Curtas
Fonte: Curtas Vila do Conde

Curtas 2020. Um quarteto de pequenas curtas de grandes realizadores

A rubrica Os grandes nunca deixam as curtas foi um dos grandes destaques do segundo dia do 28.º Curtas Vila do Conde. Quatro curtas de realizadores consagrados foram exibidas este domingo (4), no Teatro Municipal da cidade.

João Pedro Rodrigues, Jonathan Glazer, José Luis Guerin e Yorgos Lanthimos – que em 2019 esteve nomeado para Óscares têm um historial de curtas-metragens e passagens pelo festival. Agora, com a carreira estabelecida, regressaram todos ao formato no ano passado.

Potemkin Steps, de João Pedro Rodrigues, deu início à sessão. São pouco mais de 3 minutos que documentam a atividade da gigantesca escadaria do Primrosky Boulevard, em Odessa, na Ucrânia.

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Em alternância entre um iPhone e uma câmara Super 8, o realizador monta um pequeno retrato da vivência do local icónico, contrapondo com o histórico O Couraçado Potemkine. É um filme mudo soviético de 1926 que retrata uma rebelião ocorrida em 1905, onde os tripulantes do navio de guerra Potemkin se rebelaram contra seus oficiais superiores.

Em 1958, era eleito na Feira Mundial de Bruxelas o melhor filme de sempre. Hoje em dia, o estatuto já não é tão elevado, porém continua a ser listado como uma das melhores obras do Cinema e um destaque da era muda da Sétima Arte.

Curtas
Fonte: Curtas Vila do Conde

De seguida tivemos Nimic do grego Yorgos Lanthimos. Numa carruagem de metro, um pai de família e violoncelista profissional (Matt Dillon), está na sua rotina diária, quando se encontra com uma perturbante estranha (Daphne Patakia) que irá, inesperadamente, mudar a sua vida.

A narrativa habita o mundo surrealista que Yorgos tanto adora explorar. Nunca chegamos a receber qualquer tipo de explicação para o que acontece nos 12 minutos desta curta-metragem, mas também não necessitamos.

Imagens bem filmadas e embaladas pelo suspense sonoro de uma orquestra transportam-nos para o que podia bem ser um episódio de Black Mirror. Daphne Patakia é hilariante e, simultaneamente, perturbadora no papel de antagonista (ou será protagonista?). No fundo, é uma curta bem ao estilo de Yorgos Lanthimos.

Em penúltimo tivemos The Fall de Jonathan Glazer. Tem apenas sete minutos, contudo o mundo em que habita é de um valor infinito.

É uma curta inspirada numa gravura do pintor Francisco Goya intitulada El sueño de la razón produce monstruos. A interpretação comum passa por um corpo humano a ser atormentado por criaturas sombrias enquanto dorme. Uma descrição familiar de experiências com paralisia do sono.

The Fall é mesmo um pesadelo no melhor dos sentidos. Todos os minutos são intensos e tenebrosos, retratando o horror de uma multidão organizada que só quer ver sangue a correr. Os paralelos com o estado atual do mundo e da ascensão de movimentos extremistas e intolerantes é evidente.

O mais desconcertante será o final. Sem descrever o que acontece, o leitor só precisa de saber que a curta-metragem acaba antes da narrativa chegar a um fim. Se é que esse fim poderá ser alcançado, pois o protagonista pode muito bem continuar no limbo fatídico dos últimos minutos da obra. Talvez porque nós também não chegamos à conclusão dos tempos conturbados em que vivemos.

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Fonte: Curtas Vila do Conde

De Una Isla, de José Luis Guerin, terminou a sessão. É a curta-metragem mais longa deste conjunto, tendo cerca de 25 minutos.

A proposta é simples: contar a história da ilha de Lanzarote – tão associada pelos portugueses a José Saramago. Apesar do caráter puramente documental, o filme pretende na realidade hipnotizar o espetador através de uma gravação em 16 milímetros, a preto e branco e uma banda sonora pacífica e poética. Nenhuma voz atreve a romper o transe, visto que toda a informação é transmitida através de legendas em inglês.

Nem todos terão paciência para o que no fundo acaba por ser quase meia-hora de meditação cinematográfica. Não obstante, para aqueles que se deixem conquistar pela ternura melancólica dos visuais e fiquem atentos às informações que surgem no ecrã, De Una Isla é uma curta rica e marcante.

Curtas Vila do Conde é mesmo assim. Exibições que nem chegam a uma hora, com muitas pequenas curtas, porém criadas por grandes realizadores que deixam um impacto que se mantém muito depois de abandonarmos a sala.

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