Isaki Lacuesta
Fonte: Curtas Vila do Conde

Os fantasmas de Isaki Lacuesta no 28.º Curtas Vila do Conde

Isaki Lacuesta, realizador espanhol nascido na Catalunha e de origem basca, é o foco do 28.º Curtas Vila do Conde. As obras cinematográficas compõe tanto a programação das sessões In Focus do festival como também marcam presença numa exposição especial na Solar – Galeria de Arte Cinemática.

Nove longas-metragens e três curtas-metragens compõe parte obra de Isaki Lacuesta, que desenvolve também trabalho mais expositivo e de instalações de vídeo. É um artista que funde a realidade e a ficção para obter uma reflexão verdadeiramente humana. Mas não é só o resultado final que interessa ao realizador espanhol. O processo criativo e a viagem cinemática são pontos igualmente essenciais no seu processo.

Quatro longas-metragens foram exibidas no Curtas em conjunto com sete espaços de exposição na Solar. Estes últimos podem ser visitados já depois do festival acabar, até dia 21 de novembro. O Espalha-Factos conta-te tudo sobre a presença de Isaki Lacuesta em Vila do Conde.

In Focus

Isaki Lacuesta
Fonte: Curtas Vila do Conde

La leyenda del tiempo foi o primeiro filme visionado no Curtas Vila do Conde na categoria In Focus. Trata-se da segunda longa-metragem da carreira de Isaki Lacuesta. É um documentário dramatizado, que reúne duas histórias contadas em paralelo e ligadas pela música de Camarón de la Isla.

Numa conversa com Isaki Lacuesta, à qual o Espalha-Factos assistiu, o realizador explicou que viveu “durante um ano com o elenco”, acompanhando a evolução real dos atores física e psicologicamente. Para o artista, La leyenda del tiempo não se insere num género típico, referindo-se ao trabalho como “um retrato” das pessoas e do local onde vivem.

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A segunda longa-metragem a ser exibida foi também a mais recente. Entre Dos Aguas retrata dois homens com a mesma tatuagem e  em situações de confinamento, ainda que distintas – um está preso, o outro num navio da marinha espanhola. Ao encontrarem-se, descobrem que a tatuagem implica que são irmãos.

Para além do processo de desenvolvimento ser semelhante ao filme anterior, um dos protagonistas de Entre Dos Aguas é interpretado por um dos atores de La leyenda del tiempoIsrael Gómez Romero era um miúdo de doze anos quando o conhecemos, mas no segundo filme é já um homem adulto com família. Esta intertextualidade entre obras foi inesperada para Lacuesta, mas o realizador admite que sempre teve o sonho de acompanhar a vida destes atores ao longo da sua filmografia.

Isaki Lacuesta
Fonte: Curtas Vila do Conde

La noche que no acaba também marcou presença no alinhamento do Curtas, o que surpreendeu o artista. Explica que é uma “obra encomendada” que não tem tanto a ver com os seus próprios impulsos e que, por isso, há muitos anos que não a revia nem a tinha em consideração.

É um documentário que reflete o papel da atriz Ava Gardner, que se mudou para Espanha depois de um divórcio tumultuoso com Frank Sinatra. O filme estabelece um diálogo entre Pandora and the Flying DutchmanHarem, que marcam o início e o fim da fase espanhola da carreira da atriz. É uma reflexão sobre Gardner, o cinema e o seu processo ilusório.

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Por último, o programa terminou esta sexta-feira (9) com a primeira longa-metragem de Isaki Lacuesta. Cravan vs Cravan é quando o realizador descobriu “que podia haver uma ligação entre a ficção e a realidade” ou, como prefere definir, “entre o que é planeado e o que é gravado organicamente”.

O documentário fala sobre Arthur Cravan, uma figura mítica que até hoje deixa dúvidas quanto ao facto de ter existido. Era pugilista, poeta e sobrinho de Oscar Wilde, tendo desaparecido misteriosamente no México em 1916. Isaki Lacuesta entrevista historiadores e académicos enquanto procura provas da existência desta figura mítica. Simultaneamente, um Cravan fictício, interpretado por um ator de feições semelhantes ao retrato da figura original, mimetiza a vida do verdadeiro.

Isaki Lacuesta
Fonte: Curtas Vila do Conde

Exposição

À entrada do Solar – Galeria de Arte Cinemática temos uma obra exibida na Loja Curtas. Lugares que no existen. Goggle Earth 1.0 pretende encontrar locais escondidos pelo motor de busca mais popular do mundo. Ao contrário do que se possa pensar, não existe um erro de escrita no título. A brincadeira com a palavra goggle (neste caso a referenciar binóculos) realça o propósito revelador da obra.

Indo em frente, na Sala A temos Où en ête-vous Isaki Lacuesta?“Onde é que está Isaki Lacuesta?” em português -, uma coleção de encomendas feitas a vários realizadores para responderem justamente à pergunta enunciada. O artista espanhol captou imagens na África do Sul, Rússia, Cuba, Qatar e Espanha. Uma forma de Lacuesta dizer que está tanto cá, como lá.

A Sala B do Solar tem a instalação L’acusat (O Acusado), que consiste em duas projeções duplas que retratam os arredores de El Rocío – “a Fátima espanhola”, como diz Isaki Lacuesta. A partir de quatro pontos cardeais – igreja, bar, caça e Guarda Civil – o realizador segue um caso de duplo homicídio, no qual o arguido costumava frequentar estes quatro espaços.

Microscopies está em exibição na Sala C. Tal como o nome indica, vários objetos são observados através de um microscópio de alta resolução. Cada elemento aparenta ter infinitas camadas que nos transportam para realidades que não atribuíamos a objetos tão mundanos como uma pintura do século XIX ou uma nota de um dólar.

Curtas
Fonte: Curtas Vila do Conde

Antes de chegarmos à Sala D, temos de passar por um corredor onde três obras estão expostas. Ramírez (11012017) e Dar a luz são o resultado da colaboração de Isaki Lacuesta com o músico Refree. Os visitantes vão poder visionar filmagens que ilustram um tema do álbum instrumental Jai Alai Vol.1 e um videoclipe para uma canção composta para o filme Entre dos Aguas. A complementar temos Lunaby, um poema retrato com música original de Daniel Fígols.

Ultrapassado o corredor, damos de caras com uma exibição de quatro obras diferentes na Sala D. Fatherless, Grite PelaoTangos de la vía lactáPar coeur & The Womb são quatro músicas da cantora Sílvia Pérez Cruz que tiveram direito a videoclipes realizados por Isaki Lacuesta. De realçar a participação da atriz Alba Flores, a Nairobi de La Casa de Papel.

Ao regressar à entrada podemos pensar que já vimos tudo, porém ainda há mais uma peça que integra a exposição. Na cave da Solar temos El Rito, a obra mais brutal e desafiante de todo o conjunto. Trata-se de um olhar sobre um matadouro localizado em Girona. Sem qualquer mensagem política, Isaki Lacuesta apenas retrata a verdade inconveniente de como a carne chega ao nosso prato. Provocativo e visceral, El Rito é cinema que documenta o tabu que não queremos reconhecer.

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O realizador espanhol acredita nisso mesmo, que a Sétima Arte deve mostrar “realidades que são profundamente humanas” e que ainda existe um enorme conservadorismo dentro do se que pode ver no espaço cinemático. O foco do Curtas Vila do Conde permite-nos conhecer melhor um artista de obra extensa, versátil e sempre criativa.

Não obstante, existe uma máxima que aparenta guiar o Isaki Lacuesta: “Procurar os ecos e os fantasmas que formam o Cinema. Porque tudo o que vemos num filme aconteceu no passado”.

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