Curtas
Fonte: Curtas Vila do Conde

Curtas 2020. O audiovisual não precisa de vozes

A quarta noite do 28.º Curtas Vila do Conde deu Carta Branca a Frank Beauvais. O realizador francês selecionou seis curtas-metragens para serem exibidas numa sessão única.

Num alinhamento de festival muito marcado pela presença de documentários, as escolhas da Carta Branca retiraram o diálogo oral da equação para realçar o audiovisual. As seis obras contam narrativas que usam o poder da imagem e do som para contar histórias. Poucas palavras são usadas e apenas em breves expressões textuais.

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Diskzokej é a primeira de duas curtas-metragens animadas da exibição. Num traço minimalista que mantém a eficácia da transmissão de movimento, o filme mostra-nos o dia-a-dia de um DJ.

O humor surge na recriação de tarefas mundanas através da técnica particular da curta-metragem. Na secção do espetáculo disc jockeying, a animação ganha contornos mais expressionistas e dá mais valor subjetivo a todo o trabalho. O final deixa uma aparente alfinetada ao consumismo que controla as nossas rotinas.

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Fonte: Curtas Vila do Conde

Chanson de Gestes foi a próxima. É uma obra melancólica que regista momentos na França que antecedeu o maio de 1968.

Na cidade de Paris, Guy Gilles capturou aqueles que procuram alcançar os seus sonhos. As canções de gesta que dão nome ao filme eram originalmente cantadas, mas não há vozes nesta curta-metragem. Apenas os gestos daqueles que desejam um futuro, unidos por uma banda sonora sensível e acolhedora.

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Fonte: Curtas Vila do Conde

Milk of Amnesia é a outra animação selecionada por Beauvais. O americano Jeff Scher funde imagens do quotidiano com dois tangos populares argentinos – Rosa de Otoño Lo que vieron tus ojos.

O filme é um cocktail intenso de imagens, conseguido através de simples desenho e pintura em cartões, mais tarde filmados numa câmara de 16 milímetros. O realizador recomenda que escutemos qualquer canção enquanto visionamos a curta-metragem, pois o ritmo permite que resulte com um leque vasto de opções musicais. Fica o convite.

A segunda metade da Carta Branca começa com a que se destaca acima do resto. Narcissus de Norman McLaren conta a tragédia grega de Narciso através de uma coreografia bela de ballet.

Norman McLaren coloca os bailarinos num cenário escuro, sem qualquer caracterização. E também não necessita, pois a força do audiovisual não precisa de vozes para contar esta narrativa. A coreografia de Fernand Nault faz um par perfeito com a composição de Maurice Blackburn. Tanto a banda sonora delicada como os passos de dança graciosos transmitem todo o confronto emocional das personagens.

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O erotismo subtil acentua o impacto de cada movimento e transmite por completo o destino fatídico de Narciso, um homem orgulhoso que se apaixonou por ele próprio sem nunca o perceber e acabou capturado por este amor não-correspondido.

O momento mais ambicioso é precisamente o dueto impossível de Narciso com a sua imagem. Um uso engenhoso de sobreposições é o culminar poética desta interpretação de Norman McLaren. Para quem precisa de perceber como se conta uma história sem nenhuma palavra, só são precisos os 22 minutos de Narcissus.

O erotismo acentua-se com Cathedral. Dez minutos exatos de uma experiência sexual que, na verdade, é uma demonstração de amor. A câmara filma suavemente os pormenores de três corpos masculinos que vão descobrindo os prazeres uns dos outros ao mesmo tempo que a cinematografia do filme. Nada gratuito, apenas uma celebração do que é o verdadeiro afeto.

Importante destacar a relevância histórica desta obra. Cathedral é um dos primeiros filmes LGBTQ+ depois de Stonewall. Durante cerca de 50 anos, acreditava-se que tinha sido perdido. Felizmente, foi reencontrado na primavera de 2019 e, entretanto, restaurado em alta definição.

Numa decisão que não deve ser nada inocente, o realizador Ronald Chase contrapõe a paixão dos três homens com as luzes dos vitrais da Sainte-Chapelle de Paris. A certo ponto, parece que o ato comunga-se em pleno cenário cristão. Para alguns sacrilégio, mas nesta curta-metragem não há nada mais sagrado.

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Fonte: Curtas Vila do Conde

Em jeito de epílogo temos 1, 2, 3, 4. Frank Beauvais quis que o espectador do Curtas saísse com alguns puzzles para resolver.

O filme são quatro minutos e meio em que um pensamento filosófico, sociológico ou político surge associado a uma imagem fixa – fotografia ou desenho. Cada frame passa de rajada e o significado da relação entre texto e ilustração não é logo evidente. Está lá, algumas mais nítidas do que outras, todas elas ironias incisivas sobre certas incongruências das nossas vidas.

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Fonte: Curtas Vila do Conde

Carta Branca de Frank Beauvais foi das melhores sessões do Curtas até ao momento. Vários destes filmes estão disponíveis online legalmente, porém a experiência de os ver seguidos, pela ordem exata, numa sala de Cinema, é especial.

Uma noite que nos leva aos essenciais da Sétima Arte. Onde não precisamos de grandes heróis e assustadores vilões, onde nem sequer precisamos de vozes ou palavras. Apenas o poder do som aliado ao impacto da imagem conseguem transmitir histórias que ficam connosco para a vida, como esta sessão ficou com os espetadores.

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