20 anos de ‘Uma Aventura’: para Manuel Moreira “parece outra vida”

A série da SIC, que é uma adaptação dos livros de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, faz 20 anos.

Manuel Moreira fala sobre os 20 anos de Uma Aventura
Fotografia: EF via HIT Management/Divulgação

É nesta quarta-feira (14) que se marcam, precisamente, 20 anos desde que o primeiro episódio de Uma Aventura estreou no pequeno ecrã, na SIC. A série, adaptada dos famosos livros com o mesmo nome de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada foi, desde cedo, um fenómeno junto do público infantojuvenil. O Espalha-Factos falou com o ator Manuel Moreira, o Pedro da primeira temporada, transmitida em 2000.

A história que gira em torno da série quase dispensa apresentações: em cada episódio, um grupo de amigos, composto pelas gémeas Teresa e Luísa, Pedro, Chico e João, desvendam um mistério diferente, em qualquer sítio do país. Vários foram os artistas que encarnaram os diferentes papéis, sendo que os livros e a série chegaram a originar um filme, Uma Aventura na Casa Assombrada, lançado em 2009, e que se tornou na produção portuguesa mais vista desse ano.

Em jeito de reflexão, Manuel Moreira falou-nos das memórias que tem daquele que foi um dos seus primeiros projetos enquanto profissional de Televisão, as coisas menos boas que Uma Aventura lhe trouxe para a carreira e deitou ainda um olhar sobre o futuro instável do meio artístico, num contexto pandémico. O ator está em cena com a peça Avenida Q, até dia 1 de novembro, no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

Posso estar errado, mas tinhas cerca de 18 anos quando começaste Uma Aventura

Sim, tinha, parecia que tinha menos, mas sim, tinha 18 anos.

Começaste em televisão na RTP, com as Notícias do Tempo, um programa que nunca foi para o ar, e com a Raia dos Medos. Mas, como foi, aos 18 anos, ter o teu primeiro papel principal em Uma Aventura?

A minha estreia na Raia dos Medos, um ano antes disso [de Uma Aventura], foi emocionante de outra maneira, era uma grande produção, era uma coisa de época, foi gravado fora de Lisboa, foi assim um primeiro contacto muito forte com Televisão e foi uma experiência emocionante. Claro que depois Uma Aventura teve essa particularidade de nós sermos cinco protagonistas absolutos, foi uma experiência muito intensa, porque gravávamos sete dias por semana, doze horas por dia, durante um verão inteiro. É quase viver num Big Brother e assim que acabámos de gravar, aquilo estreou na televisão e foi logo assim um fenómeno muito grande, portanto foi uma experiência emocionante.

Aquilo dirigia-se a um público um bocadinho mais jovem do que eu, e eu parecia mais novo do que era na televisão. Como eu já tinha 18 anos, foi super emocionante viver aquilo mas, ao mesmo tempo, eu estava já assim numa fase um bocado diferente. Aquilo era dirigido a um público mais jovem do que eu era na verdade, portanto foi uma experiência interessante por causa disso. A minha excitação de fazer parte daquele fenómeno era uma coisa curiosa para mim, não era propriamente o entusiasmo por aquele tipo de histórias, que provavelmente não eram bem para a minha idade. Foi uma coisa assim um bocado peculiar.

Voltando um bocadinho atrás, como é que o desafio, apesar de já teres 18 anos na altura, te veio parar às mãos?

Eu fiz um casting para o papel e fui escolhido. Foi tão simples quanto isso. A Patrícia Vasconcelos estava a fazer o casting da série, chamou-me para fazer o casting e as autoras dos livros, a Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada, acharam que eu tinha mesmo a imagem que elas tinham para o Pedro, que era a imagem que ele tinha nos livros. Portanto fui escolhido e foi um processo rápido e muito simples.

Já tinhas lido os livros?

Todos, tinha a coleção toda, depois passei para as minhas irmãs que eram mais novas que eu. Quando era miúdo li os livros todos, adorava, lia pelo menos duas ou três vezes cada um.

Havia alguma personagem com que te identificasses mais ou quando partiste para o casting deram-te o Pedro?

Não, quando fui sabia que era para fazer casting para o Pedro. O meu perfil era adequado àquela personagem e mesmo quando eu lia os livros em miúdo, eu identificava-me muito mais com o Pedro. Também só havia três personagens, um deles era muito miúdo, e depois o outro, era o Chico, que tinha um perfil que não tinha nada a ver comigo. Portanto, foi bastante óbvio que aquele personagem era para mim.

A série tornou-se um sucesso, mas já o era junto dos leitores. Sentiste algum tipo de pressão de corresponder às expectativas de quem lia os livros em casa e depois iria ver a série na televisão?

Não, nós eramos miúdos e não pensávamos muito assim. Mas sim, sabíamos que toda a gente conhecia os livros, portanto era uma coisa muito identificável. Eu acho que, se calhar, havia uma preocupação maior com que as gémeas fossem, de facto, muito parecidas uma com a outra, e elas tinham uma imagem muito peculiar nos livros, que era um bocadinho mais difícil de reproduzir. Se calhar, eu, o Cristóvão [Campos] e o Sandro [Silva] não sentíamos tanto essa pressão porque se calhar apercebíamo-nos de que as gémeas é que teriam de viver um bocadinho mais essa experiência de tentar corresponder a uma imagem que poderia defraudar um bocadinho mais as pessoas quando vissem como é que aquilo seria em live action. Mas nós nunca sentimos essa pressão e eu senti que estava muito parecido de facto com o personagem dos livros, portanto nunca foi uma coisa que me preocupou.

Acho interessante teres surpreendido o ano passado o Cristóvão Campos no programa da RTP1, o Sei Quem Ele É, onde disseste, na altura, que vocês eram basicamente “miúdos” a fazer televisão. Como é que foi a experiência de começarem a contracenarem com artistas mais experientes e até, por exemplo, profissionais que não eram da área como o José Figueiras e também a Conceição Lino. Como foi essa mistura? 

Na verdade, a experiência foi muito mais essa [trabalhar com profissionais que não eram da área], do que contracenar com atores mais experientes, porque a série tinha vários personagens secundários que, das duas uma: ou eram feitos todos por figurantes, portanto muitos deles eram menos experientes do que nós próprios, apesar de serem mais velhos e que isso até dava azo a algumas situações engraçadas e a grandes canas tristes, e depois havia, em todos episódios, participação de caras da SIC, que normalmente não eram atores, tirando a Catarina Furtado, que também já representava. Portanto, havia alguma excitação da nossa parte de estar a contracenar com aquelas pessoas, mas por elas serem conhecidas, não por serem atores experientes. Porque lá está, muitos deles nem nunca sequer tinham representado, tínhamos noção de que era um bocado caricato. Para nós era uma experiência marcante estarmos a conhecer aquelas pessoas que eram muito conhecidas, mas não as víamos na verdade como atores, porque não o eram. Eram menos atores do que nós, portanto foi uma experiência curiosa e teve momentos bastante divertidos.

Pegando nesses momentos divertidos, tens assim alguma memória que consigas partilhar apesar destes anos todos? Alguma coisa que te tenha marcado?

Sabes que, às tantas, quando já passou tanto tempo sobre uma coisa, as memórias que tu tens já são um bocado abstratas. Quer dizer, claro que há dias de gravação específicos que eu me lembro e de coisas específicas que aconteceram. Mas já começa a ser difícil contar assim histórias muito específicas. O que eu me lembro muito bem da série era a quantidade de horas que nós trabalhávamos, as amizades que fizemos, a amizade que eu fiz com o Cristóvão, que foi uma coisa muito importante e que ficou até hoje, somos mesmo muito muito amigos, e pronto. Lembro-me de ser muito divertido, e lembro-me de ser muito cansativo, mesmo muito cansativo. E lembro-me que ganhávamos muito mal. Muito mal mesmo. Foi o trabalho mais mal pago que eu fiz na minha vida.

Mas achas que, na altura, o facto de essa experiência ser cansativa e ter muitas horas de gravação, preparou-te de alguma forma para outros projetos, que foste tendo no futuro?

Sim, eu aprendi muita coisa. Na Raia dos Medos, o projeto que fiz um ano antes, e depois n’ Uma Aventura, aprendi muita coisa, porque eram séries gravadas totalmente em exteriores portanto apanhámos todo o tipo de condições atmosféricas desde o frio, calor, gravar em todo o tipo de edifícios, escolas, bibliotecas, museus, florestas, palácios. Às vezes tens muito poucos meios e tens que produzir alguns efeitos de forma assim um bocado mais artesanal e portanto, aprendi muito, sim. De repente, quando fui fazer novelas no ano a seguir, era um nível de conforto muito maior porque eu já estava vacinado contra todas as condições adversas em que se pode trabalhar em televisão.

Pegando nisso, o lado positivo é experiência que ganhaste para os teus futuros projetos. Mas, depois há o outro lado. Sentiste necessidade de, naquilo que pegaste a seguir, teres de te descolar do Pedro? E da forma como o público olhava para ti? 

Quando se trabalha muito em televisão fica-se sempre com algum medo de as pessoas nos chamarem sempre para fazer coisas parecidas. Eu nessa altura não pensava muito nisso. Eu só queria era trabalhar. Fiz três ou quatro coisas de seguida, com personagens vagamente parecidos, ou com o mesmo perfil, mas não era uma coisa que me incomodasse, não perdia muito tempo a pensar nisso. Se depois, durante alguns anos, essa série [Uma Aventura] condicionou-me um bocadinho a escolha de alguns produtores para alguns papéis? Se isso me condicionou a mim? Sim, talvez tenha condicionado, mas é uma coisa que já está tão longe que já não me preocupa sequer.

Manuel Moreira
Reprodução/DR
Achas então que foi uma rampa de lançamento? Ou tiveste de continuar a afirmar-te a ti próprio?

Foi uma rampa de lançamento no sentido em que foi dos primeiros trabalhos que eu fiz e que me permitiu conhecer melhor o meio e as pessoas. Artisticamente não foi uma rampa de lançamento. Não havia ali grande trabalho de ator, eramos uns miúdos e gravávamos umas cenas a correr nas florestas e a saltar muros. Portanto não há ali grande trabalho de acting nem nada. Aquilo não foi uma revelação de grandes talentos, nem era suposto ser. Depois, aqueles de nós que seguiram carreiras de atores, que foi basicamente eu e o Cristóvão, fomos provando o nosso talento e a nossa vocação noutros trabalhos, não foi nesse em específico.

Aliás, tu passaste pela apresentação no Canal Q, pelo teatro e pelo cinema. Como é que te comparas atualmente com o Manuel que estava a dar os primeiros passos n’ Uma Aventura?

Eu sempre tive boa memória para as coisas que aconteceram na minha carreira, e na minha vida, só que acho que, quando já são muitos anos e muitos trabalhos, e vão fazer 20 anos desde que fizemos Uma Aventura, eu acho mesmo que já sou outra pessoa. Eu não comparo nada do que eu faço hoje em dia, ou que fiz nos últimos anos, com essa série. É uma coisa que já está muito cristalizada lá atrás no tempo, uma coisa que me traz boas memórias, que eu continuo a achar graça que as pessoas ainda se lembrem de mim precisamente por ser uma coisa tão longínqua, e eu já ter quase 40 anos e ser uma pessoa completamente diferente do que era nessa altura a todos os níveis. Não comparo nada com essa altura. Só acho graça que as pessoas ainda se lembrem, mandem bocas de Uma Aventura, isso é uma coisa que eu acho graça e que me rio, mas quer dizer, é outra vida. Parece mesmo outra vida. Quando olho para imagens e vídeos daquele tempo é outra vida. É uma coisa que eu guardo com alguma ternura, mas está muito distante.

Na altura, Uma Aventura estava no pico da popularidade, quando a série estreou. As pessoas chamarem-te Pedro na rua, ou fazerem piadas com a tua participação, de alguma forma incomodou-te?

Não. Nós achávamos graça, era giro. E nessa altura como não havia quase conteúdos de internet para consumir e não havia muitos canais de televisão, os miúdos consumiam todos a mesma coisa. E eu participei nas primeiras temporadas dos dois projetos infantojuvenis mais marcantes, Uma Aventura e Morangos com Açúcar, e nós vivíamos com entusiasmo essa coisa de sabermos que as pessoas àquela hora iam para casa para ver aquele conteúdo. Os miúdos estavam todos à mesma hora, ligados no mesmo canal, para verem a mesma coisa. Tem muita graça, eu ainda hoje sentir que fiz parte desse fenómeno e é uma coisa que já não se repete muito. Foram dois projetos muito marcantes para muitos miúdos e que ainda hoje trazem boas memórias às pessoas. Hoje, tal como na altura, acho graça a isso.

Aliás, agora até há uma renovação das gerações, em que as pessoas compram os livros e é natural que vão buscar os episódios antigos d’ Uma Aventura

Sim, até porque o público juvenil e o público infantil renovam-se todos os anos. Se tu fizeres uma telenovela o canal não vai estar sempre a repetir essa novela, porque os adultos já viram essa novela e portanto só uns anos depois é que podem repetir. Os programas infantojuvenis repetem a todos os anos e a toda a hora. Uma Aventura e Morangos com Açúcar estão a dar em loop na televisão há vinte anos, e portanto essa memória está sempre fresca. Para mim essa é uma memória que está muito distante, mas depois de repente há miúdos que passam por mim, que não eram nascidos na altura em que fiz Uma Aventura e que me vêm falar de Uma Aventura, e isso é curioso e engraçado.

Achas que é um sentimento de nostalgia, um miúdo ir ter contigo e falar de Uma Aventura, e teres de puxar da memória para esses tempos, para essa era, em que tu próprio quase não te lembras?

Sim, é uma coisa que, apesar de estar tão distante, eu estou muito habituado a que as pessoas com alguma regularidade se lembrem, é um bocadinho automático. Eu não vou, de cada vez que me falam de Uma Aventura, buscar esse sentimento nostálgico, porque é uma coisa que acontece muitas vezes, mas continuo a achar sempre graça quando as pessoas me dizem que veem, ou ‘tu fizeste parte da minha infância’, que é uma frase que eu oiço muito e eu vou gostar sempre disso, que isso aconteça.

Investiste no teatro, cinema, dobraste filmes como O Rei Leão agora mais recentemente. Apesar da pandemia e o que ela carrega consigo, o que tens planeado para o futuro?

Eu acho que ninguém tem muita coisa planeada para o futuro agora. Eu tenho a sorte de estar a trabalhar, que é uma coisa que muita gente da minha área não pode dizer. Continuo com a Avenida Q, que é um espetáculo que está em cena intermitentemente há quase quatro anos. Até ao fim do ano vou estar a fazer isso, e algumas dobragens também, e não faço ideia do que é que vou fazer em 2021, mas alguma coisa há de aparecer. Portanto é uma incógnita, não tenho planos nenhuns.

Avenida Q

Sentes que a falta de apoios do Estado colocou a tua posição em maior risco?

Os trabalhadores da Cultura, os trabalhadores intermitentes, em geral, têm muito poucos apoios em Portugal. Os apoios que se conseguiram arranjar durante a pandemia foram muito poucos. Eu não sou a melhor pessoa para falar disso do ponto de vista do testemunho pessoal, porque eu tive a sorte de, no início da pandemia, ter recebido um trabalho que tinha feito pouco tempo antes, e depois tive o apoio da GDA [Gestão dos Direitos dos Artistas], que não é um apoio do Estado e que também me ajudou bastante. Eu não cheguei sequer a receber nada do Estado. E tive a sorte de ser dos poucos, mesmo muito poucos atores que, assim que foi permitido “desconfinar”, ter começado a trabalhar. As salas abriram dia 1 de julho e eu dia 15 estava a estrear um espetáculo. Não sou a pessoa indicada para dar um testemunho de como é que funcionaram os apoios, porque felizmente não precisei.

Regressaste com a Avenida Q, de forma intermitente. Como tem sido a reação do público, a voltar às salas?  

Muito boa. Muito entusiasmante. Fomos para aí o segundo ou terceiro espetáculo a acontecer em Lisboa, portanto levámos com a primeira leva de público. Ninguém sabia se as pessoas iam aparecer ou não, se iam comprar bilhetes, foi um investimento muito arriscado, mas estamos há dois ou três meses a encher salas. E estamos super contentes com isso. As pessoas percebem que é seguro e portanto vão, cumprem as regras todas, nós cumprimos as regras do nosso lado e tem sido bastante reconfortante ver que as pessoas continuam a querer ir ao Teatro e que, de alguma forma, ainda é possível a algumas companhias sobreviver mesmo com estas regras, que não são exequíveis para todas as estruturas, é importante salientar isso.

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