It don’t run in our blood
That kind of luxe just ain’t for us…
Lorde – Royals

Ao som de Royals, da cantora neozelandesa Lorde, Justin Pemberton (realizador do documentário) inicia o filme trazendo um grande leque de especialistas. Académicos como Joseph Stiglitz Francis Fukuyama são intercalados com analistas experientes, como Rana Foroohar e Ian Bremmer. Eles transportam os espectadores pelas ideias de Piketty, começando com a dissociação do capital da terra na Era Industrial até a especulação do Velho Oeste de Wall Street na década de 1920; as regulamentações financeiras no pós-Segunda Guerra Mundial que distribuíram o capital de forma mais justa, antes de serem flexibilizadas na era de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher, terminando no capitalismo e consumismo rápidos dos dias de hoje.

Thomas Piketty
Thomas Piketty (Fotografia: Universitat Pompeu Fabra)

A obra começa com uma viagem até há 250 anos, quando o capitalismo ganhou impulso pela primeira vez, com a Revolução Industrial. Até então, a Europa era feudal, com um enxame de reis, duques, condes e marqueses detendo a maior parte da riqueza na forma de terras.

Por esse motivo, as fábricas geraram uma nova riqueza insurgente. Tanto a Revolução Americana quanto a Francesa foram, em parte, lutas entre as velhas elites feudais e uma nova elite empresarial. E, embora a velha e a nova elite discordassem sobre quem deveria comandar, ambas concordavam que as pessoas comuns não deveriam estar nesse papel.

Entretanto, ao adentrarmos no momento económico atual, a análise básica apresentada por o Capital no Século XXI é que o estado moderno de desigualdade está a cortar fatias progressivamente maiores do bolo económico, o que Fukuyama chama de “camada de oligarcas” global. Este não é um conceito original, é claro. O argumento de Piketty que tem maior ressonância é como ele o vincula ao passado. O autor baseia-se em referências literárias de Balzac a Jane Austen para mostrar como a “reprodução das hierarquias sociais” de hoje pode levar a tensões de classes.

Pikkety trouxe-nos três coisas, com as quais devemos refletir ao assistir ao filme: a primeira é a noção de que herança e propriedade não devem ser eternas. A segunda é que dinheiro e política não devem ser misturados, pois distorcem a democracia. A terceira diz respeito aos “paraísos fiscais” e às suas consequências.

Capital
Fotografia: Divulgação

Finalmente, de acordo com a visão do documentário, nos próximos 20 anos –  à medida que os “boomers” forem morrendo – a geração deixará para os seus herdeiros a maior concentração de riqueza herdada que os Estados Unidos já presenciou. Logo, qual será a solução? Segundo Piketty, será necessário aumentar as alíquotas de impostos e instituir um sistema mais amplo de impostos sobre herança.

As pessoas nas ruas estão a começar a dizer chega. Chega de desigualdade e chega de não ter uma visão sobre como isto pode melhorar”, diz o jornalista Paul Mason. O filme e Piketty têm sugestões reais, mas limitadas, para este tipo de história sobre o futuro. Contudo, ambos prestam um grande serviço a todos, ajudando-nos a ver como chegámos e onde estamos hoje, sendo esse  o primeiro passo para descobrir para onde queremos ir.

E por que é que precisas de ver ‘Capital no Século XXI’? Porque o filme traz uma proposta diferente. Mostra-nos o que aconteceu, o que está a acontecer e o que está por vir, se não agirmos e mudarmos esse rumo que a história leva.

No mesmo mês em que chega às livrarias o livro Capital e Ideologia – o novo livro de Thomas Piketty, a Festa do Cinema Francês traz o documentário Capital no Século XXI, baseado na obra anterior, bestseller mundial de 2013, do economista francês. O filme é exibido em antestreia nacional esta quinta-feira, dia 15 de outubro, às 19 horas, no Cinema São Jorge. Logo após a exibição do filme, seguir-se-á uma conversa com o professor e economista José Tavares e o jornalista Pedro Santos Guerreiro. A estreia nacional está prevista para 22 de outubro.

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