Arte do álbum Kid A dos Radiohead
Fotografia: Reprodução/DR

20 anos depois: ‘Kid A’ dos Radiohead e o legado do recomeço

"'Kid A' foi como pegar numa borracha enorme e começar tudo de novo"

Radiohead lançaram Kid A a 2 de outubro de 2000. 20 anos depois, o quarto álbum da banda inglesa ainda é um marco na música alternativa. Na nova lista de 500 Melhores Álbuns de Sempre da Rolling Stone, o disco figurou na 20.ª posição. Radiohead nunca fizeram o expectável, mas na década do Napster e Pirate Bay, o álbum multa-platina fez história.

É impossível falar de Kid A sem mencionar o seu predecessor OK Computer. O disco teve sucesso sem precedentes na história da banda: vendeu milhões de unidades e ganhou o Grammy para Melhor Álbum de Música Alternativa. Depois de uma turnê com a duração de dois anos, Thom Yorke, vocalista, guitarrista e letrista, estava farto da música dos Radiohead e “farto de melodias”.” Só me interessava ritmo”, dizia em outubro à revista Q. O baixista Collin Greenwood também exprimiu o desejo de mudança, “outras bandas estavam a fazer o mesmo. Tínhamos de avançar”.

Kid A foi como pegar numa borracha enorme e começar tudo de novo”, explicou Thom Yorke à Rolling Stone. Com “tudo”, Yorke referia-se ao registo musical dos três primeiros álbuns, Pablo HoneyThe Bends OK Computer. Os Radiohead estavam fartos de ser a banda de rock sensação e “os próximos The Beatles”. O resultado desta saturação foi um disco que juntou vários géneros musicais como IDM (Inteligent Music Dance), música clássica contemporânea,  jazz e música ambiente.

O álbum abre com ‘Everything in It’s Right Place’Jonhy Greenwood, guitarrista principal da banda e multi-instrumentista, disse que “essa tinha de ser a primeira música. O resto do álbum aparece como uma consequência”. A primeira faixa encapsula todo o sentimento do disco: uma melodia acústica, escrita no piano, mas envolvida numa camada eletrónica, com um secção rítmica desenvolvida por Philip Selway que, em vez de estar atrás de uma bateria, estava atrás de uma drum machine.

Dizer que os Radiohead renunciaram tudo o que os tornou populares é uma visão algo irrealista. Se em OK Computer os elementos de música eletrónica estavam em segundo plano, em Kid A tornaram-se o corpo principal das músicas. As melodias compostas por Ed O’ Brien, guitarrista, estão presentes em faixas como ‘In Limbo’ e ‘Optimistic’; o falsetto de Thom Yorke ainda se ouve em ‘Idioteque’; as letras introspetivas ainda são cantadas em ‘Motion Picture Soundtrack’; os arranjos orquestrais de Johnny Greenwood ainda adornam ‘How to Disappear Completely‘.

Kid A é a blueprint dos sentimentos experienciados pela banda. A ansiedade é relatada na secção de sopros de ‘National Anthem’, a melancolia em ‘How to Disappear Completely‘, o caos em ‘Idioteque’.

Quais foram as influências para Kid A?

Thom Yorke lista Aphew Twin, Autechre, entre outros artistas da Warp Records, como inspiração. A banda de kautrock Can insipirou inúmeras sessões de improviso no estúdio. O jazz de Charles Mingus, Alice Coltrane e Miles Davis também estão presentes, em músicas como ‘National Anthem’ e ‘Morning Bell’.hip-hop abstrato de DJ Krush e Blackalicious inspirou as secções rítmicas do álbum. Yorke indicou os álbuns Remain in light e Homogenic, dos Talking Heads e de Björk, respetivamente, como referências para definir o som de Kid A.

David Byrne, dos Talking Heads, serviu de referência para a escrita das letras de Kid A. “Quando eles estavam a fazer o álbum (Remain in light), não tinham letras concretas, escreveram à medida que iam gravando. Foi exatamente assim que eu abordei Kid A“, explicou Yorke à The Wire, em 2001. Os Radiohead fizeram questão de não imprimir as letras com o formato físico do álbum, para que a música e as palavras pudessem existir independentes uma da outra. Nessa mesma entrevista para The Wire, Thom Yorke pediu aos fãs para não se focarem nas palavras.

O processo de gravação

O álbum não teria sido possível sem a ajuda de Nigel Godrichprodutor e DJ inglês. Godrich está com a banda desde The Bends e é apelidado pelos fãs como o sexto membro dos Radiohead. O produtor não entendeu a mudança súbita no registo musical do grupo, mas confiou em Yorke para entrar nesta nova aventura.

O disco foi gravado num estúdio em Oxford, mas não na sua totalidade. A secção de cordas de ‘How to Disappear Completely‘ foi gravada numa igreja em Dorchester Abbey. As sessões de estúdio continuaram numa mansão em Gloucestershire, devido à enormidade do equipamento de som, e em Copenhaga.

Para chegar àquela dualidade de sons referida acima, a banda dividiu-se em dois grupos: um encarregue pela escrita de melodias e secções rítmicas, e outro, que iria trabalhar com o resultado dessas mesmas sessões, para montar as músicas.

Um álbum publicitado como um todo — na internet

A antecipação do disco foi comparada à de In Utero, dos Nirvana. No entanto, os Radiohead recusaram-se a lançar singles promocionais, pois queriam que o álbum fosse ouvido como um todo. ‘Optimistic’ foi a única faixa a ser lançada antes do álbum, tendo uma difusão na rádio muito controlada. Os críticos não receberam cópias antecipadas do álbum e ouviram o disco em condições muito restritas. A banda recusou-se a fazer sessões de fotografia para revistas e procurou métodos alternativos, como, por exemplo, enviar fotos editadas em Photoshop para publicações de música como a Q. 

Na década de Napster e do Pirate Bay, Kid A foi certificado em Disco de Platina em vários países. Sem um único tele-disco a passar na MTV ou singles promocionais na rádio. Como é que isto foi possível?

Os Radiohead decidiram apostar na internet. Robin Sloan Bechtel, da Capitol, disse que a banda provou ser possível promover com sucesso um disco sem apostar nos métodos convencionais. Ed O’ Brien escreveu um diário no site oficial da banda, para manter os fãs a par do que os Radiohead andavam a fazer; Thom Yorke organizou um DJ set virtual; a própria Capitol preferiu divulgar pequenos vídeos com as músicas de Kid A na internet do que enviá-los para a MTV.

Stanley Donwood, artista que colabora com Radiohead desde 1994, realizou estes pequenos vídeos. Criou uma mascote para a banda, com ajuda de Thom Yorke, que batizou de Modified Bear. O “ursinho” tem acompanhado os Radiohead deste então.

De onde veio o artwork do álbum?

Stanley Donwood e Thom Yorke desenharam a capa do álbum. Donwood pintou as montanhas de Kid A, com facas e paus, e depois manipulou os desenhos no Photoshop. Yorke disse que ficou “obcecado” com as estatísticas do site do Worldwatch Institute sobre as alterações climáticas. Pediu então a Donwood que usasse montanhas glaciares como elemento principal da capa do álbum. Donwood disse que a guerra no Kosovo também serviu como fonte de inspiração.

Capa do álbum 'Kid A', dos Radiohead
Capa do álbum ‘Kid A’, dos Radiohead

Críticas divisoras

Kid A não teve o sucesso imediato de OK Computer e dividiu a opinião de críticos e de fãs.  A Mojo escreveu que “Kid A é horrível, na primeira escuta”, enquanto a New Yorker e o New York Times descreveram o álbum como pouco original. The Guardian classificou o álbum como um cliché, enquanto a Select escreveu “o que é que eles querem por estarem a imitar o Aphex Twin? Uma medalha?”.

As críticas favoráveis vieram da parte da Rolling StonePitchfork e da AllMusic. A Spin escreveu que Kid A iria ser relembrado pelos fãs como o “melhor e mais corajoso trabalho dos Radiohead”, enquanto a Billboard descreveu-o como “o primeiro álbum avassalador do século XXI”.

Tal como o seu predecessor, Kid A foi nomeado nos Grammys para Álbum do Ano e ganhou na categoria de Melhor Álbum de Música Alternativa.

Ao longo das décadas, os críticos reescreveram as suas opiniões sobre Kid A, e o álbum foi comparado a Bringing it All Back Home, de Bob Dylan. Nos anos 60, o cantor norte-americano foi criticado por ter virado costas à música folk e ter-se aventurado no blues-rock. Anos mais tarde, ninguém quis admitir que não gostou do álbum, “pois não queriam ser os estúpidos que não perceberam” as intenções do músico, escreve a Pitchfork. No The Guardian, as opiniões mantiveram-se, mas reconheceram a importância e o legado do álbum na primeira década do século XXI.

A Rolling Stone coroou Kid A como o melhor álbum da década de 200o, assim como a Pitchfork, Pop Matters e a La Vanguardia. Foram incluídos no top 1o nas listas de The GuardianFact, Musikexpress, Porcys, Paste, entre outras.

Quem é o Kid B e o que retiramos de Kid A ao fim de 20 anos?

Em abril de 2000, Thom Yorke anunciou no site dos Radiohead que já tinham um álbum pronto. No entanto, esse álbum consistia em 20 músicas. A banda ponderou em lançar um LP duplo, mas achou que algum do material era demaisado denso e que não teria sucesso. Esse material mais “denso” foi lançado em 2001, sob o título de Amnesiac. Após alguns retoques, a sequela de Kid A estava nas lojas. Podemos comparar Amnesiac ao Magical Mistery Tour dos Beatles: um álbum que recolheu algumas músicas deixadas de fora do seu predecessor, no caso deles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, e algumas músicas novas, inspiradas pelo sucesso de Kid A. 

O que podemos concluir acerca de Kid A ao fim destes longos 20 anos? Podemos recuar novamente até aos anos 60: quando ouviu ‘Like a Rolling Stone’, de Bob Dylan, Frank Zappa considerou parar de tocar, pois “se aquela canção tivesse feito o que deveria ter feito, então eu já não tinha mais nada a acrescentar”. Kid A fez exatamente o que tinha a fazer: colocou uma bomba no seio da cronologia da discografia da banda e explodiu com tudo. No entanto, dizer que os Radiohead mudaram a indústria musical por completo é um bocado rebuscado: os Strokes e os Arctic Monkeys lançaram álbuns tão, ou mais, bem sucedidos que Kid A poucos anos mais tarde. Uma coisa é certo, se não fosse por esse álbum, a banda não teria o legado que tem hoje. Com isto, os Radiohead foram os novos The Beatles, ou seja, nunca fizeram o que era esperado. Conquistaram a confiança de toda a gente, entregámos-lhes o mapa e dissemos “agora vocês dizem o caminho”.

Em suma, outras bandas, nos anos 2000, cumpriram com o que era esperado, como os Coldplay, ou os Muse. Os Radiohead não. Três anos depois de Kid A, destruíram tudo de novo e lançaram Hail to the Thief. E nós estivemos lá para ver.

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