Manifestação

União Audiovisual: O grupo informal que apoia os profissionais da cultura quer “ajuda para ajudar”

Conhece o projeto que tem ajudado milhares de trabalhadores da área da cultura

A União Audiovisual, grupo informal criado com o intuito de apoiar os trabalhadores da área da cultura durante o período de pandemia em Portugal, ajuda, só em Lisboa, entre 50 a 70 pessoas por semana. O Espalha-Factos esteve à conversa com duas voluntárias da União Audiovisual, para compreender o impacto que a Covid-19 tem no setor e o quão imperativos são, ou não, os apoios à cultura.

À margem de um concerto da União Audiovisual com Agir, organizado pelo Village Underground, onde o bilhete de entrada era um saco de alimentos, falámos com Margarida Moreira e Liliana Bandeira sobre os desafios que a cultura tem enfrentado e a criação desta organização informal.

“Há medida que os dias avançavam, os pedidos de ajuda começavam a ser cada vez mais. Por essa razão, profissionais do ramo decidiram lançar um apelo no Facebook para criarmos esta associação. Assim nasceu a União Audiovisual”, adiantaram Margarida Moreira, designer de iluminação, e Liliana Bandeira, coordenadora de eventos e comercial na empresa Europalco.

Produtores, artistas, fotógrafos, cabeleireiros, cenógrafos, técnicos, maquilhadores e produtores viram as suas vidas em pausa. De acordo com um inquérito promovido pelo Sindicato dos Trabalhadores de Espetáculos, Audiovisual e Músicos (Cena-STE), no início do mês de abril, cerca de 98% dos profissionais do espetáculo tiveram os seus trabalhos cancelados, 33% dos quais por mais de 30 dias. A perda de trabalhadores para outros setores, a falta de rendimentos e o escasso acesso à cultura foram algumas das consequências que a pandemia desencadeou.

Seis mãos dadas.

Quem recebe ajuda da União Audiovisual?

M.M.: Qualquer profissional do meio da cultura pode beneficiar dos donativos angariados pela União Audiovisual. Basta ir ao nosso site e preencher o formulário. Nós encarregamo-nos de avaliar o pedido e, posteriormente, levar o cabaz a casa das pessoas.

Quantas famílias ajudam por semana? E quantas já ajudaram desde o início do projeto?

L.B.: Nós ajudamos cerca de 160 a 180 famílias por semana, o que corresponde a aproximadamente 600 pessoas. Estes foram os últimos números que obtivemos. Costumamos receber mais pedidos de ajuda a meio do mês. Não sabemos exatamente o número de pessoas que ajudámos desde o início do projeto, mas foram muitas, certamente.

Em termos monetários, qual o peso da pandemia no setor audiovisual?

M.M.: Ainda não está avaliado. A Associação Portuguesa de Serviços Técnicos para Eventos (APSTE) está encarregada de informar sobre esse valor. Posso adiantar que estamos a falar de quebras de faturação acima dos 90%. Sendo este um setor que mexe com milhões de euros e ainda com o turismo, isto significa uma quebra de muitos milhões.

Há alguma estimativa de quantos espetáculos foram cancelados, em Portugal, desde o início da pandemia?

L.B.: Não temos acesso ao número exato de concertos que foram cancelados desde o início da pandemia, mas foram muitos. Desde meados de março até ao final de abril foram cancelados cerca de 27 mil espetáculos. Isto em apenas um mês.

Inicialmente começaram por pedir donativos em dinheiro, mas agora só aceitam alimentos. Como é que as pessoas podem entrar em contacto com a União Audiovisual, caso queiram ajudar e não possam estar presentes em nenhum dos eventos solidários?

M.M.: Se não puderem estar presentes em nenhum dos eventos solidários, podem contactar-nos através da nossa página do Facebook. Criámos um grupo, também no Facebook, intitulado de ‘união audiovisual’, a que qualquer pessoa pode aceder. É fechado mas basta pedir para entrar que aceitamos. Podem também dirigir-se às nossas sedes. Temos vários pontos de recolha, as pessoas só têm de entrar em contacto connosco para perceber aquele que fica mais perto das suas casas.

A União Audiovisual é um projeto para continuar no período pós-pandemia?

L.B.: Não. A União Audiovisual foi criada com o intuito de ajudar os profissionais da área da cultura, durante o período de pandemia, uma vez que o setor paralisou. Posto isto, quando a pandemia terminar, a associação termina também.

Existem mais projetos como este, em Portugal, que ajudam os profissionais do ramo da cultura?

M.M.: Para além da União Audiovisual, existe também o nosSos – um projeto de ajuda alimentar que faz entregas semanais –  promovido pela companhia de teatro Palco 13. Não temos conhecimento de mais nada. Tem é havido algumas iniciativas por parte de vários artistas. Eles têm feito algumas coisas para ajudar e distribuir os bens essenciais pelos trabalhadores do ramo. A União Audiovisual é, no entanto, o grupo mais organizado e aquele que chega a mais gente.

saco com alimentos

De acordo com um estudo publicado em junho de 2020, pelo Gerador, a maioria dos portugueses reconhece a importância do papel da cultura durante a pandemia. Na vossa opinião, a cultura pode ajudar a minimizar os impactos do novo coronavírus na comunidade?

L.B.: Claro que sim. Aliás, a cultura vai ser a maneira de combater os problemas psicológicos que muitas pessoas desenvolveram durante o período de pandemia. Ninguém estava à espera de ficar tanto tempo em casa e de não poder usufruir da cultura. Isso tem repercussões. Quando falamos em cultura não nos referimos apenas à cultura dita ‘tradicional’. Estamos a falar de música, espetáculos de rua … tudo. A cultura é o que vai salvar as pessoas e trazer-lhes ânimo. A população está sedenta de espetáculos … está sedenta de sair à rua, ver alguma coisa, seja o que for: espetáculos de luzes, de som, tudo.

O mesmo estudo reconhece a falta de apoios financeiros, fiscais e sociais, por parte do Estado, à cultura. Caso existissem mais apoios, a situação dos profissionais desta área e, posteriormente, das suas famílias seria diferente?

M.M.: Óbvio. Nós somos pessoas que sempre demos tudo ao país. Sempre que foi necessário… nós estivemos lá. Neste momento é ridículo o apoio que recebemos. É ridícula a forma como nos fecharam a porta. Só queremos trabalhar! Já não nos deixam trabalhar há muito tempo! O mais grave é que muitos profissionais da área tiverem de abandonar os seus empregos. Têm famílias para sustentar, casas para pagar. Muitos colegas tiveram de se virar para outros setores – restauração, construção civil. O que mais tememos é que não voltem. Porque é que haverão de voltar para uma área tão instável, onde são pouco valorizados? Assim se perdem grandes profissionais.

Quatro de pessoas de máscara com o quadro da Mona Lisa no fundo.

Em que medida é que os apoios à cultura podem influenciar a sua qualidade?

L.B.: Se a cultura tiver mais apoios será tendencialmente melhor… isto se os mesmos forem bem distribuídos. Sendo assim, têm que haver mais e de qualidade. Existirem muitos apoios que depois vão para sítios que não interessam muito, ou que não precisam deles, também não faz sentido.

O Ministério da Cultura tem 0.4% do orçamento de Estado. Eles também não nadam em dinheiro. Se o Ministério da Cultura tivesse uma percentagem superior, claro que poderia ajudar muito mais. Já o que faz com o dinheiro que tem, isso não conseguimos julgar. Há muitas companhias de teatro que dependem dos subsídios estatais, quer dizer, existe toda uma máquina cultural no país que precisa muito desses apoios. Agora, obviamente que era preciso que houvesse mais para chegar a mais pessoas. E ainda para que, a certo ponto, o Estado não precisasse de dar dinheiro para a cultura acontecer. A partir de uma dada altura, já poderiam ser as próprias pessoas a contribuir para isso. O Estado ter de pagar tudo também não é o mais justo. As pessoas têm de ser habituadas a pagar por um valor. Tem de haver menos espetáculos à borla e mais apoios. O Estado não tem que pagar tudo, mas também não tem que não pagar nada. É necessário um equilíbrio.

Que apelo querem deixar às pessoas?

M.M.: Temos que ver isto de uma forma um bocadinho diferente. É uma situação em que nunca ninguém sonhou estar. Não estamos a falar de uma crise, de um momento em que a economia esteve um bocadinho pior, não. Estamos a falar da paragem total de um setor. Estamos a falar de vidas em pausa, de famílias que, neste momento, não têm qualquer tipo de rendimentos. Nós temos casos de famílias em que tanto o marido como a mulher trabalham no ramo audiovisual e ambos estão parados. Não estamos a falar de uma paragem de dias, semanas, mais sim de, pelo menos, seis meses. Estamos a falar de não entrar qualquer tipo de rendimento numa casa, ou entrarem uns míseros 80 euros de apoio do Estado. Uma casa onde vivem crianças, pessoas com dificuldades ou algum tipo de necessidade especial. É muito complicado lidar com isto.

O nosso apelo é que as pessoas olhem para o nosso mercado como se fosse a sua própria vida. Ajudem-nos a ajudar. É o que neste momento estamos a fazer, pelo menos enquanto conseguirmos. Nós próprios trabalhamos no setor e não sabemos o dia de amanhã. É contarmos uns com os outros. Pensar que somos um só.

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