Curtas
Fonte: Curtas Vila do Conde

Curtas 2020. As vozes portuguesas de Ana Maria Gomes fizeram-se ouvir

28.º Curtas Vila do Conde deu destaque a duas obras da realizadora Ana Maria Gomes esta segunda-feira (5). António, Lindo AntónioBustarenga foram exibidos na rubrica New Voices.

A realizadora luso-francesa já teve uma passagem muito bem-sucedida pelo festival. Em 2016, António, Lindo António ganhou tanto o Prémio de Melhor Curta Metragem Portuguesa, como também o Prémio do Público equivalente. E a ligação ao evento continua, sendo Bustarenga produzido pela mesma organização responsável do Curtas.

A exibição começou pela obra mais antiga. António, Lindo António procura saber as razões pelas quais o tio da realizadora, que partiu há 50 anos para o Brasil, nunca mais voltou à sua aldeia. Um regresso de Ana Maria Gomes à terra natal de Bustarenga, em São Pedro do Sul.

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A narrativa do documentário é contada através de depoimentos dos vários familiares do tio António e da realizadora. A avó, de certa forma a matriarca da família, é o melhor aspeto da curta-metragem. Uma figura sem papas na língua, com uma personalidade fantástica e recheada de palavras sábias para a realizadora e, também, para o espetador.

António, Lindo António é uma história de família, mas é igualmente um retrato do Portugal de ontem que ainda é, em muitas regiões esquecidas, o de agora. A saudade, tão típica invenção portuguesa, liga os membros desta família e é um retrato de muitas outras que viram os filhos emigrar para melhores lugares durante o Estado Novo.

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Fonte: Curtas Vila do Conde

Contraste de gerações

Bustarenga é uma sequela espiritual do primeiro documentário, em que Ana Maria Gomes regressa à sua terra natal, desta vez para entrevistar mais pessoas e abordar um tema mais amplo. Afinal, como encontramos a nossa figura de “príncipe encantado”?

As respostas variam de entrevistado para entrevistado, ficando claro que há diferenças culturais e, principalmente, geracionais. A querida avó está de volta com mais comentários perspicazes e divertidos, porém desta vez há um leque de outras mulheres idosas com pensamentos igualmente interessantes.

É curioso ouvir opiniões que nunca são parecidas, percebendo que dentro de uma geração há pessoas com mentalidades mais progressistas, enquanto outras se mantêm conservadoras. A internet e aplicações como o Tinder contrastam com o cenário rural e pouco modernizado de Bustarenga. É, no fundo, um diálogo entre o passado e presente que prova que ninguém tem de ficar para trás e que não estamos tão longe como podemos pensar dos nossos anciãos.

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Fonte: Curtas Vila do Conde

Em ambas as curtas-metragens fica claro o talento fantástico que Ana Maria Gomes tem para captar os belos cenários da sua terra natal. A cinematografia é impressionante, capaz de transportar o espetador para dentro de Bustarenga e das vidas dos seus habitantes. E não podemos descurar a sensibilidade narrativa das duas obras, pois a realizadora luso-francesa interliga duas histórias que acabam por ser a nossa História enquanto país.

Em fim de tarde dedicado às novas vozes do Cinema, o Curtas Vila do Conde deu palco para Ana Maria Gomes fazer ouvir as vozes portuguesas que a moldaram. Um retrato de uma geração e de um conjunto de terras que não podem ser abandonadas ou esquecidas mas sim protegidas, valorizadas e, sobretudo, respeitadas, para que possamos todos aprender e evoluir uns com os outros.

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