The Comey Rule
Fotografia: Showtime

Crítica. ‘The Comey Rule’: uma série para quem já se interessa por política

The Comey Rule, a história baseada no livro A Higher Loyalty, da autoria do ex-diretor do FBI, James Comey, chegou à HBO Portugal, este domingo (27), em formato de minissérie. Realizada por Billy Ray, a produção foca-se, principalmente, no papel do autor nas eleições presidenciais americanas de 2016.

Muitas vezes perguntamo-nos como é que um homem como Donald Trump chegou à presidência dos Estados Unidos. Apesar de sabermos que se trata de um dos países mais poderosos do mundo, nem sempre estamos atentos à sua vida política. Uma coisa é certa, as eleições de 2016 fizeram com que o mundo prestasse ainda mais atenção àquilo que se passa na América.

Devido à campanha eleitoral extremamente racista, misógina e homofóbica que protagonizou nesse ano, trazendo de volta várias das coisas que já não deviam fazer parte do nosso léxico em pleno século XXI, a vitória de Trump preocupou não só inúmeros americanos, como milhares de milhões de pessoas à volta do globo. É neste panorama que entramos em The Comey Rule, produção que revela como o atual presidente americano chegou ao poder e quais foram os factores que fizeram Hillary Clinton perder as eleições.

A narrativa começa seis anos antes, em 2013, quando Barack Obama convida James Comey para ser o diretor do FBI, apesar das opiniões que têm sobre as reformas de justiça criminal serem diferentes. Contudo, Comey conquista a confiança de Obama através da sua história de infância e por considerar que “apanhar os maus da fita é melhor que dinheiro”. James Comey esteve presente em vários acontecimentos políticos, vendo, no entanto, a sua carreira complicar-se em 2015, um ano e meio antes das eleições.

The Comey Rule
Jeff Daniels no papel de Comey e Kingsley Ben-Adir no de Obama

Uma série de dois episódios

The Comey Rule é uma história que se divide em duas partes, sendo que a primeira se foca na investigação dos e-mails de Hillary Clinton, que foi acusada de usar o seu e-mail pessoal para tratar de assuntos de Estado. A minissérie revela assim, o impacto que o FBI teve nas eleições, e a forma como, inconscientemente, moldou a opinião publica.

Infelizmente, já que se baseia em factos verídicos, The Comey Rule não tem muito espaço para invenções que possam entreter os espectadores. É por isso que a série, apesar de importante, é sobretudo informativa e, esse excesso de informação torna-a ligeiramente cansativa. Esta vertente mais documental é ainda explorada com a utilização de imagens de arquivo, de notícias da época, que enriquecem os episódios.

No segundo episódio aborda-se o pós-eleições, onde podemos ver a reação do país à vitória de Trump, que culpa Comey de o ter ajudado a chegar à presidência. Assim, quando sobe ao poder, Trump tenta criar uma amizade (forçada) com o diretor do FBI. Nesta segunda parte desenrola-se uma das melhores cenas de The Comey Rule, que acontece durante um jantar entre os dois, e em que o presidente dos EUA pede a James Comey que lhe seja leal.

The Comey Rule
Conversa entre Comey e Trump (Brendan Gleeson)

Ora, a natureza corrupta de Donald Trump é visível desde o dia em que entrou na Casa Branca, porém, quando estes acontecimentos são narrados pelo diretor do FBI, ganham outra importância. Com a diferença de personalidades e de valores que, ao longo da minissérie, se tornam cada vez mais notórias, alcança-se um final esperado – o despedimento de Comey. The Comey Rule termina, mas deixa ainda uma última mensagem deixada pelo realizador: “A Rússia está ativamente a interferir com as eleições de 2020, assim como o fez em 2016”.

Um elenco bem escolhido

Com uma vasta carreira como ator, seria de esperar que Jeff Daniels arrasasse no papel da personagem principal – James Comey. No entanto, Daniels fica aquém das expetativas. Não é culpa do ator, mas já que é a história do ex-diretor do FBI, seria de esperar uma personagem ativa e que nos prendesse ao ecrã pela incerteza do que poderia acontecer a seguir. Não é o caso. A personagem não é nada de especial e além disso, não existem momentos de alarido à volta dela, o que a torna desinteressante.

Por outro lado, temos Brendan Gleeson a interpretar Donald Trump. Esta prestação pode ser descrita em uma palavra: incrível. Embora não tenha aparecido no primeiro episódio, sozinho carregou o segundo às costas e tornou-se a maior razão para ver e sugerir The Comey Rule. A representação de Gleeson foi tão impecável que o ator conseguiu imitar as expressões faciais, a maneira de andar e até a maneira de falar tão características do presidente dos EUA. Tornou-se assustadoramente parecido com ele.

Ainda que não sejam tão destacados, é de realçar a prestação de Kingsley Ben-Adir, no papel de Obama e, apesar do elenco predominantemente masculino, Holly Hunter como Sally Yates. Sobre o resto do elenco pode dizer-se que as personagens foram escolhidas a dedo, sendo que, apesar de identificadas, são facilmente reconhecidas pelas parecenças com as pessoas que interpretam. The Comey Rule conta também com Michael Kelly, Jennifer Ehle, Scoot McNairy, Jonathan Banks, Oona Chaplin e Amy Seimetz.

The Comey Rule
Holly Hunter interpreta Sally Yates

Pontos fracos de The Comey Rule

Uma vez que a minissérie acaba com o despedimento do diretor do FBI, supõe-se que esta não tenha continuação. Poderia prosseguir com a história da presidência de Trump, mas o próprio nome da série indica que a narrativa é conduzida por Comey. Além disso, como é baseada num livro que não tem uma segunda parte, The Comey Rule acaba com apenas dois episódios.

Estes episódios são, contudo, demasiado longos e cansativos. Com mais de 1h30 de episódio, o espetador já nem sabe se está ou não a ver um filme. Assim, o grande ponto fraco da série é a sua duração. The Comey Rule ficava melhor servida com, por exemplo, cinco episódios mais curtos e que fizessem com que o espectador quisesse ver mais. Desta forma, vemo-nos a fazer um esforço para acompanhar tudo.

Os cenários da série são também bastante básicos. Para além dos escritórios do FBI, do interior da Casa Branca e das ruas de Washington, que não são estranhas a quem vê outros filmes ou séries do género, não há muito mais para ver. Acima de tudo, é mais fácil dizer que The Comey Rule é uma série destinada àqueles que gostam de política e que não se chateiam com a imensidão de termos específicos utilizados.

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