John Lennon
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80 anos de John Lennon: 5 entrevistas que marcaram a vida do músico

A vida de John lennon em 5 entrevistas diferentes.

John Winston Ono Lennon nasceu a 9 de outubro de 1940. Foi o fundador da banda Quarrymen, que mais tarde deu origem aos The Beatles, com a entrada de Paul McCartneyGeorge HarrisonRingo StarrA banda vendeu perto de 250 milhões em todo o mundo, a dupla Lennon-McCartney tornou-se a parceria mais bem sucedida de todo os tempos.

No que seria o 80º aniversário do cantor, o Espalha-Factos recorda John Lennon através de cinco entrevistas em cinco momentos bastante distintos da sua vida.

Radio Clatterbridge, primeira entrevista dos Beatles na rádio, 28 de outubro de 1962

A primeira entrevista que John Lennon deu foi com os Beatles, em outubro de 1962. A entrevista ocorreu entre o lançamento do singleLove Me Do’ e as gravações de ‘Please Please Me’, o debut da banda. Ringo Starr tinha acabado de entrar e a banda ainda dava concertos em Hamburg, na Alemanha.

A conversa foi orientada por Monty Lister, para uma estação de rádio que operava num circuito fechado, ao serviço dos Hospitais de Cleaver e Clatterbridge.

Para além de ser um marco histórico na banda, a entrevista é importante, porque ilustra o cariz misterioso e a cumplicidade dos Beatles.

Para além de Lister, dois adolescentes colocaram perguntas aos Beatles, Malcolm Threadgill e Peter Smethurst, que se revelaram bastantes interessantes. Threadgill pergunta-lhes se já tinham lançado mais algum disco para além de Love Me Do. Paul McCartney confessa que sim: um single que foi bastante popular na Alemanha, mas que não obteve qualquer sucesso em Inglaterra, e uma canção para um EP de um artista francês. É também Threadgill que coloca a pergunta mais relevante da entrevista: quem escreve as letras das canções?

Esta é a primeira vez que o mundo ouve falar da dupla Lennon-McCartney . McCartney afirma que a dupla escreveu mais de uma centena de canções, mas que não usam nem metade. Junto de Bob Dylan, cultivaram a personalidade do letrista, na música pop. Até lá, as letras na música pop não eram nada mais do que slogans, passados de mão em mão, sem nenhum significado especial para quem cantava.

Podes ouvir a entrevista na íntegra em baixo.

Conferência de Imprensa do Aeroporto de JFK, 7 de fevereiro de 1964

Dois anos depois, os Beatles não eram somente o número um em Inglaterra. Graças ao single ‘I Want to Hold Your Hand’, os Beatles eram a banda mais ouvida nos Estados Unidos da América. A banda foi descoberta pela adolescente Marsha Albert, que escreveu uma carta à WWDC a pedir para passarem o single. Semanas depois, Albert introdziu os Beatles aos Estados Unidos com Senhoras e senhores, pela primeira vez nos Estados Unidos, os Beatles, com I Want to Hold Your Hand“. 

Oitos dias depois, os Beatles aterram em Nova Iorque, para tocarem no Ed Sullivan Show, para 73 milhões de espectadores. Em junho, chegou às lojas o disco A Hard Day’s NightI Want to Hold Your Hand permanceu no #1 da Billboard durante sete semanas, só para ser destronado por ‘She Loves You’, outro êxito dos Beatles.

Dois anos depois da conversa com Monty Lister, a banda estava muito diferente: mais confiantes, ainda mais engraçados, e com uma aliança nova, The Rolling Stones, para quem escreveram ‘I Wanna Be Your Man’. O single foi o primeiro êxito dos Stones, em Inglaterra. Antes de serem engolidos pela multidão que os esperava à porta do aeroporto, ou de serem interrogados por repórteres que não percebiam o que havia ali de tão interessante, a Beatles posaram para a famosa foto, com o sol azul da Panam a espreitar. A Beatlemania estava a começar.

Beatles chegam à América.

Nova Iorque estava cheia de barulho; Ringo Starr recorda ter-se sentido agarrado como por um “polvo” antes do avião ter sequer aterrado. Na conferência de imprensa, a banda não ouviu metade das perguntas, os repórteres não apanharam metade das respostas. Em frente a um painel com anúncios publicitários, por detrás de dezenas de microfones, John, Paul, George e Ringo apresentaram-se à comunicação social americana. Foram vistos como quatro aliens: Mick Jagger recorda que, antes de ‘I Want to Hold Your Hand’, a música britânica não tinha lugar nas rádios norte-americanos. O single deu origem à British Invasion: depois dos Beatles vieram os Rolling Stones, The Birds, The Animals, The Kinks. Estas bandas já eram conhecidas no Reino Unido, mas foram os quatro de Liverpool que arrombaram as portas americanas e os empurram lá para dentro.

A conferência foi marcada pelas piadas e pela postura rebelde da banda. Foi mais tarde parodiada no filme A Hard Day’s Night. Quando lhes foi perguntado se se sentiam envergonhados com a loucura que causavam, John respondeu “Não, é fantástico”, seguido de “Nós gostamos de loucos”. Os repórteres estavam incrédulos com aquelas quatro personagens que não respondiam o que eles queriam ouvir. Perguntaram-lhes o que achavam da campanha que estava a decorrer em Detroit, para expulsar os Beatles do país, ao que Paul McCartney respondeu “O que é que tem?” e “Nós vamos começar uma campanha para expulsar Detroit”. A pergunta de ouro da conferência de imprensa foi “Que conversa é esta de que vocês representam uma espécie de rebelião social?”. John Lennon respondeu com “É uma mentira nojenta. É uma mentira nojenta”, seguido de risos.

Havia uma áurea neles que não existia em nenhum artista americano, um espírito rebelde que já se ouvia nas primeiras canções. A era de Buddy Holly, de lancheiras vermelhas com garrafas de Coca-Cola, foi atropelada com a chegada dos Beatles. Elvis foi para a guerra, mas Lennon escreveu inúmeras canções de protesto.

É impossível não falar dos Beatles, quando se fala da cultura americana nos anos 60. Não podemos que esquecer que a banda se recusou, em 1964, a tocar para audiências segregadas, na Florida. Um ano depois, desta vez na Califórnia, mantiveram o que foi dito. Os Beatles reconheciam que a música que tocavam era uma herança de Little Richard, de Fat Dominos, de Ray Charles.

Os Beatles foram instrumentais no movimento contracultura dos anos 60. O legado da banda vive na música, mas também na agenda política de milhares de jovens americanos, que viram na televisão quatro homens de cabelo comprido e sentiram o despertar de algo que nem eles sabiam descrever, mas que significava progresso. Tudo isto depois das cinco palavras mágicas “Senhoras e senhores, The Beatles”, que saíram da boca de Ed Sullivan.

Podes ver a performance dos Beatles no Ed Sullivan Show em baixo.

London Evening Standart, “Mais populares que Jesus”, 4 de março de 1966

Os Beatles deixaram de dar concertos depois de 1966. Existiram várias razões para que isso acontecesse: ficavam exaustos depois das digressões, queriam passar mais tempo com as esposas, e investir mais tempo no estúdio. No entanto, a famosa frase de John Lennon também contribui para esta decisão.

A frase mais famosa de John Lennon é, sem margem para dúvida, “Nós (The Beatles) somos mais populares que Jesus”. O comentário foi feito para o London Evening Standart, numa reportagem escrita por Maureen Cleave, uma amiga de longa data.

A peça intitulava-se “Como vive um Beatle? John Lennon vive assim”. O comentário veio na sequência de uma reflexão sobre o cristianismo. “O cristianismo vai desaparecer. Vai encolher e desaparecer. Não preciso de debater isso; tenho razão e o tempo vai provar isso. Agora nós somos mais populares que Jesus. Não sei o que vai desparecerá primeiro, rock ‘n’ roll ou Cristianismo. Jesus até era porreiro mas os seus discípulos eram burros e ordinários”.

O comentário passou bastante despercebido em Inglaterra, mas não na América. A reportagem foi impressa numa edição da Datebook, uma revista americana para adolescentes. No entanto, a frase foi tirada do contexto. Nas palavras de John Lennon, “Quando chegou lá (aos Estados Unidos) e é espetado numa revista para putos, e são só parcelas do que foi dito ou o que lhes apeteceu, perde-se logo o significado ou o contexto… e toda a gente começa a criar a sua própria interpretação”. Se os Beatles não foram bem recebidos por toda a gente em 1964, isto não melhorou o seu caso. Multidões queimaram fotos, merchandise e até mesmo discos da banda. John Lennon ficou aterrorizado e não quis sair de Inglaterra.

Na digressão de 1966, na América, John Lennon foi fuzilado com estas perguntas em várias conferências de imprensa. Em Chicago, John Lennon tentou esclarecer a situação: “As minhas opiniões foram formadas com base naquilo que li ou que observei sobre o cristianismo, sobre o que foi, e sobre o que tem sido, ou que poderá vir a ser. Para mim, parece que está a encolher. Não estou a derrubá-lo ou a dizer que é mau. Parece-me que está a encolher e a perder o contacto (com as pessoas)”.

Dois anos depois do começo da Beatlemania, John Lennon estava farto de ser vendido como um produto. Se os Beatles, enquanto banda, já tinham progredido para lá da música yié-yié, então os Beatles, enquanto quatro indíviduos distintos, também tinham crescido.

New Musical Express, “Os Beatles à beira da rutura”, 13 de dezembro de 1969

Em 1969, os Beatles gravaram os seus últimos dois álbuns : Abbey Road e Let it Be. As sessões foram marcadas por desentendimentos e pela presença constante da esposa de Lennon, Yoko Ono. Embora tenha sido lançado em 1970, Let It Be começa a ser gravado um ano antes, sob o título Get Back. No entanto, as sessões foram de mal a pior e a banda decide começar outro projeto, que viria a ser Abbey Road.

Vários jornalistas apontam 1969 como o ano em que o movimento hippie acabou, depois dos motins no Altamont Free Concert, que interromperam concertos dos Rolling Stones e dos Jefferson Airplane. Os anos 60 estavam a chegar ao fim, assim como as ideologias e os movimentos que os caraterizam, para melhor e para pior. O casamento de Paul McCartney com escocesa Linda Eastman causou controvérsia nos fãs, que esperavam que o baixista continuasse solteiro. As caras jovens estavam a envelhecer e as pessoas a tornarem-se mais caseiras. Bob Dylan, por exemplo, lança neste ano Nashville Skyline, um álbum caraterizado pelas baladas country. Até o cantor de voz nasalada de ‘Blowing in the Wind’ parece ter pousado as luvas.

No último mês deste mesmo ano, a NME, New Musical Express, publica um artigo intitulado “The Beatles Estão À Beira do Abismo”. À conversa com Alan Smith, Lennon revela o que está a causar desentendimentos na banda e como isso poderá levar à rutura dos Beatles: a banda tem opiniões distintas sobre como gerir a Apple, talento de George Harrison para escrever canções ofusca a parceira Lennon-McCartney. “Não quero estar seis meses a gravar um álbum que só tem duas músicas escritas por mim. Nem o Paul nem o George, provavelmente”.

Pode estar enganado, e espero estar, mas vivem-se dias negros nos Beatles. Pergunto-me quanto mais tempo aguentará uma banda com tanto talento individual”, escreve Smith. “John Lennon inclina-se para a luta pela paz e para a sua nova banda, Plastic Ono Band; Ringo inclina-se para uma carreira no cinema casa vez mais frutífera; George Harrison revela um talento escondido como letrista; Paul McCartney inclina-se para a Escócia, para suas próprias composições… e para o silêncio”.

Lennon relata as sessões de estúdio dos Beatles e problematiza uma possível separação da banda. “Se os Beatles se vão separar? Isso depende do quanto queremos gravar coisas juntos. Eu não sei se quero continuar a gravar junto com eles. Penso nisso. Penso mesmo. O problema é que antigamente, quando precisávamos de um álbum, o Paul e eu juntávamo-nos e produzimos canções suficientes para isso (o álbum). Agora, somos três a escrever prolificamente e a tentar encaixar tudo num álbum. (…) Nenhum de nós quer tocar música de fundo. É um desperdício. Não passamos dez anos para ‘chegar lá’ e ter liberdade criativa num estúdio de gravação, para cada um de nós ter duas músicas no álbum. (…) Foi por isso que comecei a Plastic Ono Band e a trabalhar com a Yoko (Ono)… para ter um escape”.

Ainda em 1969, os Beatles voltam aos concertos, ao fim de três anos. No telhado da Apple, vestidos com os casacos das esposas, a banda toca algumas das canções que tinham acabado de gravar. A performance fez sucesso, mas foi interrompida pela polícia, pouco depois de começar.

Em 1970, a banda separa-se definitivamente. Contudo, nem tudo foram más notícias: John Lennon e George Harrison nunca pararam de escrever e gravar música, Paul McCartney e Ringo Starr ainda lançam álbuns. O rugido do fim dos Beatles foi tão grande que o jornalista David Hepworth opina que a década de 70 só começou, no mundo dá música, em 1971.

A década de 1970 viu os quatro Beatles a voarem cada um na sua direção, no entanto, foi maioritariamente marcada por artistas que beberam das suas influências, como Black Sabbath, David Bowie e Pink Floyd.

Rolling Stone, John Lennon: The Last Interview, 8 de dezembro de 1980

Três dias antes de ser assassinado, John Lennon falou durante nove horas com o editor da Rolling Stone, Jonathan Cott, no apartamento de Lennon e Ono, em Nova Iorque, no Upper East Side. A intenção era publicar a entrevista na primeira edição de 1981, mas Cott decidiu escrever um obituário e usou muito pouco material dessa conversa. A publicação norte-americana só disponibilizou a entrevista trinta anos depois da morte do cantor, em 2010. No entanto, Cott nunca transcreveu as nove horas de gravação na íntegra.

Lennon tinha acabado de lançar Double Fantasy, um disco com canções escritas por ele e por Yoko, e preparava-se para voltar aos palcos, depois de cinco anos dedicados à esposa e ao filho único do casal Sean Ono Lennon. Yoko explica a Cott a inspiração para Double Fantasy . “Enquanto estavam em Bermuda, John ligou-lhe (a Yoko) a dizer que tinha levado Sean a visitar um jardim botânico e que tinham descoberto uma flor chamada de Double Fantasy (Fantasia Dupla)“. Para o casal, “significou que, se duas pessoas olharem para a mesma imagem ao mesmo tempo, é um segredo“. Do outro lado da fantasia, John conta que quando estava num discoteca em Bermuda, ouviu uma canção que lhe lembrou da música de Yoko. “Portanto, disse a mim mesmo, ‘Está na altura de pegar no machado e acordar a mulher‘”. Cott escreve que “Ela (Yoko) e John falaram ao telefone todos os dias e cantaram, um para o outro, as canções que tinham composto naquele dia“.

Cott teve o prazer de falar com um John Lennon muito diferente do que Alan Smith encontrou. Este não estava consumido com a pressão de gerir uma empresa, ou ansioso por saber quantas músicas escritas por ele é que iam aparecer no próximo álbum dos Beatles. Em 1980, Lennon estava mais preocupado em estar com a família e em desprender-se do passado. Conta a Cott que Yoko lhe deu uma faca da Guerra Civil Americana “para cortar as energias negativas, para cortar laços com o passado, simbolicamente“.

A entrevista abrangeu temas que foram desde a religião a Marlon Brando, da luta pela paz mundial a James Dean. Lennon abre-se sobre as dificuldade de ser pai. Confessa que não sabe brincar e que a depressão torna difícil algumas interações com Sean. “Recolher e dar, recolher e dar. (…) Meter Yoko e Sean ou o gato ou alguém acima de mim (…) deixa-me tenso. Claro que há uma recompensa, alegria… mas mesmo assim“. Por exemplo, John escreveu uma música sobre Sean, ‘Beautiful Boy’, mas sente remorsos por não ter passado esse tempo com o filho. “Estou sempre a pensar em coisas assim. Portanto, eu posso escrever uma canção sobre a criança, mas seria melhor para mim ter passado tempo a jogar à bola com a criança do que ter passado tempo a escrever uma canção“.

No entanto, a definição de sucesso, para ele, foi-lhe trazida por Yoko, como podemos ouvir na música, Woman, “Mas o que a Yoko me ensinou foi a verdadeira definição de sucesso: o sucesso da minha pessoa, o sucesso da minha relação com ela e com o nosso filho, a minha relação com o mundo… e sentir-me feliz quando acordo“.

80 anos depois: qual é o legado de John Lennon?

Nos últimos anos, John Lennon tem sido descrito como uma figura hipócrita: cantava sobre paz mundial, mas agrediu física e verbalmente a primeira esposa, Cythia Powell, assim como o primeiro filho Julian Lennon; cantava sobre amar Yoko acima de tudo o resto, mas teve um relacionamento extraconjugal com May Pang. No entanto, a sua música sobrevive e continua a alargar a sua base de fãs, que soma mais de sete milhões e meio de ouvintes mensais no Spotify, enquanto os Beatles têm 22 milhões.

Nenhum artistas conseguiu vender mais disco que os Beatles, mas o legado da banda não reside só nos 250 milhões de discos vendidos. O legado da banda reside em ter criado quatro grandes artistas que nos mostraram que qualquer um pode fazer música. Os Beatles também apareceram num período chave na História: o começo da globalização. O labour party no Reino Unido também criou condições para que a classe operária tivesse as mesmas oportunidades culturais que as classes sociais de topo. No entanto, nada disto tira o mérito à banda.

Quer seja nos anos 60, ou em 2020, a música dos Beatles encapsulou um sentimentos de mudança que nunca se perdeu. Nós pensamos, eles cantam. Um momento mágico, uma troca de olhares com uma fotografia na capa de um vinyl, uma porta que se abriu na parte de trás das nossas cabeças. E nunca ninguém nos vai poder tirar isso.

Em baixo, fica uma playlist feita pelo Espalha-Factos com músicas referidas nestas cinco entrevistas, assim como pequenas conversas com John Lennon para a BBC.

 

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