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Agir: “toda a gente é capaz de concordar que não vive sem cultura”

Em entrevista com o Espalha-Factos, Agir falou-nos da sua carreira, causas em que acredita, saúde mental e o setor da cultura.

Agir atuou no Village Underground, em nome da União Audiovisual , grupo criado com o intuito de apoiar os profissionais da área da cultura, durante o período de pandemia. O Espalha-Factos esteve à conversa com o artista para saber mais sobre a sua carreira, causas em que acredita, saúde mental e o setor da cultura.

Com um público dos 8 aos 80, o cantor, compositor e produtor era conhecido por ser uma criança rebelde. Os amigos mais próximos apelidavam-no de Agir e era assim que Bernardo de Carvalho Costa assinava os seus graffitis. Hoje em dia continua a fazê-los, mas o nome que consta por baixo não é o mesmo, “não seria muito conveniente”. Não pensava muito nas coisas que fazia, agia sem remorsos, sem qualquer tipo de apreensão. Hoje, autocaracteriza-se como uma pessoa mais ponderada. Mas claro, há experiências que nos marcam para sempre.

Bernardo … primeiro que tudo,  porquê Agir?

Vem de quando eu era mais novo. Eu fazia graffiti tinha a mania que era rebelde e, por isso, esse tornou-se o meu nome de guerra, desde os 12/13 anos. Mais tarde acabou por fazer sentido adotar Agir como nome artístico. Ao início não foi assim tão pensado quanto isso, mas depois começou a fazer sentido porque eu, efetivamente, não pensava muito nas coisas que fazia. Agia só. Hoje em dia já sou um bocadinho mais ponderado.

Tu começaste a compor muito novo. Esse talvez seja o motivo pelo qual tens um público tão diversificado. Reveste nas canções que escreveste nessa altura?

Eu estou com 32 anos. Houve letras que escrevi com 13/14 e, obviamente, não me revejo. O que eu conhecia na altura é diferente daquilo que eu conheço hoje. Deixa-me orgulhoso, mas agora considero que até é um bocado ofensivo chamar àquilo músicas, aquilo eram, pronto … experiências, brincadeiras, por aí. Fizeram parte do meu caminho e ainda bem.

Começaste a cantar com 5 anos, fado, não é verdade?

Não posso dizer que foi exatamente com 5 anos. Isto porque a minha realidade em casa era um bocado diferente e artística. Tinha desde os amigos dos meus pais, os meus próprios pais … eu gostava de cantar, mas não pensava muito nisso.

Sim, comecei pelo fado. O meu pai compôs muitos fados para diversos artistas. Eu passava também muito tempo com o Carlos do Carmo, que não era meu padrinho porque eu não sou batizado, mas intitulou-se como tal. Ou seja, o fado estava muito presente na minha vida. Provavelmente, muito mais naquela onda de brincadeira e de querer imitar alguma coisa, brincava … mas era mais por aí.

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O fado tem alguma influência na música que compões hoje em dia?

Eu gosto de acreditar que sim. Atualmente, a minha música é muito mais para o soul, r&b, hip hop … mas eu sempre fiz música para uma data de gente. Sempre compus músicas de fado, não as usava é para mim, dava a colegas. Portanto sim. Para as minhas músicas pessoalmente, eu acho que tudo ajudou – ouvir soul, funk, hip hop, fado – o fado, provavelmente, mais a nível da escrita. Tudo fez parte de um caminho, portanto, gosto de acreditar que sim, que contribuiu de alguma forma.

Como têm sido os últimos meses? Tens aproveitado para compor?

Tenho aproveitado para compor e para escrever outras coisas para além de canções. Não sei dizer se são contos … se são crónicas. Tenho feito imensas coisas que não costumo ter tempo para fazer. Há vários anos que eu não tinha um verão em que conseguisse passar férias. Este ano consegui. Ah e claro, também pus a Netflix em ordem, acho que já não há muita coisa na Netflix que eu não tenha visto. Este período tem sido muito importante para refletir, pôr em prática projetos que nunca tinha tempo para começar.

Já pensaste em publicar o que escreves?

Gostava. Estamos a pensar onde porque, na minha modesta opinião, o público que me segue ou que gosta das minhas coisas, maioritariamente, não estará habituado a ver-me escrever crónicas. Se calhar alguns são tão novos que nem têm muito interesse. Já o público que tem interesse em ler crónicas não sabe que eu as escrevo. Ainda estamos a tentar perceber como chegar até esse público. Acho que não chegam só os meus meios, talvez tenhamos de arranjar um jornal ou uma revista onde poderá fazer sentido … ainda estamos à procura.

De que forma é que a pandemia mudou a tua vida? Consideras que a pandemia influenciou as tuas letras?

É assim … eu aproveitei para fazer uma enorme quantidade de coisas que não fazia antes. Uma delas foi ler, tenho andado a ler bastante e obviamente, quanto mais lês, mais influenciado és … seja a nível do português ou das próprias histórias que absorves. Eu acho que qualquer pessoa que viva do ramo artístico bebe de tudo o que puder fazer. Se eu estiver a ler, hei de beber de ler, se for ver um filme, hei de beber de filmes.

Não tão artisticamente, acho que a pandemia me ensinou muito a relativizar as coisas. Eu era uma pessoa muito stressada, estava sempre a ter ideias e queria sempre pô-las em prática para amanhã. Não quer dizer que esteja molengão e que não queira fazer coisas … simplesmente percebi que se não se fizer hoje, faz-se amanhã. Não é preciso andar sempre de um lado para o outro, também é necessário desfrutar. Eu tinha muito dificuldade em aproveitar as coisas boas que me aconteciam. Nós fomos tocar ao coliseu e eu já estava a pensar em como ia ser o próximo videoclip. Agora percebo que não vale a pena pensar já no videoclip, primeiro desfruto do coliseu. Nesse sentido, estes tempos obrigaram-me a ‘acalmar’. O que tiver de ser, será.

Ultimamente, tens utilizado muito as redes sociais para expor as causas em que acreditas. Deste a tua opinião relativamente ao movimento Black Lives Matter, Feminismo … consideras-te uma pessoa de causas?

Eu nunca fui muito reivindicativo. Sempre fui um bocado bicho do mato, por vezes, tenho tendência a isolar-me na minha bolha. Achava que existiam coisas menos boas, claro, mas que eram pontuais e que não eram assim tantas. Agora, quando paras um bocadinho e começas a perceber que coisas que para ti e para as pessoas que te rodeiam são senso comum, pelos vistos não são assim tão senso comum … e estou a falar, principalmente, a nível de direitos humanos. Eu acho que os direitos humanos nem sequer deveriam ser uma ideologia, de direita ou de esquerda. Os direitos humanos são direitos humanos. Tive uma fase de expor muito isso nas redes sociais. É bom dar voz a uma coisa ou outra, mas tenho sérias dúvidas que as redes sociais sejam o sítio indicado para isso, ou que se vai resolver alguma coisa ali. Já acalmei um bocadinho e agora estou a tentar entrar em contacto com pessoas em quem eu acredito. É sempre melhor colocar as mãos na massa, em vez de dizer umas coisas nas redes sociais de vez em quando. Há coisas a que chamamos causas que nem deveriam ser designadas como tal. Deveriam ser senso comum, mas como ainda não o são têm de ser causas.

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Lançaste em abril a Mais que Bom com o Vitão e em maio a Alma, cujos fundos revertem para a associação SOS Voz Amiga. Qual é a história desta canção?

A Alma foi um bocadinho como as outras músicas que é estar em casa às tantas da manhã, quando já está tudo um bocado mais calmo, e pronto, começou-me a sair a canção. A música nitidamente fala sobre solidão e o que ela pode originar, problemas de saúde metal, por aí. Antes de pensar na SOS Voz Amiga pensei que estávamos numa altura em que as ruas de Lisboa estavam vazias. Aquelas ruas que estamos habituados a ver cheias de movimento – a rua cor-de-rosa, avenida dos aliados – são ruas difíceis de imaginar sem gente. Foi aí que começámos à procura e encontrámos a SOS Voz Amiga. Entretanto, tive a oportunidade de falar com o presidente da Associação para entender um pouco melhor esta realidade. Mais uma vez estava na minha bolha e achava que estes problemas não existiam com tanta frequência. Escrevi esta letra durante a pandemia e foi um processo bastante rápido. Fiz a música em um dia, passados três dias estávamos a filmar na rua e uma ou duas semanas depois, a canção estava cá fora com a ajuda da SOS Voz Amiga.

Deste um concerto com o intuito de angariar fundos para a União Audiovisual. Mais uma causa na qual estás envolvido. Como é que encaras esta realidade: a falta de apoios públicos à cultura, durante o período de pandemia?

Acho que toda a gente é capaz de concordar que não vive sem cultura. Ainda assim, não acho que as pessoas a considerem essencial. Vêm-na como um bem garantido, que deve haver simplesmente. Talvez a pandemia contribua um bocadinho para mudar esta mentalidade. Esta é uma área muito precária, portanto, obviamente, que numa altura como esta, pior ainda.

A maioria das pessoas que trabalha nesta área não é assim tão protegida a nível laboral. Quando acontece uma situação deste género que ninguém controla e que, claro, não é culpa de ninguém, a situação agrava-se. A cultura foi umas das primeiras áreas a sentir os efeitos da pandemia e calculo que será das últimas a poder levantar-se. Por mais vacinas que existam e isso ainda vai demorar, as pessoas vão levar algum tempo a sair das suas casas. Como estão sem dinheiro, não querem gastar o que têm e depois existem sempre alguns receios relativamente à segurança. Para o ano temos também eleições e muitos dos concertos que se fazem em Portugal são de câmaras. Numa situação como esta, os presidentes de câmara não vão querer arriscar levar com comentários do género “que falta de inconsciência fazerem concertos em plena pandemia”. Temos que aprender a lidar com esta situação. Se ela servir para falarmos, de uma vez por todas, da precariedade que existe no setor da cultura e não só, ainda melhor.

Na música, Vai Madonna!!!, que faz parte do teu último álbum, No Fame, fazes uma crítica à ‘visão’ portuguesa. Achas que isso pode estar relacionado com a situação que o setor da cultura vive, atualmente, em Portugal?

Essa música tem mais a ver com o facto de nós portugueses gostarmos muito do que vem de fora e, muitas vezes, não valorizarmos o que já temos. Não quer dizer que o que vem de fora não seja bom. Mas também temos artistas brilhantes em Portugal. Isso é uma coisa muito nossa, muito de pequenez “o fruto do vizinho é sempre melhor que o nosso” e não é bem assim. Os espanhóis, por exemplo, obviamente que ouvem Beyoncé, mas também gostam muito de música espanhola. O mesmo acontece com o povo angolano e o povo brasileiro. A verdade é que música portuguesa e cantada em português só começou a vingar há cerca de 5/10 anos. Dillaz, Wet Bed Gang … acho que nunca se ouviu tanta música portuguesa como agora. Ainda assim, continua a haver muito trabalho pela frente.

Acharmos que o que vem de fora é melhor que o que já temos, não é a principal causa da situação da cultura em Portugal, mas claro que não ajuda. É um bocadinho uma bola de neve, tanto para o mal como para o bem. Cada vez existem mais artistas, melhores videoclips mais concertos. Há pessoas que dizem que antigamente não se ouvia tanta música portuguesa porque ela não era tão boa. Eu discordo mas sou suspeito. A música já era muito boa na altura … há coisas que agora poderão estar melhores, talvez mais a nível da música pop que evoluiu bastante. Temos todos de fazer a nossa parte.

Na minha humilde opinião, a cultura deveria estar logo a seguir à educação. Ou seja, eu considero que um povo sem educação e sem cultura é um povo pobre. É certo que a cultura não pode ter o mesmo peso no orçamento de estado que a educação, mas deveria estar logo a seguir.

Agir, se só pudesses cantar, compor ou produzir para o resto da tua vida  … qual é que escolhias? 

Eu associo muito o produzir e o compor porque costumo fazê-los ao mesmo tempo. Se me separes o produzir e o compor de dar concertos ao vivo … eu considero-me mais um músico de estúdio. Gosto muito de tocar ao vivo, mas prefiro estar no meu espaço a compor.

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Qual foi a música que gostaste mais de compor e porquê?

É muito difícil porque é o mesmo que responder a “qual dos teus filhos é que gostas mais?”. Embora os pais tenham sempre um preferido e não nos digam (risos). Mas … eu compus uma música quando tinha 15 anos, O meu mundo inteiro, que me ficou sempre na memória. Na altura, o meu pai entrou no meu quarto quando eu estava a compor a canção … gostou tanto que acabou por ficar com ela. Quando escrevi esta música estava numa altura menos boa da minha vida e, portanto, ela acabou por ser um puxão de orelhas para mim próprio. É uma música simbólica. Mas se é a preferida … eu normalmente gosto sempre da última música que componho. Faço a música, gosto, oiço durante uma semana ou duas e depois desligo. Raramente oiço as músicas quando já estão feitas e saem para fora. Começo logo a pensar na próxima.

Vês-te a ter uma carreira internacional?

Sim. Eu tenho algum público internacional, obviamente de língua portuguesa ainda. O facto de ter feito parcerias com artistas como o Vitão ou de ter atuado no Rock in Rio, no Brasil, facilitou. Costumo receber algumas mensagens no Instagram e vejo algumas partilhas que a malta faz.

Como produtor já fiz algumas coisas em Los AngelesMiami para artistas de lá e, claro, gostava de continuar. Compus para uma drag queen, a Valentina, que aparece num programa, o RuPaul’s Drag Race, penso que até esteja na Netflix. A música foi para ela e para a plataforma de streaming. Compus também para a Manu Manzo. O mercado de Los Angeles e Miami é muito latino, reggaeton, dentro desse género. Portanto, fiz algumas música para o mercado americano, mas não foi algo muito planeado. Estava lá de férias e, por acaso, como também não adoro estar de férias, acabou por acontecer. Mas sim, claro que gostava de ter uma carreira internacional enquanto cantor. Tenho é de perder o medo de voar … é só por isso que ainda não consegui elevar a minha carreira esse nível (risos).

E agora … aquilo que todos queremos saber: Para quando um novo álbum?

Eu já tenho uns 3 álbuns prontos, mas enquanto continuar a ouvir COVID no telejornal .. acho que as pessoas não estão mentalmente disponíveis para o receber. Se um single já é o que é. Eu não lanço um álbum há algum tempo, mas quando lançar quero sentir que é o momento certo. O meu próximo álbum vai estar muito relacionado com a saúde mental e tem toda uma promoção que eu gostava de fazer. Portanto, prefiro esperar, não tenho pressa, continuo a fazer músicas em estúdio e a produzir para outros colegas e amigos. O álbum está pronto, é só a situação acalmar.

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