Pátria é a nova aposta espanhola da HBO.
HBO / Divulgação

Crítica. ‘Pátria’ é um retrato adulto dos conflitos a envolver o País Basco

Os dois primeiros episódios já estão disponíveis na plataforma de streaming da HBO Portugal.

Pátria, a nova aposta espanhola da HBO, uma adaptação do livro de Fernando Aramburu, é uma série narrativamente corajosa pelo caminho que escolhe para narrar e analisar os eventos em torno das ações da ETA, o grupo terrorista que lutou pela independência do País Basco.

O Espalha-Factos viu os dois primeiros episódios da série criada por Aitor Gabilondo e conta-te tudo.
O tronco central da história gira à volta do assassinato de Txato (José Ramón Soroiz), um empresário basco, às mãos de um homem da ETA, por volta da década de 1980, na região de Euskadi. A série dá um salto temporal em 2011 quando a viúva do falecido, Bittori (Elena Irureta), descobre nas notícias que o dito grupo terrorista anunciou um cessar fogo, depois de mais de 800 mortes perpetuadas e um clima de terror instalado durante perto de 50 anos. Ao saber da boa-nova, decide regressar a Euskadi para descobrir quem foi o responsável pela morte do marido.

A série salta entre estas duas linhas de tempo intencionalmente e de forma desorganizada, sem grandes anúncios de que o está a fazer, pedindo ao espectador que fique atento. Somos igualmente introduzidos à história de Miren (Ane Gabarain) e Joxian (Mikel Laskurain), os melhores amigos de Bittori e Txato no passado, e que não falam com a viúva no presente. O filho mais velho, Joxe Mari (Jon Olivares), encontra-se atualmente na prisão por terrorismo e a irmã, Arantxa (Loreto Mauleón), sofreu um ataque cardíaco que a deixou completamente dependente dos pais, numa cadeira de rodas.

A decisão de Miren voltar a Euskadi para descobrir toda a verdade sobre a morte do marido não é vista com bons olhos pela população local, que apenas quer paz e enterrar o passado violento da ETA. E a coragem narrativa de Pátria vem daqui. Em vez de tomar lados ou apontar dedos a culpados, a série é um exercício de análise histórico em que dá corpo e voz aos dois lados da barricada. Bittori e Miren espelham, aliás, os dois polos opostos dignos da atenção do argumento escrito pelo próprio Gabilondo.

Bittori representa o lado das vítimas das ações da ETA que, partindo de uma base pacifista, rapidamente se tornou violenta na sua forma de agir e manifestar, levando à morte de centenas de pessoas. O marido de Bittori foi precisamente uma das vítimas e isso marcou-o para sempre. Facilmente se percebe este desejo da viúva de descobrir algum fundo de verdade por detrás da tragédia, mesmo que tenham passado mais de dez ou quinze anos daquele acontecimento.

Mas a série também nos faz entender a posição de Miren, a mãe de um dos terroristas que se encontram agora encarcerados. Conseguimos sentir pena por estas pessoas que têm filhos ou amizades próximas a entrar nas fileiras da ETA e depois verem as suas vidas estragadas por terem tomado tal iniciativa. Miren sabe aquilo que o filho fez, mas este não deixa de ser seu filho. E ver Bittori a voltar para desenterrar os fantasmas do passado, anos depois, vem só reabrir feridas e estragar uma espécie de luto instaurado.

'Pátria' é um retrato adulto do conflito que envolveu o País Basco.
HBO / Divulgação

Aliás, Joxe Mari podia muito bem ser um simples vilão, sem qualquer densidade, mas é retratado como um ser humano que gosta da mãe, se preocupa com a família, mesmo que algumas das suas ações não sejam desculpáveis. Pátria esforça-se e é bem sucedida em tentar fazer-nos refletir sobre as jornadas que ambos os lados tiveram de enfrentar, à luz dos estragos causados pela ETA. Há quem tenha sido uma vítima direta da organização, mas também existiu quem tivesse sofrido por ver filhos envolvidos no grupo. A História não é fácil e Pátria assume corajosamente esta árdua tarefa de dar voz a todos os lados, sem apontar dedos ou tomar posição ideológica.

Para além disso, a série espanhola mostra estar a furos muito acima das restantes produções espanholas que atualmente povoam o catálogo da Netflix, pelo facto de estar mais preocupada em construir personagens e arcos narrativos do que propriamente lançar grandes revelações e bombas chocantes ao espectador no fim de cada episódio. Pátria assume até a curiosa decisão de revelar, logo na primeira cena, quem foi o assassino de Txato, ou por exemplo, o porquê de Arantxa ter ficado no estado em que está no tempo presente da história.

São revelações que podiam ser guardadas para o final da série, maximizando o impacto, mas tratando-as como coisas naturais e comuns do argumento, Pátria ganha pontos por fidelizar o espectador a uma narrativa adulta e consciente da história que tem de contar, povoada de personagens humanas e reais.

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Ane Gabarain e Elena Irureta são, sem sombra de dúvidas, as estrelas do elenco de Pátria. As atrizes cumprem na perfeição a tarefa de representar a dor e amargura que as personagens sofrem, tudo por causa do terror causado pela ETA. São performances contidas mas palpáveis, de mulheres que carregam uma tristeza quase indescritível. Aliás, o foco admirável que Pátria dá às suas personagens femininas fez-me viajar a Viúvas, com Viola Davis à cabeça do elenco do filme estreado em 2018, que contava a história de quatro mulheres que se iriam vingar das dívidas deixadas pelos maridos falecidos, criadas pelas suas atividades criminosas.

A grande ponta solta dos dois primeiros episódios de Pátria é, muito provavelmente, uma certa falta de subtilidade na forma como expõe alguns eventos. Frequentemente encontramos personagens a explicar a outras alguns acontecimentos e, na cena a seguir, vemos esse mesmo acontecimento a desenrolar-se, mesmo tendo o espectador já tomado conhecimento desse evento. Às vezes a narrativa é mais poderosa quando temos conhecimento de coisas através dos diálogos entre personagens, numa conversa, ao invés de vermos algo a acontecer literalmente à nossa frente.

Mas Pátria é um produto superior da HBO, que coloca uma fasquia elevada às restantes produções espanholas que começam a ganhar espaço no entretenimento internacional. É uma série com excelentes performances e um retrato árduo e doloroso do passado violento do País Basco, à luz das tragédias provocadas pela ETA.

Os dois primeiros episódios de Pátria já estão disponíveis na HBO Portugal e os restantes serão disponibilizados semanalmente até ao fim da temporada.

Pátria é a nova aposta espanhola da HBO.
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