Carrie Coon e Jude Law brilham em O Ninho.
IFC Films / Divulgação

Crítica. ‘O Ninho’: Carrie Coon tem-nos a seus pés

O filme está em exibição nas salas nacionais.

Nove anos depois de nos presentear com o excelente Martha Marcy May Marlene, Sean Durkin está de volta com O Ninho, um dos filmes mais assustadores do ano, mesmo estando muito longe do terror como género de cinema. Com Carrie Coon e Jude Law a brilharem nos papéis principais, a produção teima em impor-se nos Óscares de 2021.

A questão central que o filme leva até ao fim é descobrirmos se existe ainda esperança para Rory (Jude Law) e Allison (Carrie Coon) enquanto casal. Os dois, juntamente com Sam (Oona Roche), produto do primeiro casamento da mãe, e Ben (Charlie Shotwell), filho de ambos, muda-se de Nova Iorque para uma velha propriedade em Londres, porque Rory quer agarrar uma oportunidade de emprego, sentindo-se descontente com a sua condição atual nos Estados Unidos.

Uma relação condenada?

E é em Londres que a relação começa a desgastar-se, descontroladamente, ficando à beira de um precipício. Haverá salvação para estes dois? Não é que a fragilidade não estivesse lá antes. Ainda em Nova Iorque, podemos testemunhar uma família perdida para uma rotina, em que Rory trabalha como banqueiro de investimentos e Allison treina cavalos e ensina outras pessoas a praticar equitação, mas sem existir ali um elo de ligação entre os dois.

Há, aliás, uma sequência inicial que se repete, em que vemos Rory a acordar Allison todos os dias, com uma caneca de chá. Mas o casal está perdido em momentos repetitivos, e percebemos que vai correr tudo mal em Londres, logo quando, à partida, a decisão da mudança não foi inteiramente do agrado de Allison. A forma como rapidamente percebemos que a relação pode estar condenada já de início é-nos transmitida de uma maneira eficaz, em que Durkin prefere mostrar-nos este ponto com cenas do dia-a-dia ao invés de apostar na exposição e diálogo.

Rory foi o principal motor desta mudança para Inglaterra, a sua terra natal, em 1980. Lá consegue convencer a mulher a mudar-se, tendo em vista um retorno à sua antiga empresa e a mudança para a dita propriedade rural centenária, com terreno suficiente para Allison construir o seu próprio estábulo e a esperança de que o futuro seja lucrativo, do ponto de vista financeiro.

O filme, sendo de época, não é muito marcadamente, apesar de salientar contornos interessantes de uma sociedade mais atrasada, no que toca ao (reduzido) desenvolvimento de mentalidades. Por exemplo, logo ao início, Allison mostra-se desconfiada com esta súbita mudança que o marido tenta impor e pede conselhos à mãe. Esta desvaloriza a ansiedade e medo da filha, dizendo qualquer coisa como “descansa, o teu marido é que decide os destinos da família, esse não é o teu papel.”

Noutra passagem, já a pender para o final do filme, Rory marca um jantar de negócios em que decide trazer Allison, tornando-a numa autêntica “mulher troféu”. A personagem, interpretada por Jude Law, chega mesmo a dizer “mal posso esperar para te mostrar no jantar de hoje à noite”. O Ninho pode ser um filme sobre a queda de um projeto de vida de uma família, mas é, ao mesmo tempo, muito mais que isso, apresentando uma denúncia social acutilante.

A nova casa é uma mansão gigante, antiga, e vai ser o palco central no filme, onde o espaço e vazio existente vai privilegiar o afastamento dos quatro membros da família, quase até um ponto sem retorno. É interessante, aliás, a forma como O Ninho, apesar de não ser um filme de terror, tem traços disso. Logo no início, a primeira cena mostra-nos o título do filme a aparecer, no meio da vegetação a rodear a mansão de Nova Iorque, com uma música sombria a tocar por trás.

Depois há o autêntico castelo de Londres, típico dos filmes de terror, permitindo a Sean Durkin brincar com os espectadores nalgumas cenas, abrindo portas (literalmente) a outros géneros de cinema entrarem, numa mistura que nunca chega a ser sugestionada até a um fim substancial. É quase um filme enganador, mas que demonstra a linha ténue que existe entre o terror sobrenatural e o terror que é ver uma família a desmoronar-se.

Um elenco de alto nível

Jude Law dá-nos uma das suas melhores interpretações dos últimos anos com o seu Rory. O ator é brilhante nas cenas em que consegue demonstrar a raiva do protagonista quando não consegue fechar um negócio que iria salvar a família de uma falência quase certa. Já para o fim, a honestidade e fragilidade empregue pelo ator parece verdadeira, fazendo com que exista uma tristeza no espectador ao ver uma personagem condenada pelo resultado das suas ambições pessoais e pela mesquinhez do seu carácter.

Jude Law oferece-nos uma das suas melhores interpretações dos últimos anos.
IFC Films / Divulgação

Há um fator que ajuda muito: se, por exemplo, Jordan Belfort, interpretado por Leonardo di Caprio no maravilhoso O Lobo de Wall Street, era alguém que fazia coisas (como atirar anões contra uma parede só porque tinha dinheiro para tal) que nos faziam questionar se tal traste existia mesmo (e existe!), Rory faz-nos chegar a uma conclusão parecida com “espera lá que eu conheço alguém assim.” A personagem de Law, no tal jantar em que se faz acompanhar da mulher, tenta passar aos seus convidados um estilo de vida que não tem, e quantos de nós não conhecemos alguém que, junto de desconhecidos, gosta de retratar uma vida melhor do que a realidade existente?

A família nem dinheiro para comer tem e Rory refere no jantar estar a pensar a comprar uns apartamentos no Algarve, ou que vai ao teatro todas as semanas. E esta cena em específico é um dos exemplos da enorme performance de Carrie Coon, uma quase novata nestas andanças. A mulher de Rory, farta das tretas (não há outra palavra) do marido, começa a dizer aos clientes que nada daquilo que ele diz é verdade, que serve apenas para construir uma imagem por detrás de um vazio cada vez mais certo.

O papel de Allison está muito bem escrito, e Coon faz-lhe jus. Em vez de se limitar a ser a tradicional trophee wife, como Rory bem queria, a atriz consegue, de forma fulgurante, sobressair e ganhar um arco narrativo próprio, tomando conta do seu destino, mesmo que não seja isso que queira a sociedade da década de 80 em Londres. A forma como a atriz pega no cigarro e fulmina Law com o olhar num dos jantares finais é qualquer coisa de assombroso.

Carrie Coon é assombrosa no papel de Allison.
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E vale a pena recuar um bocado atrás no tempo. O ano de 2017 foi o melhor de sempre para Carrie Coon, e arrisco-me a dizer o melhor que algum artista de televisão pode ter. É que, nesse ano, a atriz estava a chegar em simultâneo às casas dos espectadores através de duas das melhores séries da década: na segunda temporada de Fargo e na terceira de The Leftovers, brilhando nas duas, mas especialmente na última, em que interpreta o papel de uma mãe que perde os dois filhos num desaparecimento misterioso de 2% da população mundial. Em 2014 tinha já entrado, com um papel secundário, em Gone Girl de David Fincher.

É quase obrigatório que se vejam os trabalhos anteriores da atriz, dado que é um verdadeiro portento artístico. E a boa notícia é que dá a sensação que acabou de chegar ao grande ecrã, havendo ainda muito papel por explorar. Do lado dos filhos, Sam é o produto expectável de um padrasto ausente e de uma mãe demasiado atarefada com o trabalho e a tentar ainda ter alguma mão na casa. Assim que chega a Inglaterra, começa a apresentar um comportamento rebelde e hostil que se compreende pelo ambiente vivido no lar. É devastador ver o ar de julgamento que Roche consegue apresentar para com os pais, sempre que começam a discutir em frente aos filhos.

O filho de Rory e Allison, Ben, é uma criança dócil e sensível, que precisa de ser protegido de toda esta tempestade que aparece na vida familiar. Não há muito mais a dizer em relação ao elenco, dado que se apresentam todos num patamar elevado, tornando O Ninho num dos filmes mais bem interpretados do ano.

Um final (in)feliz

E o filme de Sean Durkin vem explorar algo pouco comum em Hollywood: se noutras produções como Marriage Story, Blue Valentine até ao excelente Celeste e Jesse Para Sempre, o foco é sempre um pós-separação, na medida em que vemos apenas esta fase dos casais em questão, O Ninho centra-se na degradação da relação, desde os tempos de “felicidade” até a um estado de saturação. Para além de ser algo interessante de se ver, é refrescante.

É uma história adulta, que acaba por nos indicar que, muitas das vezes, não chega a haver divórcio, mesmo que as coisas corram mal. Por uma coisa ou outra, ou por um desejo de ver o parceiro mudar, mesmo que saibamos que seja difícil de acontecer, acaba por eternizar uma relação que já devia ter tido um ponto final.

A realização de Durkin, como dito, gosta de brincar com géneros cinematográficos, dando-nos impressão que estamos a ver um filme de terror passado numa mansão assombrada, mas o horror presente prende-se mais com o ponto de vista humano e a forma como a decadência, quase como uma verdadeira doença, começa a infetar a família, até culminar em algo que fica tudo menos próximo da verdadeira felicidade.

O sucesso de O Ninho está também na ambiguidade do seu final, não do ponto de vista temático, mas em relação às suas consequências. A meu ver, o argumento do próprio Durkin não nos dá um final feliz nem bombástico, o que joga ainda mais a seu favor, em dar-nos um produto que é fiel ao rumo das próprias relações humanas.

E apresenta-se como um dos filmes mais próximos do terror deste ano, sem o ser. É que às vezes, basta ver no grande ecrã uma família a desmoronar-se, ainda por cima com o poder e intensidade de Coon e Law, para sairmos do cinema completamente assustados. O Ninho é mais que recomendado nesta altura em que os cinemas precisam tanto de nós.

Carrie Coon e Jude Law brilham em O Ninho.
8.8
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